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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Retornei à Angola hoje à noite - e morri de saudades, como num fado rasgado...


Depois de praticamente um mês de negociações, idas e vindas de amigas à Lisboa, encontros e desencontros, caiu-me hoje às mãos o livro Aerograma, de Afonso Loureiro.

Filho direto do fabuloso blog de mesmo nome, listado ao lado, o livro de Afonso, já nas primeiras páginas está sendo, para mim, uma leitura misturada de alegrias e saudades desta terra distante que nos uniu a todos, os desta Casa, os dos outros blogues, os que ficaram, os que foram para outras paragens.

Tantas, tantas saudades...essa coisa que só quem se expressa em Língua Portuguesa sabe o que é...

Vou ler o Aerograma à maneira de Clarisse Lispector: aos poucos, poupando as páginas, para que a história não chege ao fim logo. E, de propósito, deixar o livro escondido em alguma gaveta de casa só para depois ter a grata supresa de encontrá-lo de novo.

A relação da Casa de Luanda com o Aerograma, na verdade, sempre foi muito esquisita. O Afonso chegou em Luanda pela mesma época que a maioria de nós, julho de 2008, mas só encontrou com um ou dois moradores daqui uma única vez. Não faço a menor idéia de o autor está mais para o look do Ricardo Pereira ou o aplomb do Zé Socrates. Virtualidades...

De longe, o rapaz sempre mostrou-se mais observador e narrador da realidade angolana - sem tintas para nenhum lado, como é hábito de quem abre um blog - mil vezes melhor do que nós, um bando de jornalistas, na sua maioria.

Até hoje desconfio que o Afonso é jornalista também. Escreve muito bem o rapaz.

Sem contar o manancial incrível de fotografias do blog, algumas delas copiadas sem a menor vergonha por jornais angolanos, a ponto do autor tomar a drástrica - e para nós gozadíssima - decisão de colocar uma marca d´àgua nas fotos.

De longe, à princípio, percebe-se logo o olhar humanista de Afonso, ao observar e escrever no blog e no livro coisas como:

"Percebo o sentimento dos que falam de África com um sorriso e um lágrima".

O que é, hoje, o blog Casa de Luanda senão só isso?

Ou ainda:

"Dizem que no dia que se chega a um país sabemos o suficiente para escrever um livro, mas que ao fim de um mês o conhecimento só enche uma página e ao fim de um ano escrevemos uma linha, a custo."

É isto mesmo: quanto moradores desta Casa não escrevem mais uma linha?

Parabéns, Afonso, por escrever este belo registro sobre esta terra que todos amaremos para sempre e por fazê-lo chegar até aqui, nesta outro ponta do triângulo chamado Brasil.

O livro pode ser adquirido através da loja virtual do Aerograma (http://aerograma.net/livro), ou nas seguintes livrarias:

- Livraria Nazaré e Filho, na Praça do Giraldo, 46 – Évora - Livraria Apolo 70, Centro Comercial Apolo 70 – Lisboa - Livraria Diário de Notícias, Praça D. Pedro IV, 11 – Lisboa - Livraria Oficina do Livro, Praça D. Pedro IV, 23 – Lisboa - Livraria Portugal, Rua do Carmo, 70 – Lisboa - Livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15B – Lisboa - Livraria Barata, Av. de Roma, 11A – Lisboa - Natureoffice, Av. 5 de Outubro, 12E – Lisboa

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pequena galeria de saudades d'Angola

31 de dezembro de 2008, 18h, Barra do Kwanza
Uma canga e um país inteiro do outro lado
Caos e metamorfose, ou vai ser gauche na vida
"Os telhados de Paris" nunca mais serão os mesmos
Na Ilha do Cabo, na primeira reunião de Condomínio
O dia em que comemos tudo o que há de melhor nesse país
Isso sim é cerveja, o resto são secos e molhados
Daria tudo para saber onde foi parar o telhado desse imóvel
Aí pára tudo que eu quero descer...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fernando Baião é um cara muito giro

E então finalmente nos encontramos, no bar do Hotel Fasano, em São Paulo, no final da tarde da quinta-feira, 20, a mesma em que um dilúvio desabou sobre a megalópole e chegou até a faltar eletricidade em alguns pontos da maior cidade brasileira…

Fernando Baião, morador dessa Casa, dono desse texto que me chamou a atenção na primeira vez em que bati os olhos, autor da belezura de livro recém-lançado em Lisboa cuja capa reproduzo acima. Sobre o livro em si, que vou falar mais ao fim do post, só queria dizer por hora que li todo em menos de três horas, no avião, de tão eletrizante que é…

Mas vamos ao Baião. E aqui não vai nenhuma rasgação de seda, especialmente porque os amigos sabem a pessoa grossa e mal educada que sou. Pessoa queridíssima, parece que já o conhecia há anos. Dono de uma cabeça, uma memória sobre Angola e Brasil, um repertório cultural e uma simplicidade que poucas vezes vi em figuras muitas por aí… apesar do momento pessoal por que passa, carrega consigo uma alegria que valha-me Deus.

