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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Atendimento aos leitores e uma pergunta

Dois dos nossos leitores postaram dúvidas em diferentes posts antigos e então resolvi responder com uma nova postagem, que pode ser útil a futuros leitores com dúvidas semelhantes.

O J., que está prestes a vir para Angola, pergunta sobre cuidados a tomar com a Malária.
Caro J., eu não sou médico e portanto não posso receitar nada a ninguém, mas posso contribuir com a minha experiência. A primeira coisa que lhe pergunto é: quanto tempo vai ficar em Angola? Se for um período longo, (mais de três meses) eu lhe diria para NÃO tomar profilaxia. Os danos que o uso prolongado dessas drogas podem causar ao seu organismo são maiores do que os de uma eventual malária que talvez você nunca pegue. Além disso, a malária não é um bicho de sete cabeças como pensamos no Brasil. Se você tratá-la rapidamente e com bons medicamentos, fica curado em três dias e sem seqüelas. Se for um período curto, você pode considerar tomar a profilaxia, mas nesse caso é melhor se informar sobre outras drogas menos lesivas. O Mephaquim tem efeitos colaterais horríveis, principalmente alucinações durante o sono. Eu passei três meses na África em 2005 e tomei uma profilaxia (já nem me lembro qual), mas se fosse hoje, com a experiência que tenho agora, não teria tomado. O melhor contra a malária é a prevenção. Compre um bom mosquiteiro tratado e instale sobre a cama. Evite se expor no início da manhã e no fim da tarde, horários em que o mosquito mais ataca. Se for para a rua nesses horários, use repelente. Eu passei um ano em Angola com essas medidas e não peguei paludismo.

A professora Damiana Brito pergunta sobre o livro "Bom dia, camaradas", do Ondjak.
Professora, eu não li esse livro específico, mas coloco aqui a sua dúvida para que outros leitores que por ventura o tenham feito possam contribuir com opiniões. Em março estarei de volta ao Brasil e, se for do seu interesse, estou a disposição para um encontro com os seus alunos onde poderia contribuir com um pouco da minha experiência sobre Angola. Se lhe interessar, me escreva com os seus contatos e tentamos combinar por e-mail.

Amigos nos perguntam por e-mail: Por onde andam o F. e a P.?
Nós já saímos de Angola, amigos. Estamos neste momento em Delhi, na Índia, onde a conexão com a internet nem sempre tem sido muito fácil. Daí a ausência deste espaço. Agora, a pergunta a todos os leitores que por aqui passam: vocês se interessariam por ler algumas histórias da Índia?

Respondam à enquete na barra lateral. Se a maioria se interessar, posso publicar algumas coisas aqui nos próximos dias.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O anjo do Paludismo

A dor de cabeça começou leve, no final da tarde. Mas como ontem eu havia feito uma caminhada pela manhã do Miramar à Ilha (ida e volta), logo a atribui ao excesso de sol que havia tomado.

Depois do jantar, a dor aumentou. Mas em velocidade e intensidade inéditas. Tentei deitar, a dor piorou. Fiquei sentado na cama, comecei a sentir a pele arrepiar, o estômago a enjoar. Quis vomitar, mas não consegui.

Como todo expatriado está para o diabo assim como a malária está para a cruz, já logo achei que havia recebido a visita do anjo do paludismo. Crença nem tão infundada, haja vista que o Miramar tem mosquito que baste e, devo confessar, sou bem descuidado com isso.

Odeio o cheiro dos repelentes, a consistência, a ardência que provocam na pele e a sensação de estar todo melado depois de usá-los. Entendo perfeitamente o asco dos pobres seres alados quando se deparam com uma pele pálida de expatriado cheia dessa gosma. Melhor passar longe.

Bom, lá fui eu bater à clinica no meio da noite requisitando uma gota espessa. Não custa nada, só 1400 kwanzas (19 dólares). Exagero? Atire a primeira pedra o expatriado com mais de seis meses em Angola que nunca fez um desses para descobrir que tinha uma gripe. É mesmo assim. O terror que os estrangeiros têm da malária a transforma na suspeita número 1 para todo tipo de enfermidade, de espinhela caída à unha encravada.

