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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Hoje não estou para ninguém, sim?

Então e vocês perguntam: migas, Portugal perdeu e tal... Estás de trombinhas? Sim. Enormes trombas. Ontem deu-me para ir ver o jogo fora de casa e pasmem-se: ver-o-jogo. Sim, até agora, porque trabalho (wow, juras migas?) e pronto também não sou nenhuma doente pela bola, nem pela selecção nem por nada dessas coisas chamadas “desporto”, sobretudo relacionadas com gajos que correm atrás de uma bola, decidi que sair a meio da tarde para “ir ver o jogo” seria, no meu caso ir dormir para o sofá e fazer de conta que vi o jogo. Por isso, de modos que ontem, eu vi Portugal a jogar pela primeira vez. E, se me virem por aí a ver jogos da selecção ou entre clubes, (vá, o FCP sou capaz de ver sozinha uma vez por época), trata-se de uma coisa chamada “solidariedade feminina”. Mas, e agora perguntam: então e porquê de trombinhas??? Já que eu ligo “tanto” ao jogo da selecção. Porque pronto, vi uns cabrões a assaltarem-me o carro. Mesmo dentro do carro. Eu nem queria acreditar mas sim, era verdade. Estavam lá uns mafiosos que claro, para lá entrarem tiveram de fazer aquele truque espectacular* que é estragarem a fechadura para... tcharan... levarem... nada. Não tinha nada para roubar. É chato, eu sei. Fosse eu aparecer a entrar no meu carro naquela altura, e ainda levava um enxerto de porrada só para não me armar e não deixar algo aos homens que coitados, andam a trabalhar e precisam de receber um mambo qualquer. Vá lá que não lhes deu para cagar lá dentro, como uns que assaltaram a casa de um colega e que decidiram que era de bom tom, já que levavam umas cenitas dele, deixarem-lhe uma “lembrança”, no meio do chão da sala. Amorosos. E pronto, era isto. Agora já pedi para arranjarem a fechadura porque neste momento, a porta ficou mesmo fixe que nem fecha mas, baixou em mim uma dúvida, que me inquieta: e deixá-la assim? Era ou não era de mestre?

*Até eu fazia melhor com um cordão das sapatilhas. Sim, tenho cara de sonsa mas genes de MacGyver...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na galeria das saudades

Já que o blog anda meio nostálgico esses dias, vou postar duas fotos de Luanda, mas precisamente da Av. dos Combatentes.

Recebi essas fotos por e-mail e não sei quem foi o autor. Caso o mesmo se identifique terei o maior prazer em colocar os créditos.

Como dizem por ai: uma imagem vale mais do que mil palavras, então deixo de lero lero e envio as imagens...


Av. dos Combatentes, meados dos anos 70


A mesma Av. dos Combatentes nos dias de hoje...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um país pode ser traduzido numa letra de música?

Matias Damásio, em clique exclusivo da equipa JE para a Casa de Luanda

Toda a gente conhece essa figura da foto acima: Matias Damásio, autor de diversos sucessos. O mundo veio abaixo no final do ano passado quando ele lançou "Eu sou a Outra", uma ode às puladas de cerca (quem nunca pulou?), ouvida e cantarolada a plenos pulmões por nós nas tardes inteiras que perdíamos no engarrafamento indo para o trabalho, no rádio do carro.

Outra música dele que me lembra muito, mas muito, as curvas do Kinaxixi, das Ingombotas, da Maianga, do Prenda, da Rey Katyavala, da Samba, da Ilha e de tantos flashes que ainda me chegam desse país distante é esta, cuja letra transcrevo abaixo. Quem nunca ouviu não faz idéia da beleza desse hino-país. Seria o equivalente ao "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso? Seria, sem sombra de dúvidas.

Dica do PC, vulgo Magrelo.

