Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Mundo é pequeno ou Angola que é grande demais?

É incrível como Angola impregna na vida da gente. Parece que o ditado que diz que quem bebe da água do rio Bengo jamais vai embora de Angola é verdade. A gente pode não estar fisicamente, mas vai estar sempre presente de uma forma ou de outra.

Nos últimos meses estive mais tempo em SP do que em Angola, e estava na casa de uma amiga que mora na Austrália quando uma amiga da irmã dela, que mora nos EUA, veio puxar papo comigo, queria saber mais sobre Angola.

Ela me descreveu Angola perfeitamente e quando eu perguntei se ela conhecia Luanda, ela disse que não. Disse que conhece Angola pelos livros do Agualusa e que conheceu Pepetela nos EUA.

Mundo pequeno...

De volta a Angola, mesmos sons, mesmos cheiros e o caos de sempre. Bom estar de volta. O namorado me liga: Você conhece a Juliana Borges? Acabei de conhecê-la...

Mundo pequeno... rs

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Aos que pensam em viver em Angola

Tenho recebido muitos comentários de pessoas que cá chegam em busca de informações sobre Angola. Geralmente receberam proposta de emprego e estão nas dúvidas que assaltam a alma em momentos de grandes mudanças. Normal.

O que eu poderia dizer?

Aceite o desafio. Mas só o faça certo de que deixa no Brasil, em Portugal, onde quer que esteja, os medos que tantas dúvidas lhe trazem. Porque mudanças são difíceis, para qualquer lugar do mundo. Nenhum povo é igual a outro; misérias, riquezas, costumes, tudo é diferente.

Mude-se para Angola com o coração aberto para amar o sotaque, as comidas, a inocência escancarada do angolano comum; mude-se para Angola aberto a entender a frieza, a distância, os medos de uma gente que por séculos não teve em quem confiar; entender e aceitar que não se apaga tanta dor de tanta guerra tão facilmente.

Vá disposto a aprender muito, porque Angola tem mais a lhe ensinar do que os diplomas que carrega. Vá pronto a ser mudado, mais do que a mudar.

E enquanto lá estiver, liberte-se de Luanda. Deixe-se perder pelas províncias tão belas e tão puras. Viva Angola intensamente, cada segundo. Porque quando a hora chegar, antes do que você espera, poderá levar na bagagem, em lugar de engarafamentos, preços altos, faltas de água e luz, a alegria das Mumuílas diante da câmera, a lembrança do vento fresco da Serra da Leba no rosto, o deslumbre da luz nas tardes de Luanda.

E partirá, então, cheio de saudades, mas feliz por saber que ajudou a transformar, pelo menos, um Triste em Forte.


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Terá sido só um sonho?

As fotos se sucedem no portão de entrada desta Casa, assinadas por mim, como se quisessem provar que foi tudo verdade, que sim, durante um ano eu estive lá, a viver Luanda, a sofrer Angola como os melhores angolanos... Não há outra explicação para os 4 gigabytes de imagens e filmes guardados dentro de um ficheiro inequivocamente denominado "Angola 2008".

Por vezes me pego pensando, porém, e tudo o que vivi me parece tão distante, tão irreal. Como se tivesse sonhado esse ano inteiro, ou apenas me apropriado de histórias de outras pessoas que nunca chegaram a ser minhas num continente distante em que jamais pisei. Ainda não completei três meses no Brasil e África já me soa misteriosa, insondável; como se uma eternidade tivesse passado desde que saí de Angola.

Como relatou o X. aqui outro dia, também já me foge da escrita o sotaque angolano que tanto me custou conquistar (exceção honrosa ao "desculpa lá" e ao "telemóvel", que continuo a usar para espanto geral dos interlocutores brasileiros).

Luanda me abandona aos poucos e só me salva a pasta de fotos e filmes que traz no nome o ano, 2008, como se estivesse a me dizer que se hoje está só, aguarda ansiosa a companhia de outros ficheiros com o nome de Angola.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

As voltas de Luanda

E se de repente, perdemos o que nos trouxe a outro país? Podia seguir caminho, levando Luanda como um pedaço de mim. E se o destino é contrariado e deixamo-nos ficar? Ficamos a ver a vida acontecer, procurando um outro rumo. Seguimos com passadas menos seguras mas, seguimos. O encanto de percorrer a Luanda sozinha, ainda está por descobrir. A Luanda que me fez rir, tantas vezes rouba-me o sorriso. Mas essa Luanda vai dar-me um final feliz. E enquanto as palavras fogem de mim, grito pelo colo do meu país. Porque quero contrariar a ideia de quem me diz que, em Luanda sobrevive-se. Eu quero um dia escrever que em Luanda, vivo feliz.

*Para a Kianda que acha bonita a “história de amor” que se transformou num amor diferente, pela sua Luanda.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Hey!!!