No meu caso, posso dizer orgulhoso, é a segunda vez que faço o exame em nove meses. Mas isso porque eu sou relaxado, tenho convicção de que passarei por Angola sem viver a experiência das febres terçãs. Mas conheço expatriado que faz um teste por mês, em média, e sempre sai do hospital com o bolso cheio de Coartem, por via das dúvidas.

Na hora que leva para o sair o resultado, já comecei a me sentir melhor. A dor diminuiu enquanto eu dava umas boas risadas com o Casseta&Planeta da semana passada (sim, aqui passa com uma semana de atraso), o sono bateu e, quando a P. ligou para a clínica para saber o resultado, eu já estava quase dormindo.

Claro que não era paludismo. E peguei num sono profundo sem saber, afinal, que raio de surto foi aquele.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Uma questão de coerência

Diabo seja surdo, cego e mudo pois, as frases que se seguem vão brincar com fogo. Ora, em 2 anos, nunca tive cuidados especiais com a minha saúde em Angola. Nunca tomei mephaquin porque não evita a malária e tem uns efeitos secundários a atirar para o mau. E eu sou fraquinha. Também nunca lavei os dentes com água mineral porque nunca senti essa necessidade e também não ando propriamente a engolir pirulitos enquanto lavo os dentes ou tomo banhoca. Não uso mosquiteiro na cama porque até ao momento, nunca achei necessário. O caso mudaria de figura, se sentisse essa necessidade ou, se vivesse em certas províncias mas como até à data me arrasto por Luanda, tenho resolvido bem a questão sem a rede mosquiteira. Não como saladas fora de casa e, se fizer em casa, não deixo de colocar umas mini-mini gotinhas de lixívia (sim, lixívia... leram bem) ou vinagre. Ora, tirando isto, e por razões de saúde, só mesmo o ginzinho ao Sábado à noite. Diz que tem água tónica e quinino, inimigo da malária. E a malta acredita porque até gosta. Não fugi a uns “males” da barriga mas, nada que eu não soubesse resolver. Porém, e sem querer ferir susceptibilidades, mas já ferindo porque como é óbvio, vai seguir-se crítica da grossa, acho um piadão a certos expatriados que, para além de fazerem tudo ao contrário de mim: mephaquin + rede mosquiteira + água mineral, ainda dizem que não comem natas porque ai, e tal podem fazer mal e, gastam um roll-on de repelente por semana, para dar um chega-para-lá às “mosquitas”. E depois, tcharan... fumam um maço de cigarros por dia!!! Oras, oras... Nada contra quem fuma. Mas agora, armarem-se em caguinchas com a malária quando sabem muito bem que a probabilidade de morrerem com um cancrozinho ou outra coisinha má é mais certa do que a safada de uma “mosquita” andar a morder onde não deve, façam-me um favor! Olhem, é como os que deixam de comer frango porque parece que andam por aí com gripe ou a carne de vaca porque diz-se que as mimosas andam loucas. E depois, no final da refeiçãozita de peixinho grelhado com uns legumezitos no vapor, vamos lá fumar um cigarrete. Não tenho paciência para estes caguinchas. Pronto, não tenho.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dona Fina


Dona Fina Calumbo não sabe quantos anos tem. Nunca comemorou um aniversário, porque não conhece o dia do seu nascimento. "Já vivi muito tempo, minha filha", explica, sem ligar para datas.

Ironicamente, ela dedica sua vida aos nascimentos. Parteira tradicional há muito, muito tempo ("não sei falar em anos, minha filha..."), faz de 10 a 12 partos por mês. Eu, com minha mania ocidental de transformar tudo em números, faço uma conta rápida e concluo que ela já deve ter trazido ao mundo mais de 4 mil bebês (chutando por baixo...).