ANGOLA (PAÍS NOVO)
Letra e Música: Matias Damásio

Vou contar-vos a história de um povo
Que tem tudo para sorrir de novo
Vou falar-vos da velha coragem
Sacrifícios e muitas viagens

Vou falar do soldado tombado
Anulando o sorriso rasgado
Do Kandengue que sofreu calado
E do povo que estava cansado

Vou falar desta terra de glórias
Nossa Angola de muitas memórias
Vou falar de um povo que quis
Finalmente agora feliz

Vou mostrar-vos uma nova terra
Agora sem guerra
Angola, do meu coração

Mangolé não se deixa
Não vacila a hora é essa
Dá-me a tua mão

Para junto comigo bombar
Nossa Angola juntos levantar
Angola, do meu coração

Vou falar do artista sofrido
Que pintou 30 anos de guerra
finalmente hoje tem a honra
De pintar anos brancos de paz

Vou falar deste crack Montorras
Dos goloços nosso Akua
Mano brincadeira tem hora
Paz e alegria aqui mora

Vou falar pra você que emigrou
Na esperança de vida melhor
Olha que nosso povo te espera, ai nosso povo te espera
Vou falar do meu povo de novo
Sem esquecer no crack Sayovo
Vou falar-vos dos palancas negras
Os donos do meu coração

Vou falar do pula que ficou
No gingado desta negra Angolana
Para Europa nunca mais vazou
Com a garina do Marçal ficou

Vou mostrar-vos uma nova terra
Agora sem guerra
Angola, do meu coração

Mangolé não se deixa
Não vacila a hora é essa
Dá-me a tua mão

Para junto comigo bombar
Nossa Angola juntos levantar
Angola, do meu coração

sábado, 20 de junho de 2009

O encontro

O telefone tocou no meio da tarde de inverno, daquelas bem iluminadas por um sol frio que só o sul tropical sabe fabricar em fins de junho. Do outro lado, o sotaque angolano era inconfundível, trazendo à lembrança aquele sol acanhado nas tardes do cacimbo de Luanda, a caminho de uma bica na Nilo dos Combatentes.

- F., estou cá em São Paulo, engarrafado num tráfego que mais me lembra o de Luanda, tás a ver?

Era Fernando Teixeira, o Baião, morador desta Casa, escritor angolano que melhor traduz a língua das cubatas de Luanda, pai do Pequeno Dicionário Angolano que tantos visitantes atrai para cá. Conhecíamo-nos apenas pela rede, graças a este blog, mas já nos unia há muito a solidariedade com que ele sempre defendeu este espaço dos ataques totalitários.

Marcamos encontro para a noite seguinte, jantar sob as árvores do Chácara Santa Cecília, em Pinheiros. Durante duas horas falamos de várias Angolas. A da infância do Baião, a dos primeiros anos de independência, aquela em que moramos eu e a P., a dos preços mais altos do mundo, onde toda esta história começou.

Muitas Angolas, uma única saudade a nos unir, a mim e ao Baião. E ao X., que a esta hora está já a se matar de invejas por não ter tido a chance de desfrutar deste momento. Principalmente depois que souber que, já não bastasse o prazer da visita, presenteou-me o Baião com três de seus livros, incluído aí o último, cujo lançamento foi aqui anunciado.

Fernando, bom retorno a Portugal e já sabes: nas tuas voltas a São Paulo, tens cá um amigo, ya.

Tamos juntos!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Redutor de Gás ou... como tirar-me do sério

Redutor de gás. Ou coisinho do gás. Ou click. Ou tampinha da garrafa. Mais umas voltinhas e inventava mais uns nomes. Horas e horas à procura de um destes espécimes nesta rua, que é Luanda. Ninguém sabe. Ou melhor, fazem sempre que sabem mas na realidade, inventam. Dizem que "lá no quê" ou nos miúdos da rua, eu encontro. Ou nas bombas, onde se vendem as garrafas. Mas nada. Houve nesse dia um esqueminha para me tramar a vida. Os miúdos da rua, ficaram todos em casa. Nas bombas, circulou a informação de que, se eu lá fosse comprar o redutor, não havia. E mandavam para a próxima. Dois dias depois, o redutor apareceu-me nas mãos. De onde veio, não sei. Onde se compra, muito menos. Dizem-me que no Roque Santeiro mas, tenho para mim que é uma grande treta. Mito urbano. Sei que, naquele dia foi Natal. Em Luanda, o Pai Natal, põe redutores no sapatinho. Neste caso, na garrafa.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