O meu último post, pode ter passado a ideia de que andava triste ou deprimida com a "nossa" Luanda. Errado. Nada mais errado. Explicando: afinal, porque escrevemos em blogs? Inicialmente, por puro passatempo ou diversão. Ao fim de algum tempo, para além do prazer de contar as nossas histórias, consegue até encontrar-se ligações interessantes com alguns leitores que passam de desconhecidos, a amigos. Já me aconteceu. Ora, para mim, deixa de fazer sentido quando eu me irrito com os MEUS passatempos. Sou, regra geral, muito prática. Não gosto, não como. Quer dizer, eu até gosto e como de tudo. Sou a chamada "boa boca" no que se refere a comidinha. Só não "como" parvoíces. Faz-me uma certa azia, confesso. Não estou para viver o MEU passatempo, de pantufas, se é que me entendem. Por tudo isso, e porque a migas não está triste nem desanimada e, muito menos vai embora, deixo mais um texto, escrito à uns mesitos. Como desta vez, não vou criticar "pretinhos" mas sim, "branquinhos", peço a vossa licença. Sim, sim. A migas, anda impossível com o seu humor corrosivo de espanta espíritos maus...


Sabem aquelas conversas que começam: o irmão do meu amigo, blá blá blá... e se está mesmo a ver que se passou com a pessoa que nos conta? Pois bem, a irmã do meu amigo, ia a entrar em casa e as garotas vizinhas pararam à porta, ao lado dela, reparando em todos os gestos que fazia. De repente, uma diz:
Garota: moooçã...
Irmã do amigo: sim, diz.
Garota: moooçã, és bonita.
Irmã do amigo (sem jeito): ah, obrigada mas, tu é que és muito bonita.
Garota (para a coleguinha do lado): nunca tinha visto uma branca de rabo grande.

O que dizer à irmã do amigo? Que não sei se o “grande” é grande de bonito, jeitoso ou de GIGANTE. Ou então, que o “grande” da garota, pode não ser o “grande”, de “grande” à portuguesa mas sim, o “grande” ã angolana. Eh pá, não sei. Só sei que, as crianças não mentem.

*Voltarei, para chorar a despedida daqueles que um dia, acharam que eu podia ser uma boa companhia para partilhar esta CASA DE LUANDA. Prometo muita choraminguice, na festa de despedida! Oh, se prometo!!!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Medo de avião


A proximidade da data enche-me de sentimentos contraditórios. Felicidades de reencontros, tristezas de saudades antecipadas, já anunciadas em cabeça de cartaz.

E onde é mesmo esse lugar para o qual volto? Existirá ou será apenas criação de memórias desconexas de afetos e de aromas?

O que me espera lá? Quem me espera? O que esperar?

Serei ainda capaz de me reconhecer naquele pedaço de passado?

Não sabia muito bem quem era quando de lá parti; tampouco sei agora quem é que por lá vai chegar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Para um 2009 mais tranquilo

As palavras continuam a fazer parte de mim. Escrevo e guardo para um dia não esquecer tudo aquilo que eu quero recordar. Da Luanda que não pára. Da Luanda que acorda cedo e dorme tarde. Da Luanda que, a cada dia que passa me dá coisas boas e más. E é dessas coisas boas e más que vou escrevendo por aqui. Das viagens, das pessoas que, de certo modo me marcam, dos momentos de solidão, de saudade, das mudanças em mim. E quando escrevo das coisas más, que me revoltam, não significa que Luanda seja má ou que as pessoas sejam más. E eu compreendo que muitos não gostem de ler. Porque os meus olhos vêm coisas que outros olhos não vêm. Sobretudo aqueles que vivem fechados neste seu mundo, só deles, que querem só para eles e, que se recusam a partilhar com os novos que chegam ao seu país, à sua cidade. Que comem da sua comida, que se enamoram pelas suas mulheres, que ouvem a sua música, que vivem no seu país como se fosse um pouco deles também. Mas eis que, mesmo quando se fala do bom que Luanda tem, da música que se pode ouvir, das praias onde se pode ser feliz, as vozes revoltadas continuam a aparecer. Porque enquanto os ricos ouvem a música e nadam no mar quente, os pobres continuam a comer restos, os pobres continuam doentes, os pobres continuam sem futuro. E afinal, o que é suposto escrever sobre Luanda? Nada? Sim. Acho que nada. Porque de alguma forma, as palavras que se escrevem continuam a revoltar. A nossa realidade é sempre a realidade dos olhos de quem não é desta terra. E por isso, a vontade de escrever e partilhar, desaparece. Desaparece a cada dia que passa. A paciência, desaparece também. Porque Luanda não está preparada para admitir que não tem muita coisa. Porque Luanda não está preparada para admitir que tem muita coisa para dar. A todos. Não só aos ricos como muitos insistem em chamar-nos. Não vou justificar a minha vida, ou a vida de todos os que aqui escrevem. Não vou justificar porque somos infelizes e felizes nesta Luanda. Vou apenas justificar porque as minhas palavras fogem desta Casa. Porque nenhum de nós veio com a missão de mudar a realidade. Nenhum, isoladamente, tem a missão de mudar Luanda. Aos que gostam de nos ler, mesmo que não concordem sempre, obrigada. Aos que se riem connosco, obrigada. Aos que relebram um passado presente na memória retalhada, obrigada. A todos, os votos de um 2009 diferente. Melhor. Sempre melhor. Mesmo que o melhor seja pouco. Mesmo que o melhor seja quase nada, para mim ou para todos os de Luanda. Aos que são a pedra no sapato para quem escreve sobre a realidade que vive, um abraço e um queijo e até mais logo. Porque a sua existência mais lembra a de um velho, amargurado pela sua infeliz vida, que lhe foge, mas que nunca nada fez para a mudar. E vive assim. Infeliz. A maldizer a sua sorte e a dos que o rodeiam. Luanda precisa de pensamentos positivos. Não de velhos deprimidos e amargurados com o destino da sua Luanda. Não é um adeus ou um até já. Porque não sei se realmente vou voltar a querer escrever.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Papai Noel me deu uma casa