Moradora de um bairro rural na periferia de Saurimo, na Lunda Sul, Dona Fina acorda cedo para ir à lavra. Às vezes nem bem chegou de volta à casa já tem uma grávida esperando para dar a luz. E aí, Dona Fina? "Aí lavo as mãos, boto um pano na cabeça, faço uma oração e vou. Estou sempre pronta, essa é minha missão.

Até o ano passado, ela e as outras dezenas de parteiras tradicionais da região recebiam luvas, sabão e bacia para garantir a higiene do parto e protegê-las contra o HIV e outras doenças. A ONG que patrocinava esse projeto saiu de Saurimo em 2007 e desde então as parteiras tem de arriscar suas próprias vidas ao fazer seu trabalho. O governo diz que não tem dinheiro para continuar o projeto, mesmo sabendo que as parteiras são responsáveis por mais de 90% dos partos da região.

Dona Fina não desiste. Segue confiando nas mãos lavadas, no pano na cabeça e na oração. E assim vai criando aniversários, sem nunca ter comemorado o seu.

domingo, 26 de outubro de 2008

Angola contra a Pólio

Caso 1 - Quarta-feira passada, município de Kakolo, a 150 quilômetros de Saurimo, na Lunda Sul.

O formador acaba de passar duas horas explicando a uma classe de mais de 40 voluntários as regras da vacinação. Angola elegeu 2008 como o ano da erradicação da poliomielite. Este fim de semana aconteceu a terceira fase da campanha neste ano. Toda a criança de 0 a 5 anos deve receber duas gotas da vacina contra a pólio.

Para aproveitar a mobilização, o Ministério da Saúde decidiu aplicar também doses de vitamina A e de albendazol para matar os parasitas que atacam as crianças. É aí que começa a confusão, porque as doses mudam de acordo com a idade.

O formador organiza um exercício. O primeiro voluntário, na frente da classe, começa a explicar:

- A pólio deve ser aplicada a crianças de 0 a 3 anos...

O formador interrompe para dar mais uma chance: Qual a idade?

- Ah, quer dizer, de 0 a 6 meses.

Duas horas depois, o jovem não havia conseguido registrar a informação mais simples de todas. Isso acontece porque os vacinadores são recrutados entre estudantes que se apresentam para ganhar uma camiseta, um boné e 7 dólares de refeição por cada dia de campanha.

Os jovens, apesar de freqüentarem a 8ª e 9ª classes, demonstram uma dificuldade muito grande para entender as regras básicas da vacinação. O problema não é do idioma, porque o formador é angolano. É da capacidade de compreensão dos alunos mesmo.

Por que o pessoal da saúde não é envolvido na campanha?, pergunto ao formador. Não teríamos gente suficiente, ele diz. Em Kakolo, são 15 equipas de três vacinadores, seriam 45 pessoas. E só existem 30 enfermeiros.

Mas porque os enfermeiros, então, não são chamados a liderar as equipes, mesmo que os outros dois fossem estudantes? Eles estariam mais preparados para evitar dosagens erradas.

- Os enfermeiros? Eles não aceitam participar sem ganhar extras. Por isso temos de recorrer aos estudantes.

Caso 2 – Sexta-feira, município de Saurimo, 8h30, início da campanha.

A campanha deveria ter começado às 7h30, mas uma hora depois os 450 vacinadores da cidade disputam, no pátio do hospital municipal, as camisetas e os kits de vacinas. Reina a desorganização.

Uma equipe finalmente parte para um bairro. Casa escolhida, um menininho de 4 anos vai receber a dose de pólio, o vacinador tira o frasco da geleira de isopor, abre o lacre. Pega o conta-gotas e... O conta-gotas não serve no frasco.

Os kits foram montados com o lote novo de vacinas e o lote de dosadores comprados na campanha do mês passado. Os frascos são diferentes, os dosadores não servem. É impossível aplicar a vacina.

Claro que não se pode condenar a campanha toda por estes dois exemplos de uma província. Mas saí com a impressão de que Angola ainda vai ter de lutar por muitos anos contra a Pólio.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Vai-te embora Satanás!!!

