Nina jamais se contentou com o salário da embaixada. Mas em lugar de ficar se lamentando, foi à luta para melhorar de vida. E veio parar aqui em casa. Bateu no portão oferecendo-se para trabalhar das 13h às 19h. Conseguiu dobrar seus rendimentos.
- Eu queria muito ter tempo para estudar, mas neste momento a prioridade é a educação dos meus filhos. Por isso arrumei este emprego, pra poder lhes pagar uma escola boa.
A mãe enche a cabeça dela para comprar uma casa. Acha que precisam se libertar do aluguel, que sobe a toda hora em Luanda. Chegou a ver um terreno no Benfica, mas Nina está insegura.
- É muito distante, vai ser difícil chegar na hora no trabalho. Depois, que escola boa meus filhos poderão freqüentar lá?
O pai das crianças não ajuda Nina com o sustento dos meninos. Ela sabe que tem direito a isso, mas não quer recorrer à Organização das Mulheres Angolanas, uma entidade partidária do MPLA que poderia ajudá-la a enquadrar o aldrabão. Nina é orgulhosa, prefere conquistar a pedir.
O irmão mais velho dela mora na Alemanha e já falou em levá-la para lá. Ela teria que deixar as crianças, porém, coisa que ela não aceita. Um tio, que já viveu na Europa, diz que a vida no velho continente está muito difícil. Melhor seria ir para o Canadá. Mas teria de levar as crianças, porque aí as pessoas teriam pena dela e lhe dariam emprego.
Eu explico que isso é tolice. Ela jamais conseguiria entrar legalmente no Canadá. Como imigrante ilegal, ficaria exposta a toda sorte de perigos, sem direito aos serviços de saúde e educação.
Nina não sabe o que fazer. Ela tenta enxergar um futuro, mas sente-se acuada. Nos últimos tempos nem dorme direito, preocupada com a responsabilidade que lhe pesa sobre os ombros. Sonha com tantas coisas boas para os filhos, mas tudo lhe parece inalcançável.
Numa novela, ela encontraria um princípe encantado e rico, que acabaria com todos os problemas dela. Mas como isto é vida real, a novela da nossa heroína angolana termina pesada, cheia de pontos de interrogação que lhe pesam no estômago.
Só posso lhe desejar sucesso e dizer uma coisa, Nina: seus filhos têm sorte de tê-la como mãe.
Carlos Botelho
Há 6 dias