As voltas de Luanda

E se de repente, perdemos o que nos trouxe a outro país? Podia seguir caminho, levando Luanda como um pedaço de mim. E se o destino é contrariado e deixamo-nos ficar? Ficamos a ver a vida acontecer, procurando um outro rumo. Seguimos com passadas menos seguras mas, seguimos. O encanto de percorrer a Luanda sozinha, ainda está por descobrir. A Luanda que me fez rir, tantas vezes rouba-me o sorriso. Mas essa Luanda vai dar-me um final feliz. E enquanto as palavras fogem de mim, grito pelo colo do meu país. Porque quero contrariar a ideia de quem me diz que, em Luanda sobrevive-se. Eu quero um dia escrever que em Luanda, vivo feliz.

*Para a Kianda que acha bonita a “história de amor” que se transformou num amor diferente, pela sua Luanda.

domingo, 1 de março de 2009

Partida

De tudo o que vivi, jamais esquecerei da luz nas tardes de Luanda. Tão plena, verdadeira, pedaços de sol a invadir a pequena sala por todas as frestas de vidro, chocando-se contra paredes brancas e cacos de piso para explodir em milhares de partículas a flutuar, brilho no ar a denunciar cada ruga no revestimento da velha poltrona, cada partícula de pó a pairar sobre os delicados bispos, peões, reis e rainhas do tabuleiro em pedra-sabão. Agradecia sempre por encontrar-la à mesma hora, tocando-me a pele cansada da poeira da estrada, fazendo-me esquecer por alguns instantes o frescor cinza do cacimbo, iluminando-me a escuridão das idéias. Se pudesse, a teria escondia no tronco oco de um imbondeiro em miniatura para carregá-la comigo na longa viagem de volta. E a cada vez que sentisse a tristeza da partida, ou o espírito titubear de banzo daquelas terras tão vivas, espiaria por uma fresta só para confirmar de que não foi apenas um sonho, uma invenção da minha própria imaginação.
P.S. - Este texto foi escrito no cacimbo na casa de Ph. e V. (o tabuleiro de xadrez e o imbondeiro da foto são deles) e guardado para ser publicado no dia em que partisse de Angola, em que deixasse a Casa de Luanda. Ele é o final de uma trilogia que começou com Rendição e Cacimbo sem Ponto Final.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Carnaval em Luanda, é em Janeiro

Ora, estava a menina migas toda cheirosinha, bonequeninha, bem dispostinha e outras coisas que tais, acabadas em inha, pronta para a festa de despedida dos queridos F. e P. quando,ao sair da sua humilde casinha, foi parada por uma senhora agente. Caso surreal número 1: a menina migas nunca foi parada por qualquer senhor agente nesta Luanda. Primeira vezinha, portanto. E eis que, a simpática agente informou que por ali, não podia passar. Caso surreal número 2: Desfile Carnavalesco, dizia a agente. A migas hiperventilou, claro. Hã? Como? E agora? Não pode ser! Desfile Carnavalesco em Janeiro? Como vou para a festa dos meus queridos? Os argumentos, seguiram-se, à boa maneira angolana. Ah, porque tenho um compromisso importante. Ah, porque eu passo rapidinho e ninguém vai dar por mim. Ah, porque eu tenho mesmo de ir. Ah, e se eu fizer de conta que também pertenço ao Desfile Carnavalesco? Nariz encarnado de palhaço, é coisa que trago sempre na bolsa, não vá precisar um dia. Mas nada. Os “não posso fazer nada” seguiram-se à mesma velocidade. E uma segunda agente dizia que tínhamos sido informados. Hã? Tu queres ver que andaram de porta em porta a informar que a rua ia fechar e eu estava a tomar banho e a cantar bem alto com os meus dois pulmõezinhos? Esse seria o caso surreal número 3 do dia. A menina não canta. Repira fundo e pensa, migas! Passemos ao Plano B: encontrar no meio do bairro um caminho alternativo e, pedir ajuda aos senhores angolanos das redondezas. Não há. Não há caminho alternativo. A pedinche continua, claro. E quando vão deixar passar? 21h, dizia a simpática agente. Hã? 21 quê? Mas são 16h! E eu tenho meeeesmo de ir. Eu também estou incomodada – rezingava a simpática agente – mas são ordens do chefe. Ora, ao fim de meia horita e depois da pressão de alguns angolanos que se juntaram, lá foi a menina migas, com pisquinhas intermitentes, contra-mão, a caminho da grande festa. Ah, assim vale a pena! Dá mais luta. Torna as coisas mais complicadas. Quase impossíveis. Afinal quem se lembraria de um desfile Carnavalesco em Janeiro?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Para um 2009 mais tranquilo