Eu sou uma pessoa discreta. Não aprecio discussões com gente que não conheço. Mesmo que sejam discussões sobre temas banais. Muito menos quando as discussões incluem temas mais ou menos quentes. Um destes dias, numa conversa entre conhecidos e desconhecidos, a personagem era nitidamente pró-Angola. Nada contra, tendo em conta que ou era angolana (branca) ou já cá tinha estado em criança. Ou então, era a defensora das causas impossíveis. Digamos que me inclino mais para a última. O tema era: Angola não precisa de expatriados. Não precisa ou não quer expatriados. Nem percebi muito bem qual das duas, a alminha defendia. Sim. E juro que não é uma das minhas brincadeiras. O tema era mesmo esse, tendo à frente mais de 10 expatriados nas mais diferentes áreas. Haja coragem! Ora, calma como sou (e porque parece que não se deve contrariar malucos) bico calado e fiquei a ouvir os argumentos. Ah, e fiquei também a contorcer-me para não rir às gargalhadas, deixando apenas escapar um daqueles sorrisinhos marotos pelo canto da boca. Então vejamos: os argumentos da mente iluminada eram de que Angola fornece um nível de formação muito elevado. Aqui há prática. Em Portugal é tudo teoria e o pessoal lá não percebe nada. Quem diz Portugal, diz outro país cujos cursos não incluam começar a trabalhar na área, ao fim do primeiro ano. E, para reforçar a ideia, a mente iluminada ainda fez questão de começar por um exemplo fabuloso. A medicina. Sim, aqui a medicina é muito avançada porque eles, devido à falta de médicos no país, começam desde cedo a praticar. Medo. Muito medo. Ao fim de um ano de aulas já praticam os ensinamentos em pacientes reais. Ora, o que é que eu posso dizer, perante uma afirmação destas? Ia dizer-lhe: ah sim? Então e quando tu estás doente, deixas-te tratar por um desses alunos num qualquer hospital público? E os pobres coitados que não têm dinheiro para as clínicas privadas, como tu, acharão divertido ser tratados por um aluno borbulhento do 1º ano da faculdade? Ora, eu não gastei a minha beleza com estas perguntas mas, houve quem gastasse. Mas, não ainda contente com este exemplo maravilhoso, decidiu falar nos engenheiros civis. Oh yeah! Mais uma vez, não podia ter escolhido melhor. Ou não estivessem na mesa uns três (ou mais), representantes dessa espécie maldita. Vai-te embora satanás! Bico calado, como sempre, lá ouvi as suas (mais uma vez) brilhantes explicações. Ora, a “inteligência”, bem via que em Portugal os cursos eram todos teóricos. Via, porque vivia ao lado de uma faculdade com esse curso. E acrescentava: ah, eles aprendem a calcular pilares e mais não sei quê e depois na prática, não percebem nada. Ainda estou para aqui a pensar sobre o facto de ela “ver”, porque morava ao lado da faculdade. Será que lá na terra as casas e faculdades são em tendas? A modos que a tenda dela ficava mesmo ao lado da tenda da disciplina de mecânica dos solos. Ou então, será que as aulas são registadas por altifalantes, daqueles que o Manel das farturas usa nas feiras para chamar a clientela? Eu até arriscaria dizer que, na terra dela devem ser todos engenheiros civis, porque eles bem vêm as aulas lá na faculdade. E assim sendo, é bem capaz que muitos dos que cá andam, tenham tirado o curso através dos tais altifalantes. Pelo meio também acrescentou que a polícia é muito melhor treinada do que os de Portugal pois muitos tiravam as formações nos Estados Unidos. Ai é? Eles afinal aprenderam nos EUA? Eu vi logo que a culpa das gasosas era do Bush! Só podia ser!!
Brincadeiras à parte, eu fico mesmo contente com estas afirmações completamente desprovidas de inteligência (isto, para não mencionar aquela palavra que começa por “b”, acaba em “e” e tem urric pelo meio). Oh, se fico. Até porque, ainda à pouco tempo andamos à caça (sim, este é o melhor termo que posso utilizar, face à dificuldade para encontrar a espécie) de engenheiros civis angolanos. E eis que, para além de aparecer a módica quantia de 3 exemplares à entrevista, um tirou o curso em Portugal (vá lá, também andou por Inglaterra, pode ser que lá comecem ao fim do primeiro ano a construir prédios de vinte andares, pontes e barragens) e o outro tirou o curso no Congo. O terceiro nem sei porque acabamos por contratar os dois primeiros. Hã, e então? Será que não precisam de expatriados? Assim sendo, vou já fazer as malas e rumar para outro país onde precisem de mim porque parece que Angola, seguramente não precisa de engenheiros civis (e consta que de médicos também não).