Engraçada essa coisa de ter um amigo virtual e depois ir conhecê-lo pessoalmente. Há meses, planejávamos nos encontrar, Fernando Baião e eu, além de toda a malta de personagens que circunda esse blog, nomeadamente o F., a Branquela, a Ju, o Candongueiro, o Greg, e o Zé, que está lá em Maputo.

Pois dessa vez deu certo: na mesma cidade e na mesma data, pudemos passar mais de três horas – isso mesmo, três horas – de frente um pro outro, com um copo de água tônica a nos separar, falando da vida, desse blog, dos encontros e desencontros, do que é o Brasil com e sem Angola e Angola com e sem o Brasil. Estava acompanhado do filhote que acabara de fazer anos e da esposa que, olhem só, mora na mesma rua onde um dia morei.

Há coisa de dois meses, ele havia me mandado Kimalanga, como relatei aqui. Levei o livro para São Paulo para mostrar que estava lendo mesmo e ele me presenteou com mais quatro: um para o A.M., leitor fiel desse blog, órfão de Luanda depois de três anos, que também agora vive em SP e que também encontrei, numa noite memorável, o Alex, o Fernando Alvim, outra figura querida que estava em São Paulo e não encontrei, por força de agendas e dessa cidade tão grande, tão intensa.

Um homem de letras, é isso que o Baião é. Nada de ecomista ou coisa que o valha ligada a números.

Kimalanga conta a história de Zé Paulino (olha só!, João!), um angolano de meia idade que ficou mbaku, impotente, broxa mesmo como a gente diz no Brasil. O pau não subia mais, de jeito nenhum, tivesse ele a catorzinha que tivesse na cama. Numa luta desenfreada para fazer seu Zezinho voltar à ativa, o homem recorre a Pau de Cabinda, vai à Londres e Àfrica do Sul em busca de tratamento, ensaia vir ao Brasil procurar pai-de-santo…até que…

Como pano de fundo, uma narrativa telúrica, adocicada, bem humorada e antes de mais nada realista sobre o que é tornar-se homem de negócios em Angola depois da gerra de libertação, da guerra civil toda, da pacificação e, claro, conviver com a corrupção, a propina, o luxo e o lixo de Luanda, a falta de perspectiva de alguns jovens, a vida e a morte, a sobrevivência e, claro, o amor. O livro, no meu entender, é antes de mais nada sobre o amor de Paulino por sua esposa, uma senhora gorda de mais de 100 quilos que passa o dia no sofá, vendo novelas brasileiras e tomando cerveja. Imensa, rotunda, praticamente uma Wilza Carla do Largo da Maianga.

Paulino, apelidado de Kimalanga (hiena, como explica o autor num pequeno dicionário ao final do livro), é para muito além do simples animal com seus instintos primitivos, é um personagem ao qual a gente se apega, que faz e desfaz, que filosofa, que a gente pensa que vai prum lado e depois vai para outro… e, no final, o Baião…ah, o Baião, se te pego de novo por aí…

Imaginem o que é um homem angolano ficar impotente, minha gente!

Esse relato parte, em certa medida, do mesmo mote de Predadores, de Pepetela, comentado aqui. Mais gostoso talvez porque menos despretencioso, uma literatura feita não para marcar um tempo histórico, mas retratar os hábitos culturais de um povo que nasce, cresce, descobre a sexualidade, casa, tem filhos, morre e “vai a enterrar” comemorando a vida. É isso que o angolano faz, todo o tempo, como pude comprovar vivendo em Luanda durante seis meses e no encontro de três horas como o agora amigo de carne e osso Fernando Baião.

Eu não sei como nem com ajuda de quem (porque o livro ainda tem problemas seriíssimos de distribuição em Luanda), mas você tem que lê-lo A-GO-RA!, como diria um jornalista acolá.

O próximo encontro já está pré-marcado: deve ocorrer numa cafeteria qualquer de Lisboa, no Três em Um da Antônio Barroso, no Hotel Fasano, de novo, ou na cidade dos Reis Magos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Ainda, a chaga maldita da escravidão (ou escravatura), pela pena de Machado de Assis



Não temos mais o que discutir: Joaquim Maria Machado de Assis é, sem sombra de dúvidas, o maior escritor em Língua Portuguesa de todos os tempos. Que me desculpem os Queirozeanos que visitam o blog, mas o "Bruxo do Cosme Velho", como ficou conhecido o autor de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", entre tantas outras jóias, é o maior escultor da nossa língua em comum. 