As palavras continuam a fazer parte de mim. Escrevo e guardo para um dia não esquecer tudo aquilo que eu quero recordar. Da Luanda que não pára. Da Luanda que acorda cedo e dorme tarde. Da Luanda que, a cada dia que passa me dá coisas boas e más. E é dessas coisas boas e más que vou escrevendo por aqui. Das viagens, das pessoas que, de certo modo me marcam, dos momentos de solidão, de saudade, das mudanças em mim. E quando escrevo das coisas más, que me revoltam, não significa que Luanda seja má ou que as pessoas sejam más. E eu compreendo que muitos não gostem de ler. Porque os meus olhos vêm coisas que outros olhos não vêm. Sobretudo aqueles que vivem fechados neste seu mundo, só deles, que querem só para eles e, que se recusam a partilhar com os novos que chegam ao seu país, à sua cidade. Que comem da sua comida, que se enamoram pelas suas mulheres, que ouvem a sua música, que vivem no seu país como se fosse um pouco deles também. Mas eis que, mesmo quando se fala do bom que Luanda tem, da música que se pode ouvir, das praias onde se pode ser feliz, as vozes revoltadas continuam a aparecer. Porque enquanto os ricos ouvem a música e nadam no mar quente, os pobres continuam a comer restos, os pobres continuam doentes, os pobres continuam sem futuro. E afinal, o que é suposto escrever sobre Luanda? Nada? Sim. Acho que nada. Porque de alguma forma, as palavras que se escrevem continuam a revoltar. A nossa realidade é sempre a realidade dos olhos de quem não é desta terra. E por isso, a vontade de escrever e partilhar, desaparece. Desaparece a cada dia que passa. A paciência, desaparece também. Porque Luanda não está preparada para admitir que não tem muita coisa. Porque Luanda não está preparada para admitir que tem muita coisa para dar. A todos. Não só aos ricos como muitos insistem em chamar-nos. Não vou justificar a minha vida, ou a vida de todos os que aqui escrevem. Não vou justificar porque somos infelizes e felizes nesta Luanda. Vou apenas justificar porque as minhas palavras fogem desta Casa. Porque nenhum de nós veio com a missão de mudar a realidade. Nenhum, isoladamente, tem a missão de mudar Luanda. Aos que gostam de nos ler, mesmo que não concordem sempre, obrigada. Aos que se riem connosco, obrigada. Aos que relebram um passado presente na memória retalhada, obrigada. A todos, os votos de um 2009 diferente. Melhor. Sempre melhor. Mesmo que o melhor seja pouco. Mesmo que o melhor seja quase nada, para mim ou para todos os de Luanda. Aos que são a pedra no sapato para quem escreve sobre a realidade que vive, um abraço e um queijo e até mais logo. Porque a sua existência mais lembra a de um velho, amargurado pela sua infeliz vida, que lhe foge, mas que nunca nada fez para a mudar. E vive assim. Infeliz. A maldizer a sua sorte e a dos que o rodeiam. Luanda precisa de pensamentos positivos. Não de velhos deprimidos e amargurados com o destino da sua Luanda. Não é um adeus ou um até já. Porque não sei se realmente vou voltar a querer escrever.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tiros em Luanda