* A autora não tem conhecimento sobre a veracidade das afirmações desta mente brilhante, sobretudo relativamente aos alunos de medicina, isto é, se praticam com doentes reais os ensinamentos obtidos logo após o primeiro ano de curso. Não tem conhecimento também, do nível de formação das faculdades angolanas, nas diferentes áreas.
* E não. A autora também não se acha a última coca-cola do deserto. Considera apenas que, o país não tem quadros suficientes para responder ao desenvolvimento actual e, se não fôr um português, há-de ser um brasileiro, sul africano, filipino, espanhol, etc, etc, etc.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Redes Sexuais - HIV

Para ver. Ouvir. Tornar a ver e ouvir. Depois pensar. Muito.

* Cortesia da minha amiga M.J. (enviado por e-mail)

domingo, 20 de julho de 2008

Confusões

Apesar de nunca ter ficado doente em Angola, já precisei de uma consulta na clínica para poder conseguir um atestado médico. Esse atestado médico seria para juntar aos restantes “300” documentos que os portugueses precisam apresentar para o “processo” relativo à carta de condução angolana. Chamam-lhe reciprocidade. Quando fui à clínica, deixei bem claro que queria um atestado médico para esse efeito. Na sala de triagem, com a enfermeira, antes de entrar no gabinete do médico:

Enfermeira: Vou pesá-la, tirar a tensão arterial e a temperatura.
Eu: Temperatura? Mas eu não estou doente!! Eu vim cá para conseguir um atestado médico para tirar a carta de condução angolana! Eu não preciso que me tire a temperatura!
Enfermeira (confusa): Mas é melhor tirar.
Eu: Pode tirar, não tem problema mas, eu acho que não é necessário!
Enfermeira (ainda mais confusa): Vou perguntar ao médico se é mesmo necessário.
Depois de ter perguntado ao médico…
Enfermeira: Sim, é mesmo necessário. Vamos lá tirar a temperatura...
Eu (resignada): Ok!

Já no consultório do médico, bastou explicar para que efeito queria o atestado médico e, em minutos tinha o documento comigo. Sem testes de visão ou outros que pudessem resultar na incapacidade de conduzir.

Conclusão: E se eu tivesse febre? Será que até hoje não teria conseguido o atestado médico???

sábado, 19 de julho de 2008

A tristeza que vira felicidade

Ainda inspirada no post da Migas, Diferenças Culturais, quero contar a história de uma amiga angolana:

Laura tem minha idade, 32 anos, e como a afinidade fluiu de forma natural desenvolvemos uma boa amizade. Com ela aprendi muito sobre a cultura angolana, mas definitivamente sob influência do seu ponto de vista ocidental. Sim, Laura é uma mulher muito inteligente, e que sempre fez questão de demonstrar que os seus anos de Europa não foram em vão.

O namorado da Laura é que por vezes deixava um pouco a desejar... Artur, homem também de muito bom nível cultural, nunca que pedia a mão da moça em casamento. A ansiedade da Laura ia crescendo, mas a vida seguia o seu rumo habitual.

Um dia Laura me liga desesperada a dizer que precisava conversar. Ao encontrá-la sua frase foi curta e direta: “Meu teste foi positivo”. Não entendi, pensei que fosse o de gravidez, mas neste caso sua alegria seria imensa. Ela então prosseguiu: “Tenho o vírus da SIDA”. Eu não sabia o que falar, mas ela precisava do meu apoio. Passamos longas horas conversando e perguntei se o Artur tinha feito o teste também. Ela disse que não, mas explicou que ela optara por fazer o teste por desconfiar dele.