Hoje a maioria dos brasileiros precisa ler Machado com um dicionário, pois ele escreve como se visse na Tuga, salpicando os textos com "fumos", "pequeno almoço", "ao pé de si" e por aí vai. Uma delícia.

Ontem, aproveitando um dia de pura preguiça, fui à uma livraria e comprei essa caixa com três livros da foto acima, que contém os três principais romances de Machado. Fazia décadas que havia lido-os e, como é sempre bom reler um livro com o peso dos anos, armei a minha rede indígena e comecei a viagem por "Memórias".

Ei que, no capítulo XII, intitulado "Um Episódio de 1814", Luanda - sempre Luanda, a adorável Luanda - salta das páginas do romance. Veja só o trecho abaixo. Trata-se da descrição de um jantar no Rio de Janeiro da época do Império, para comemorar a derrota de Napoleão Bonaparte.

Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro notícia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra carta em que... Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquela ocasião. O que afiançava é que podíamos contar, só nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.

E eu, que já morei nesta cidade negra, já atravessei para lá e para cá a partir dessas duas pontas do Atlântico, fiquei imaginando que mundo era esse, no Rio de Janeiro do séc. 19, onde milhões de angolanos (4,5, para ser mais exato) foram transladados para cá e eram tratados assim, como números.

Abaixo uma fotinha do Museu da Escravatura, na zona sul de Luanda, de onde essas almas partiram para nunca mais voltar.

sábado, 25 de julho de 2009

Foi assim, em Luanda

Ao arrumar alguns papéis, daqueles que se guardam ao longo do tempo com afecto, encontrei este desenho. Decidi partilhá-lo hoje convosco. Talvez porque esta imagem fala de uma Luanda antiga, relembra-me tempos em que se anunciaram sonhos e desafios.

Foi há 34 anos. Havia a guerra. E desenhos. Porque havia crianças e vida também. Assim, foi naquele tempo em que grupos de desalojados povoaram durante semanas o então Liceu D. Guiomar de Lencastre.
Nzinga Mbandi ainda não chegara. Naquele espaço, erguia-se o Liceu Feminino, nascido em 1954, que se orgulhava da educação que proporcionara a jovens e futuras mulheres durante duas décadas.
Em Junho de 1975, o liceu abriu as suas portas para servir de abrigo temporário a quem vinha fugido da guerra. Nas salas de aulas escutaram-se, pela primeira vez, outras línguas e viram-se panos de todas as cores.
Na cerca, nos jardins interiores, na sala de Lavores e até perto do tanque onde se ia espreitar os jacarés (lá, ao pé da sala de Canto Coral) cuidava-se de gente. E procurava-se cuidar por inteiro. Os espaços exteriores encheram-se de alegria com os sorrisos e cantorias dos grupos de crianças que se distribuíam por diferentes actividades e, assim, iluminavam, sem saber, o cinzento de muitos dias daquele cacimbo quente.

Campanhas de limpeza, acções para angariar alimentos, organização de espaços e refeições constituíram algumas das inúmeras tarefas diárias que ocupavam os dias de todos os que tentavam preservar rotinas e vidas. Novos vocábulos ouviam-se nos corredores da escola e o léxico crescia e enriquecia a par de cada vivência. Dividir era a operação principal e a mais difícil daquele tempo. Era preciso dividir espaços, horas, pensamentos, tarefas, alimentos. Dividir sem apenas subtrair, fazendo os restos virar ganhos. Nos muitos nadas descobriram-se parcelas e assim se partiu para novas operações.

Julho, 1975. Tempo de partidas bruscas. De fugas, perdas, lutos. De sonhos, alegrias, esperanças e celebrações de vida. Tudo coube nesse cacimbo. Misturavam-se prazeres e dores, nascimentos e despedidas, despiam-se as vestes da ingenuidade trazida da infância e das ilusões exponencialmente romanceadas pelo sonho vivido intensamente.
Depois da dipanda, o Guiomar de Lencastre deu lugar ao Nzinga Mbandi. Hoje, nas suas instalações recuperadas em 2000, vejo partilhar outros saberes e gosto de saber que se fala de outros reis e rainhas, também. Já não há portões fechados no Liceu, nem cartões de saída, nem vendedores de picolés. Há zungueiras que por ali passam e tudo é possível comprar, no meio do barulho de vozes de uma nova geração que marca a saída do Nzinga agora.

Luanda apresenta-se transfigurada, mas guarda silenciosamente os seus mistérios. Neles encontro a generosidade e coragem de quem soube morar por baixo dos traços destes desenhos. Aqueles que guardo, junto com o brilho dos olhos e sorrisos daquelas crianças.

Luanda merece. E esta é uma das estórias que se podia contar!