A rua onde moramos amanheceu movimentada hoje. Logo às 8h, o guarda de uma das casas abriu fogo. Foram dois ou três tiros de pistola, seguidos por uma rajada de AK 47. Como se tratasse de casa de um general das Forças Armadas Angolanas, atualmente também deputado, em poucos minutos o bairro estava cheio de unimogues da Polícia Nacional.

Os policiais cercaram a casa, mas ninguém ousava entrar. Dali a pouco chegaram quatro motocicletas dos Ninjas, a Polícia de Intervenção Rápida, uma espécie de Bope da meganha angolana. Do lado de fora, as aspostas corriam soltas.

- Vão lhe passar. Este gajo não tem chances - diziam alguns colegas que fazem seguranças em outras casas.
- Eh quê? Vão apenas lhe prender. Vai apanhar um bocado, mas depois lhe soltam. Essas empresas são todas de generais. Então o quê?
- E não entram por quê esses polícias?
- Ehehe, estão mesmo a suar com medo do gajo.
- Nem vale à pena. Ele fez muito tiro, não deve ter mais munição.

As armas, diziam os colegas, pertenciam ao dono da casa, o tal general. Tentei saber o motivo da atitude do proteção pistoleiro. Estaria bêbado ou o quê?

- É assim, chefe. É muita frustração. Nós estamos aqui a trabalhar, não nos pagam. O Natal está a chegar e não temos dinheiro. Não veio salário, não veio décimo-terceiro, não veio nem um cabaz, chefe. É muita revolta mesmo.

Depois de meia hora, um Ninja mais corajoso entrou no quintal da casa. Saiu cinco minutos depois arrastando o proteção rendido pelo colarinho. Na mão esquerda, o Ninja carregava o AK 47. O proteção foi levado. Vai passar o Natal, sem cabaz nem dinheiro, na cadeia.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sobre escolhas e felicidade

Então eu passei dois meses e meio com a mochila nas costas, pé na estrada, visitando dez províncias que me pareceram tão mais relaxantes, tão mais tranquilas, sem o trânsito e a fumaça e bagunça urbana da cidade de Luanda. E não me cansava de repetir mentalmente, 'ah eu seria mais feliz em Benguela', para depois, mais alguma semanas, mudar para 'ah eu seria mais feliz em Lubango', e então mudar de novo para,'ah, eu seria tão mais feliz em Huambo'.

Estava tão compenetrado em tanto chão de estrada que só no último fim de semana me dei conta de que, depois de tanto tempo morando em Luanda, jamais tinha sentado o meu traseiro num barquinho para cruzar a baía que separa o continente da tão festejada Ilha do Mussulo. Então vamos lá, pá, que não se pode ficar sem conhecer o Mussulo.

E vinte minutos de travessia depois, lá estava eu, mergulhado nas águas verdes, bem clarinhas do mar, debaixo de um belo sol, pensando, 'ah, eu seria tão mais feliz vivendo no Mussulo'.

Com tanto lugar para ser feliz nesse país, alguém pode me explicar, por favor, por que é que tanta gente continua insistindo em viver em Luanda?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Angola 2009

Como correram melhor do que o próprio MPLA esperava as legislativas de 2008, o presidente José Eduardo dos Santos parou de dizer que não mais seria candidato a reeleição nas presidenciais de 2009.