Foi difícil para Laura convencer Artur, que depois só aceitou abrir o envelope do laboratório ao lado dela. A descoberta para ele também foi dolorosa, mas ele tinha então o apoio dela.

Difícil para mim é explicar agora a aura de cumplicidade que surgiu entre os dois. Um tempo depois Artur a pediu em casamento, e daí para frente a minha amiga é uma mulher radiante, transbordando felicidade!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Recado das Urnas

A pergunta é direta: se pudesse enviar um recado aos políticos que concorrerão na eleição de setembro, o que você diria?



Ingrácia Domingos, 47 anos (de camiseta preta, na foto), fica em silêncio. Ela tem sete filhos (Inês, a outra moça da foto é uma delas), mora numa casa humilde em Cacuaco, cidade distante cerca de 20 km de Luanda.

- Assim o senhor perguntando é difícil de dizer.

Não é tão difícil assim, Ingrácia. Difícil foi ter perdido o primeiro filho, que hoje teria 27 anos, para as febres do paludismo. Difícil foi ter visto a filha Vivia, de 7 anos, contorcendo-se das dores e diarréias do cólera que quase a levou também, ainda mesmo no ano passado.

- É que o senhor sabe, eu não vou encontrar nenhum deles pra poder dizer nada.

De certo que não, Ingrácia. A chance de um deles aparecer na sua casa é a mesma de chegar a água encanada e tratada para acabar com as cinco viagens que você faz, todos os dias, para comprar bacias de 20 litros a dois quilômetros de sua casa. Idas e voltas, noves fora, são 20 quilômetros de caminhada todos os dias com 20 litros de água na cabeça.

- Se encontrasse um deles? Não saberia o que pedir.

Então você não tem água em casa, seus filhos adoecem por falta de saneamento, as caçulas estão fora da escola por falta de vaga e você não tem nada para pedir, Ingrácia?

- Já que o senhor insiste, eu pediria apenas para terem paciência, que é para aquela guerra não voltar. Porque quando ela voltou, em 1992, foi muito triste e mais gente morreu nas províncias. Só pediria isso a eles, para nunca mais voltar aquela guerra.

Paz. É só o que o povo pede.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Você já teve malária?

Fazer uma pergunta dessas a um angolano equivaleria a perguntar para alguém, em São Paulo, se já ficou gripado alguma vez na vida. A malária ainda é endêmica por aqui. No ano passado, 2 milhões de pacientes foram internados nos hospitais de Angola com paludismo (vide o Grande Dicionário).

Essa é uma boa notícia.

Em 2003, o número de internados havia sido de 3 milhões, tempo em que a maioria dos doentes sequer procurava ajuda. O tratamento era pago, custava caro e só ia parar nos hospitais quem entrava em coma.

Em 2006, o governo de Angola decidiu fazer o que o Brasil até hoje não fez em relação à dengue: atacar o problema com seriedade.

Aprovou uma lei tornando o tratamento gratuito para todos, passou a usar o Coartem, o medicamento mais eficiente contra a malária no momento, e buscou apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, para trabalhar a prevenção.

Desde então o Unicef já distribuiu 1,8 milhão de mosquiteiros impregnados no país. No ano passado, 215.500 crianças com menos de 5 anos e 27.300 mulheres grávidas foram curadas com Coartem.

Resultado: o número de mortos caiu de 30 mil, em 2003, para 7 mil no ano passado. E a malária deixou de ser a primeira causa de mortalidade infantil nas maternidades de Luanda.

