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sábado, 29 de novembro de 2008

Os sonhos da nossa angolana de fibra

Nina jamais se contentou com o salário da embaixada. Mas em lugar de ficar se lamentando, foi à luta para melhorar de vida. E veio parar aqui em casa. Bateu no portão oferecendo-se para trabalhar das 13h às 19h. Conseguiu dobrar seus rendimentos.

- Eu queria muito ter tempo para estudar, mas neste momento a prioridade é a educação dos meus filhos. Por isso arrumei este emprego, pra poder lhes pagar uma escola boa.

A mãe enche a cabeça dela para comprar uma casa. Acha que precisam se libertar do aluguel, que sobe a toda hora em Luanda. Chegou a ver um terreno no Benfica, mas Nina está insegura.

- É muito distante, vai ser difícil chegar na hora no trabalho. Depois, que escola boa meus filhos poderão freqüentar lá?

O pai das crianças não ajuda Nina com o sustento dos meninos. Ela sabe que tem direito a isso, mas não quer recorrer à Organização das Mulheres Angolanas, uma entidade partidária do MPLA que poderia ajudá-la a enquadrar o aldrabão. Nina é orgulhosa, prefere conquistar a pedir.

O irmão mais velho dela mora na Alemanha e já falou em levá-la para lá. Ela teria que deixar as crianças, porém, coisa que ela não aceita. Um tio, que já viveu na Europa, diz que a vida no velho continente está muito difícil. Melhor seria ir para o Canadá. Mas teria de levar as crianças, porque aí as pessoas teriam pena dela e lhe dariam emprego.

Eu explico que isso é tolice. Ela jamais conseguiria entrar legalmente no Canadá. Como imigrante ilegal, ficaria exposta a toda sorte de perigos, sem direito aos serviços de saúde e educação.

Nina não sabe o que fazer. Ela tenta enxergar um futuro, mas sente-se acuada. Nos últimos tempos nem dorme direito, preocupada com a responsabilidade que lhe pesa sobre os ombros. Sonha com tantas coisas boas para os filhos, mas tudo lhe parece inalcançável.

Numa novela, ela encontraria um princípe encantado e rico, que acabaria com todos os problemas dela. Mas como isto é vida real, a novela da nossa heroína angolana termina pesada, cheia de pontos de interrogação que lhe pesam no estômago.

Só posso lhe desejar sucesso e dizer uma coisa, Nina: seus filhos têm sorte de tê-la como mãe.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A emancipação da nossa angolana de fibra

Com o fim do casamento, Nina não aceitou mais permanecer na casa dos sogros. E com os dois filhos pequenos, teve de enfrentar a dura tarefa de encontrar uma casa e um trabalho ao mesmo tempo em que a mãe, que conhecera havia pouco tempo, apareceu doente em Luanda para lhe pedir ajuda.

- Ela ficou diabética, engordou muito, não podia mais trabalhar. Estava já separada do meu pai e eu assumi essa responsabilidade de cuidar dela também.

Nina foi bater no Miramar, bairro nobre onde ficam as embaixadas em Luanda, a procura de um emprego como doméstica na casa do embaixador americano. Os seguranças avisaram que ali era impossível. Mas mostraram outra casa onde, naquele exato momento, dois brancos faziam uma visita. Provavelmente alugariam a vivenda.

Ela foi lá bater lá e conversou com a senhora estrangeira que mal falava português. Estavam a alugar a casa para estabelecer uma embaixada. Mas ainda demoraria algum tempo até que tudo fosse resolvido e eles realmente precisassem de uma empregada. A senhora quis guardar um contato, mas Nina não tinha telemóvel na época.

- Ficou combinado que o policial que trabalha na embaixada americana ia mandar me avisar. Ele sabia a rua onde eu estava morando. Mas como o aviso estava demorando muito e eu precisava sustentar meus filhos, comecei a vender pedras.

Nina fez contatos nas diversas obras que começavam a surgir em Luanda com o fim da guerra civil. Ficou amiga dos pedreiros e eles a chamavam quando precisavam de cascalho. Ela alugava um caminhão, ia até Viana buscar pedras e as entregava nas obras, cobrando por isso.

- Estava a dar algum dinheiro, o suficiente para o aluguel e o sustento das crianças. Foi quando o policial apareceu lá em casa, dizendo que aquela senhora estava mandando me chamar.

Nina voltou ao Miramar e conseguiu o emprego no mesmo dia. Trabalharia como doméstica para a embaixada das 9h às 13h, ganhando USD 250 por mês.

Amanhã, no último capítulo: Nina não se acomoda com o emprego novo e parte em busca melhores dias.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A rebeldia bate à porta da nossa angolana de fibra

Quando a adolescência chegou, Nina sentia-se indesejada e desrespeitada na casa dos tios. Trabalhava como empregada sem salário e era proibida de ir à escola. Decidiu ir viver com o avô no bairro do Kalemba, em Luanda. Tinha 16 anos.

No Kalemba apanhou uma gripe e foi ao posto de saúde se tratar. Lá o médico recomendou algumas injeções e foi assim que conheceu seu marido.

- O Dioli estudava para enfermeiro e fazia a prática lá. O conheci quando preparava as picas que eu tinha de apanhar. Todos os dias eu voltava e era ela quem me injetava. Fomos ficando amigos e começamos a namorar.

A gravidez foi uma questão de tempo e ela mesma admite que viu, na barriga, uma fuga para a situação na casa dos tios.

