



O cara mais esquisito do lugar era eu, usando bermuda e camiseta.

História bonita e tal mas a verdade é que o Taj Mahal está se transformando, hoje, num símbolo de como a vida moderna destrói os sonhos românticos.
O primeiro golpe na lenda dos apaixonados vem da ciência. Historiadores enxergam um simbolismo escondido nas inscrições islâmicas que adornam as paredes do mausoléu. Estão reproduzidos ali 14 capítulos do Corão que tratam sobre o Dia do Julgamento Final e sobre os prazeres do paraíso. Um deles, no portão de entrada, é uma citação em que Alah convida os homens de fé a entrarem no seu paraíso.
Além disso, foi descoberto recentemente um texto em Sufi antigo que descreve como seria o trono de Deus e, adivinhem, a descrição é idêntica à planta do Taj Mahal. O texto constava da biblioteca do pai de Shah Jahan. Associando as duas evidências, os cientistas alegam que Shah podia, sim, ser muito apaixonado pela esposa. Mas que também se considerava Deus e o mausoléu, no caso, teria sido construído para ele mesmo reproduzindo as descrições do paraíso.
De que ela era megalomaníaco ninguém duvida. Basta olhar para o imenso mausoléu.

As flores feitas de pedras semi-preciosas foram engastadas no mármore

Estas foram esculpidas numa longa pedra de mármore branco

Mais adornos engastados nas paredes do palácio

As descobertas da ciência podem abalar o mito, mas não acabam com a magia do Taj Mahal. Esta está sendo destruída mesmo é pela poluição lançada na atmosfera por automóveis e indústrias da região.
A chuva se tornou ácida e já há alguns anos vem correndo o mármore do palácio. Trabalhos de recuperação da estrutura vêm sendo feitos e algumas medidas de contenção da emissão de poluentes têm sido tomadas, mas a verdade é que o palácio está ameaçado.
Além disso, o rio que passa por trás dele foi assoreado, perdeu vazão e baixou. O terreno se tornou instável e os alicerces dos minaretes ao norte estão abalados.
Ou seja, enquanto a ciência especula as intenções românticas de Shah Jahal, nosso estilo de vida está prestes a acabar com a estrutura física da representação do amor eterno.
As cúpulas do Taj Mahal e, abaixo, a mesquita que faz parte do complexo
P.S. – Mumtaz morreu em 1631 e a obra começou em 1632, mas só acabou em 1653. A dúvida é: onde ficou enterrado o corpo da Mumtaz enquanto o Taj não ficava pronto?

Aeroporto Internacional de Mumbai, 0h30 am, 4 de fevereiro de 2009.
Acabamos de chegar à Índia e, claro, o shuttle do hotel que deveria nos apanhar não aparece. Temos uma conexão para Delhi amanhã à tarde, marcamos um hotel para descansar um pouco da longa maratona de vôos que começou às 6h30 de ontem em Cape Town.
Esperamos uma hora, então decidimos apanhar um táxi pré-pago. Custa 200 rupias, algo como 4 USD. Pagamos no guichê dentro do aeroporto e nos encaminhamos para o ponto de táxi.
O motorista designado é magro, mal-vestido, barba por fazer. Tem a cara da fome e não fala – nem entende – uma palavra de inglês. Damos o nome do hotel, ele não entende. Mostramos no papel, ele não sabe ler.
Rapidamente, juntam-se a nós outros dez taxistas semi-alfabetizados, alguns com rudimentos de inglês, a língua de instrução da Índia, mas nenhum conhece o hotel.
Alguém tem a brilhante idéia de chamar um agente de um mega-cinco-estrelas que está todo engravatado ali a espera de um cliente. Com inglês perfeito, ele entende onde fica o hotel e explica em hindi ao nosso motorista.
Embarcamos. Ele sai dirigindo como um louco pelas avenidas vazias na madrugada, uma mão na direção, a outra na buzina. Chega ao hotel e, claro, não é o lugar correto.
O recepcionista tenta ajudar. Explica de novo em hindi onde fica o nosso hotel. Nova disparada pela cidade, já com o taxista analfabeto a resmungar – afinal ele sabe falar alguma coisa em inglês – preços:
- Five hundred rupees.
- No way, sir. You got the wrong way. It is not my fault.
- Five hundred rupees more.
- No way. I won’t pay.
Ele deve ter entendido, porque afinal não acha o hotel. São 3h30. Precisamos tomar uma decisão:
- Please, take me to the Domestic Airport.
- X&%#@)*%?
- Domestic Airport.
- Domestíc?
- Yes, domestíc.
Ele volta para o aeroporto doméstico. Chegamos e ele quer 500 rupias. Dou 100. O erro foi dele. Já estou pagando 300 rupias para não chegar a lugar algum. Ele começa discutir em hindi, não quer aceitar. A P. pára um passageiro indiano que está chegando para embarcar. Ele começa a discutir com o motorista, nos defende, o taxista desiste.
Fico no prejuízo da diária do hotel – que já havia sido paga pela Internet no cartão e provavelmente não será reembolsada – e passo o resto da noite no aeroporto domestíc. Mas tudo acaba bem.
Amanhã, este relato continua com um retrato da nova Índia.