E então, coincidentemente, surgiram espalhados pela cidade centenas de cartazes como esse, com excertos de discursos do presidente. Quem achar que estou exagerando, pode fazer uma visita ao Aerograma, onde o companheiro Afonso Loureiro mostra melhor a decoração zéduardiana de Luanda.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Então é Natal

Árvore de Natal ao lado do Prédio Livro, no Bairro Operário, em Luanda
Então o Natal chegou, as ruas estão mais cheias, as praças dos mercados estão apinhadas de gente a procurar dos melhores preços e o trânsito está pior.
Os candongueiros buscam melhorar os lucros. Encurtam as distâncias e dobraram o preço da passagem para 100 kwanzas.
As empresas estão a anunciar na TV, com vendedores travestidos de Pai Natal, preços exagerados como se fossem a última pechincha da terra, corre já antes que acabe.
Algumas árvores gigantes apareceram enfeitadas, como a da foto no início do post, logo ali ao lado do Prédio Livro do Bairro Operário, no São Paulo.
E eu estou quebrando a minha cabeça pra saber qual vai ser afinal a surpresa que este ano vou fazer ao meu amor na noite feliz. Mas isso já não tem novidade nenhuma.

sábado, 29 de novembro de 2008

Os sonhos da nossa angolana de fibra

Nina jamais se contentou com o salário da embaixada. Mas em lugar de ficar se lamentando, foi à luta para melhorar de vida. E veio parar aqui em casa. Bateu no portão oferecendo-se para trabalhar das 13h às 19h. Conseguiu dobrar seus rendimentos.

- Eu queria muito ter tempo para estudar, mas neste momento a prioridade é a educação dos meus filhos. Por isso arrumei este emprego, pra poder lhes pagar uma escola boa.

A mãe enche a cabeça dela para comprar uma casa. Acha que precisam se libertar do aluguel, que sobe a toda hora em Luanda. Chegou a ver um terreno no Benfica, mas Nina está insegura.

- É muito distante, vai ser difícil chegar na hora no trabalho. Depois, que escola boa meus filhos poderão freqüentar lá?

O pai das crianças não ajuda Nina com o sustento dos meninos. Ela sabe que tem direito a isso, mas não quer recorrer à Organização das Mulheres Angolanas, uma entidade partidária do MPLA que poderia ajudá-la a enquadrar o aldrabão. Nina é orgulhosa, prefere conquistar a pedir.

O irmão mais velho dela mora na Alemanha e já falou em levá-la para lá. Ela teria que deixar as crianças, porém, coisa que ela não aceita. Um tio, que já viveu na Europa, diz que a vida no velho continente está muito difícil. Melhor seria ir para o Canadá. Mas teria de levar as crianças, porque aí as pessoas teriam pena dela e lhe dariam emprego.

Eu explico que isso é tolice. Ela jamais conseguiria entrar legalmente no Canadá. Como imigrante ilegal, ficaria exposta a toda sorte de perigos, sem direito aos serviços de saúde e educação.

Nina não sabe o que fazer. Ela tenta enxergar um futuro, mas sente-se acuada. Nos últimos tempos nem dorme direito, preocupada com a responsabilidade que lhe pesa sobre os ombros. Sonha com tantas coisas boas para os filhos, mas tudo lhe parece inalcançável.

Numa novela, ela encontraria um princípe encantado e rico, que acabaria com todos os problemas dela. Mas como isto é vida real, a novela da nossa heroína angolana termina pesada, cheia de pontos de interrogação que lhe pesam no estômago.

Só posso lhe desejar sucesso e dizer uma coisa, Nina: seus filhos têm sorte de tê-la como mãe.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A emancipação da nossa angolana de fibra

Com o fim do casamento, Nina não aceitou mais permanecer na casa dos sogros. E com os dois filhos pequenos, teve de enfrentar a dura tarefa de encontrar uma casa e um trabalho ao mesmo tempo em que a mãe, que conhecera havia pouco tempo, apareceu doente em Luanda para lhe pedir ajuda.

- Ela ficou diabética, engordou muito, não podia mais trabalhar. Estava já separada do meu pai e eu assumi essa responsabilidade de cuidar dela também.

Nina foi bater no Miramar, bairro nobre onde ficam as embaixadas em Luanda, a procura de um emprego como doméstica na casa do embaixador americano. Os seguranças avisaram que ali era impossível. Mas mostraram outra casa onde, naquele exato momento, dois brancos faziam uma visita. Provavelmente alugariam a vivenda.