- Quando apanhei meu primeiro filho, fui morar na casa dos pais do Dioli, na Samba. Eles me queriam muito bem, me tratavam como uma filha e davam amor ao neto. O problema era o Dioli, que não ligava muito pra gente. Ele continuava a viver na Kalemba e eu na casa dos pais dele.

Dioli vivia distante, mas ainda assim Nina engravidou do segundo filho, antes que se separassem de vez.

- O problema é que ele quer curtir, desbundar, arrumar mulheres. Não ajuda em nada com o sustento das crianças, está sempre a aldrabar, dizer que vai ajudar, mas que nada. Eu é que seguro tudo sozinha.

Dioli hoje é taxista. Ele e Nina não se dão bem. Os filhos raramente vêem os pais.

Amanhã: com o fim do casamento, Nina tem de deixar a casa dos sogros.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A infância triste da nossa angolana de fibra

Continuando a história da nossa heroína, Nina nasceu no Uíge, onde o pai era camponês. Ainda bebê foi trazida pela mãe para a casa de um tio em Luanda, onde estaria a salvo da guerra. A mãe voltou depois para a província e elas nunca mais se reencontraram. Nina cresceu longe dos pais, dos três irmãos mais velhos, todos também distribuídos entre casas de parentes.

Na casa do tio, ela aprendeu a frequentar a igreja das Testemunhas de Jeová. Na igreja, aprendeu a ler e a escrever, mas nunca foi matriculada pelo tio numa escola. "Ele foi muito bom para mim em muitas coisas, mas em outras...", lembra. "Ele me fazia como uma empregada, tomava conta aos filhos dele. Meus primos estavam na escola, mas eu não podia estudar. Tinha de cuidar da casa. É uma vontade muito grande que eu tenho, até hoje, a de ir para uma escola, aprender as coisas."

Outra queixa de Nina do tempo em que vivia na casa dos tios é a falta de carinho. "Não é a mesma coisa que ser criada pelos nossos pais", diz. "Eu cresci assim, sem amor, sem carinho. Foi muito triste isso."

Nina só conheceu a mãe em 1997, quando tinha 17 anos de idade.

Amanhã, como ela deixou a casa dos tios para recomeçar a sua vida. Não perca, às 20h.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma angolana de fibra

Nina, a moça que trabalha aqui em casa, ficou admirada quando certa feita lhe demos 10 mil kwanzas (cerca de USD 150) para que pagasse ao caminhão que viria colocar água no tanque.

Estranhou porque na embaixada onde trabalha, duas casas depois da nossa, o embaixador nunca conseguiu comprar um caminhão de 10 mil litros por menos de USD 300. Esperta como só, ela anotou o telefone do motorista. Quando a embaixada precisou de água, Nina deu o número ao embaixador. O diplomata ficou admirado com a esperteza da empregada doméstica.

Nina é assim. Inteligente, honesta, batalhadora e cheia de iniciativas. Se tivesse tido oportunidades, teria ido longe. Mas a vida, a guerra, a separação ainda muito jovem da família lhe sabotaram o futuro. Nina nunca frequentou uma escola regular e hoje trabalha em dois empregos como doméstica para sustentar os dois filhos e a mãe, diabética, de 72 anos.

Nos próximos dias, sempre às 20h, vocês conhecerão em capítulos a história de vida da Nina, uma angolana de fibra.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sim, nós podemos

Hoje acordei com aquela sensação de ano-novo. Dormi pouco, acompanhando a votação americana, e acordei com aquela injeção de esperança e otimismo que os anos-novos sempre me despertaram. Lá do outro lado do Atlântico, Barack Obama me encheu de entusiasmo.

Mas o que o novo presidente-eleito dos Estados Unidos representa para Angola?

Com seu slogan de campanha ("Yes, we can!"), Obama já conseguiu, antes mesmo de começar a governar, a incrível façanha de convencer as pessoas de que "sim, elas podem". E convenceu pessoas-chave:

-Os negros (americanos e não americanos), de que é possível um mundo onde as cores se misturam e pesam o mesmo na balança das oportunidades;
-Os jovens, de que política é coisa deles sim, e que há um mundo inteiro esperando por eles pra ser mudado.
-Os idealistas, de que sua batalha não está vencida e que a democracia nem sempre serve aos interesses dos poderosos;
-E finalmente a África, que pela primeira se vê representada nos genes e nas preocupações de um presidente americano, de que o continente tem tudo para deixar de ser o patinho feio do mundo.

Obama me emocionou com seu discurso dessa madrugada. Lembrou-nos de como um país deve ir muito além de uma coletividade de individuos. Deve ser uma unidade de pessoas que olham umas para as outras. Lembrou que temos histórias diferentes, mas um mesmo destino. Que enquanto respiramos, temos esperança.

E, principalmente, convocou os americanos e o mundo para um novo espirito de trabalho, baseado na responsabilidade, nas alianças, na esperança, na liberdade e na paz. Espero que o discurso ecoe em Angola, pois este país precisa como ninguém de todos esses valores.

Repito sua pergunta: Que mudanças veremos daqui a 100 anos?

E parafraseio também sua resposta: Cada um de nós é responsável por cada uma dessas mudanças, a cada dia, em cada ato.

Posso ser idealista, mas ainda acredito que a arma mais poderosa que temos é o BOM EXEMPLO. E é de exemplos como Obama que o mundo mais precisa neste momento.