A seguir, a Casa de Luanda apresenta gente comum que está ajudando Angola a vencer essa guerra:

O vigilante Tomás
Laurindo Tomás se orgulha de ser vigilante da Saúde. O programa foi implantado no ano passado pelo governo provincial de Luanda, que se baseou no modelo brasileiro de agentes comunitários. Tomás ganha 4 mil kwanzas por mês (US$ 53) para visitar 100 famílias perto da casa onde mora, no Bairro Boa Esperança, em Cacuaco. Ensina noções básicas de saúde, encaminha doentes ao posto médico, consegue mosquiteiro para as grávidas e garante que os bebês recebam as vacinas. Soma-se a outros 1.669 vigilantes em seis municípios.
O médico Pascoal
Domingos Pascoal dirige a Unidade Sanitária de Cacuaco, posto de saúde para onde correm todos os doentes em busca de tratamento. Antes, vivia uma rotina de emergência, pois os infectados por malária só chegavam ali em estado crítico. Hoje, graças aos agentes de saúde e à gratuidade do tratamento, o posto vive mais cheio. Mas Pascoal não se queixa. Agora, pelo menos, ele consegue curar mais gente.

A mãe Maria
Mãe de sete filhos, Maria Cecília João Miguel teve malária na última gravidez. Foi encaminhada por Tomás para o posto de saúde dirigido por Pascoal e recebeu o tratamento. Tomou religiosamente os 15 comprimidos e livrou seu filho contrair a malária congênita – transmitidas da mãe para o bebê, as toxinas do plasmódio falcíparo impedem o desenvolvimento do feto e provocam sua morte no nascimento. O bebê de Maria nasceu saudável, há cinco meses, e hoje eles dormem sob um mosquiteiro impregnado doado pelo Unicef.

A médica Alexandra

É uma das coordenadoras do programa na Direção Provincial de Saúde de Luanda, interface do governo com o Unicef. Luta para que as direções municipais entendam a importância dessa guerra contra a Malária.

Os cearenses Carlile e Miria

O médico cearense Antonio Carlile Lavor e sua mulher, a assistente social Miria Lavor, se mudaram para Angola para treinar os vigilantes de saúde de Luanda. Eles são os pais do programa brasileiro, cujo primeiro piloto Carlile implantou em Planaltina (DF) em 1975. Depois disso ele voltou para Jucás, sua terra natal, levando a idéia no bolso do jaleco. De lá ela foi ampliada para o Ceará, depois para o Nordeste Brasileiro (já com a chancela do Unicef) e finalmente para todo o país. Hoje o Brasil tem 220 mil agentes de saúde. Os dois foram contratados pelo Unicef como consultores do programa em Luanda.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A riqueza de Cacuaco

Boa Esperança é um ótimo nome para o bairro na periferia de Cacuaco, a 25 quilômetros de Luanda. O que me levou até lá foi a malária. No rastro das ações governamentais para combater essa doença endêmica em Angola, que mata dois milhões de crianças por ano no mundo, fui parar na comunidade empoleirada nas encostas dos morros de terra rachada pelo sol.

Boa Esperança é pobre, não miserável. Tem lá seus problemas com violência, mas nem chega perto das periferias das grandes cidades brasileiras. O maior drama é mesmo a chuva. Ela transforma o chão em lama e os seus 50 mil moradores saem de casa descalços. De sapato, ninguém pára em pé.

Pode faltar dinheiro em Boa Esperança, mas não falta riqueza. É justamente o seu maior tesouro que o projeto de prevenção e combate à malária tenta proteger: as crianças. A espontaneidade e a alegria no olhar delas chama atenção através das lentes.

Elas se divertem com tudo. Com a cobra que acabaram de matar, com o “pula” atrás da câmera que nunca viram, e escancaram-se em sorrisos generosos, para que todos vocês possam experimentar um pouco dessa alegria sincera.

Mas nem todas as crianças que encontrei lá estavam felizes.
O Domingos, por exemplo, não estava sorrindo. Ele tem 5 anos e perde peso inexplicavelmente há um mês. Ninguém consegue saber o que ele tem. Estava na fila com a mãe, Francisca, para passar por um médico do Centro de Saúde.

O Felipe, de 8 anos, estava isolado no compound para tratamento de pacientes com cólera. Era o desânimo em pessoa. Nada do que eu disse, das brincadeiras que fiz, foi capaz de fazê-lo sorrir.