Como eu fui um menino bonzinho o ano todo, e como casa foi o que mais procurei nesta aventura angolana, a P. (de Pai Natal) me surpreendeu com essa casota com girassol, onde mora a felicidade – e também os dois filhotes dos nossos melhores projetos de futuro.

Obrigado, P.ai Natal.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sobre escolhas e felicidade

Então eu passei dois meses e meio com a mochila nas costas, pé na estrada, visitando dez províncias que me pareceram tão mais relaxantes, tão mais tranquilas, sem o trânsito e a fumaça e bagunça urbana da cidade de Luanda. E não me cansava de repetir mentalmente, 'ah eu seria mais feliz em Benguela', para depois, mais alguma semanas, mudar para 'ah eu seria mais feliz em Lubango', e então mudar de novo para,'ah, eu seria tão mais feliz em Huambo'.

Estava tão compenetrado em tanto chão de estrada que só no último fim de semana me dei conta de que, depois de tanto tempo morando em Luanda, jamais tinha sentado o meu traseiro num barquinho para cruzar a baía que separa o continente da tão festejada Ilha do Mussulo. Então vamos lá, pá, que não se pode ficar sem conhecer o Mussulo.

E vinte minutos de travessia depois, lá estava eu, mergulhado nas águas verdes, bem clarinhas do mar, debaixo de um belo sol, pensando, 'ah, eu seria tão mais feliz vivendo no Mussulo'.

Com tanto lugar para ser feliz nesse país, alguém pode me explicar, por favor, por que é que tanta gente continua insistindo em viver em Luanda?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Angola 2009

Como correram melhor do que o próprio MPLA esperava as legislativas de 2008, o presidente José Eduardo dos Santos parou de dizer que não mais seria candidato a reeleição nas presidenciais de 2009.

E então, coincidentemente, surgiram espalhados pela cidade centenas de cartazes como esse, com excertos de discursos do presidente. Quem achar que estou exagerando, pode fazer uma visita ao Aerograma, onde o companheiro Afonso Loureiro mostra melhor a decoração zéduardiana de Luanda.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Nove meses

Crianças brincam no bairro da Cuca, no Sambizanga

Esta casa completou ontem nove meses. Fui reler o primeiro post, ainda sem fotos, cheio de cuidados, um jeito de escrever que, de alguma forma, deixei perder-se pelas ruas de Luanda.

Os problemas que descrevia então continuam a existir. Alguns se agravaram, outros melhoraram. Depois daquela casa branca na ilha passamos por outras oito moradas, das quais apenas uma era realmente só nossa. Isso tudo agora é passado, não mais nos afeta.

O maior preço pago pela opção de morar em Luanda foi mesmo pessoal e afetivo. Nunca voltei ao Brasil, desde que de lá parti, em março, e nesses nove meses três tios meus morreram sem que eu estivesse lá para secar as lágrimas dos meus pais.
Meu pai enfrentou a volta de um câncer e eu não estava lá para lhe dar força durante a radioterapia.

Minha afilhada perdeu os primeiros dentes, leu as primeiras palavras e eu não estava lá para escutá-la. Meus sobrinhos mais novos já falam corretamente, mas talvez não saibam dizer o nome do tio que partiu quando ainda eram jovens demais para recordações.

O Natal chegou e eu não estarei lá, a volta da grande mesa com todos os aromas e sabores que sabem a lembranças.

Tento fazer um balanço, descobrir se fiz alguma diferença em Angola. Talvez eu tenha melhorado um pouco, apenas um pouco, a vida de uma ou duas pessoas que cá conheci. Mas no geral, minha passagem por aqui tem modificado muito pouco. Eu não tenho esse poder, de transformar o que não quer ser transformado.
As crianças que tanto se divertiram ao se verem na pequena tela de LCD das minhas câmeras provavelmente já se terão esquecido daquele branco que lhes apontava as lentes. Eu, porém, jamais me esquecerei delas. Porque eu não fui capaz de mudar Angola, mas Angola sim, operou transformações em mim.