Ela foi lá bater lá e conversou com a senhora estrangeira que mal falava português. Estavam a alugar a casa para estabelecer uma embaixada. Mas ainda demoraria algum tempo até que tudo fosse resolvido e eles realmente precisassem de uma empregada. A senhora quis guardar um contato, mas Nina não tinha telemóvel na época.

- Ficou combinado que o policial que trabalha na embaixada americana ia mandar me avisar. Ele sabia a rua onde eu estava morando. Mas como o aviso estava demorando muito e eu precisava sustentar meus filhos, comecei a vender pedras.

Nina fez contatos nas diversas obras que começavam a surgir em Luanda com o fim da guerra civil. Ficou amiga dos pedreiros e eles a chamavam quando precisavam de cascalho. Ela alugava um caminhão, ia até Viana buscar pedras e as entregava nas obras, cobrando por isso.

- Estava a dar algum dinheiro, o suficiente para o aluguel e o sustento das crianças. Foi quando o policial apareceu lá em casa, dizendo que aquela senhora estava mandando me chamar.

Nina voltou ao Miramar e conseguiu o emprego no mesmo dia. Trabalharia como doméstica para a embaixada das 9h às 13h, ganhando USD 250 por mês.

Amanhã, no último capítulo: Nina não se acomoda com o emprego novo e parte em busca melhores dias.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A rebeldia bate à porta da nossa angolana de fibra

Quando a adolescência chegou, Nina sentia-se indesejada e desrespeitada na casa dos tios. Trabalhava como empregada sem salário e era proibida de ir à escola. Decidiu ir viver com o avô no bairro do Kalemba, em Luanda. Tinha 16 anos.

No Kalemba apanhou uma gripe e foi ao posto de saúde se tratar. Lá o médico recomendou algumas injeções e foi assim que conheceu seu marido.

- O Dioli estudava para enfermeiro e fazia a prática lá. O conheci quando preparava as picas que eu tinha de apanhar. Todos os dias eu voltava e era ela quem me injetava. Fomos ficando amigos e começamos a namorar.

A gravidez foi uma questão de tempo e ela mesma admite que viu, na barriga, uma fuga para a situação na casa dos tios.

- Quando apanhei meu primeiro filho, fui morar na casa dos pais do Dioli, na Samba. Eles me queriam muito bem, me tratavam como uma filha e davam amor ao neto. O problema era o Dioli, que não ligava muito pra gente. Ele continuava a viver na Kalemba e eu na casa dos pais dele.

Dioli vivia distante, mas ainda assim Nina engravidou do segundo filho, antes que se separassem de vez.

- O problema é que ele quer curtir, desbundar, arrumar mulheres. Não ajuda em nada com o sustento das crianças, está sempre a aldrabar, dizer que vai ajudar, mas que nada. Eu é que seguro tudo sozinha.

Dioli hoje é taxista. Ele e Nina não se dão bem. Os filhos raramente vêem os pais.

Amanhã: com o fim do casamento, Nina tem de deixar a casa dos sogros.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A infância triste da nossa angolana de fibra

Continuando a história da nossa heroína, Nina nasceu no Uíge, onde o pai era camponês. Ainda bebê foi trazida pela mãe para a casa de um tio em Luanda, onde estaria a salvo da guerra. A mãe voltou depois para a província e elas nunca mais se reencontraram. Nina cresceu longe dos pais, dos três irmãos mais velhos, todos também distribuídos entre casas de parentes.

Na casa do tio, ela aprendeu a frequentar a igreja das Testemunhas de Jeová. Na igreja, aprendeu a ler e a escrever, mas nunca foi matriculada pelo tio numa escola. "Ele foi muito bom para mim em muitas coisas, mas em outras...", lembra. "Ele me fazia como uma empregada, tomava conta aos filhos dele. Meus primos estavam na escola, mas eu não podia estudar. Tinha de cuidar da casa. É uma vontade muito grande que eu tenho, até hoje, a de ir para uma escola, aprender as coisas."

Outra queixa de Nina do tempo em que vivia na casa dos tios é a falta de carinho. "Não é a mesma coisa que ser criada pelos nossos pais", diz. "Eu cresci assim, sem amor, sem carinho. Foi muito triste isso."

Nina só conheceu a mãe em 1997, quando tinha 17 anos de idade.

Amanhã, como ela deixou a casa dos tios para recomeçar a sua vida. Não perca, às 20h.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma angolana de fibra

Nina, a moça que trabalha aqui em casa, ficou admirada quando certa feita lhe demos 10 mil kwanzas (cerca de USD 150) para que pagasse ao caminhão que viria colocar água no tanque.

Estranhou porque na embaixada onde trabalha, duas casas depois da nossa, o embaixador nunca conseguiu comprar um caminhão de 10 mil litros por menos de USD 300. Esperta como só, ela anotou o telefone do motorista. Quando a embaixada precisou de água, Nina deu o número ao embaixador. O diplomata ficou admirado com a esperteza da empregada doméstica.

Nina é assim. Inteligente, honesta, batalhadora e cheia de iniciativas. Se tivesse tido oportunidades, teria ido longe. Mas a vida, a guerra, a separação ainda muito jovem da família lhe sabotaram o futuro. Nina nunca frequentou uma escola regular e hoje trabalha em dois empregos como doméstica para sustentar os dois filhos e a mãe, diabética, de 72 anos.

Nos próximos dias, sempre às 20h, vocês conhecerão em capítulos a história de vida da Nina, uma angolana de fibra.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Duas Sumbes

Banco na beira da praia, ideal para relaxar tomando uma brisa fresca
Ela é uma capital de província com jeitão de cidadezinha do interior. As ruas são seguras, apesar de escuras à noite, e não há trânsito pesado. Ninguém tem água encanada. Todos são abastecidos por caminhões que enchem seus tanques diretamente no rio. Não se sabe quantos habitantes tem, mas não podem ser muitos, pelo menos na Sumbe colonial. Sim, porque existem duas Sumbes no Kwanza Sul.

O parque dos Namorados, na descida do morro...
...que separa a cidade da praia

Uma é formada pelas antigas construções deixadas pelos portugueses, muito bonitas e bem cuidadas, mas em número reduzido.
A sede do governo provincial, de frente para o mar
Ruas limpas e tranquilas, sem trânsito, típicas das cidades pequenas
Os fundos do governo provincial, a partir do morro que separa a praia do resto da cidade

Estão lá, na marginal com um calçadão repleto de palmeiras, onde ficam três bons (e um decadente) restaurantes, e no centro que vem passando por renovação.
Árvores com flores à beira-mar...
A marginal ladeada por palmeiras...
A entrada de um dos restaurantes fiches da marginal
Existem quatro opções de hotel e, como no resto de Angola (com exceção de Lobito), nada tão excepcional em termos de qualidade, apesar dos preços serem compatíveis com os das melhores redes hoteleiras internacionais. Uma noite em qualquer um dos quatro hotéis do Sumbe custa USD 150.
O Ritz Hotel: preço de cidade grande
A praia é mesmo bonita, a cor do mar no fim de tarde é impagável. Mas nem todos têm coragem de se aventurar nesse azul profundo, porque também não existem redes de esgoto em Sumbe, então, parece que a água é meio suja. Não posso afirmar, porque decidi ser cauteloso.
A praia é fiche, mas há dúvidas sobre a qualidade da água
Tomar sol é tranquilo, o problema é entrar na água depois

A outra Sumbe é a que mora nas casas de tijolos marrons, feitos da terra local e que se confunde com as montanhas em que está encarrapitada. É mais frenética do que a Sumbe dos cartões postais, mas como é da mesma cor da montanha, se confunde com a paisagem.



As casa feitas de tijolos de barro já viraram paisagem