sexta-feira, 12 de junho de 2009

Guia de Leitura Muito Particular Sobre Angola

Por esses dias, talvez motivado por uma reportagem imensa que escrevi, eu recebi uma série de e-mails de uns amigos que me perguntam que livros fazem parte da minha estante emotiva sobre esse país chamado Angola. Sei que tem muita coisa bacana que foi escrita sobre a terra da Palanca Negra, mas esses livros resenhados abaixo, realmente, não dá para deixar de ler antes de embarcar ou de comprar entre uma viagem e outra.

Os Cus dos Judas, de António Lobo Antunes – O autor, cujo pai era brasileiro, prepara-se para voltar ao país depois de quase 30 anos e participar da Flip, de 3 a 5 de julho, disse ao Estadão que sente saudades das cocadas do Pará e, dizem as más línguas portuguesas que eu conheci em Luanda, mor-re de inveja do Nobel que Saramago ganhou. Em Os Cus..., ele teceu uma narrativa que é uma verdadeira torrente de sensações vividas durante a guerra de libertação, ali por volta de 1975. Não simpatizo com o título, pois acho que Angola pode ser tudo, menos um cu, muito menos de Judas, aquele que vocês sabem o que fez... Mas leiam, amigos, é uma descida aos infernos. Li antes de embarcar para Angola e agora, do lado de cá, vou reler para ver se confere.

Predadores, de Pepetela – Para entender como uma pessoa semi-alfabetizada, que herdou uma vendinha de um branco que fugiu para a Tuga em 1975 e nunca mais voltou, pôde subir nos quadros políticos do MPLA , virou uma pessoa rica, influente e, como diz o título, manteve-se sempre no poder, independente das mudanças causadas pela longa guerra. Inesquecível a passagem que mostra a tentativa de desviar um rio e fazer uma represa no Huambo. Pepetela é um gênio que diz que aprendeu tudo com Jorge Amado. Só li quando voltei para cá e fiquei assustado. Tudo confere.

Ébano, minha vida na África, de Ryszard Kapuscinski – Obrigatório antes de embarcar para a África, independente do país que se vá visitar. O polonês descreve como ninguém um ataque de malária, a ponto da gente sentir as mesmas dores. O olhar único sobre os mais de 10 mil reinos que haviam no continente da década de 20 para a de 70 não pode ser mais perfeito. Compre também A Guerra do Futebol, com mais crônicas, e O Imperador, uma delícia de perfil de Hailé Salassiê, ditador que governou a Etiópia por mais de 40 anos e era tão excêntrico que tinha até um empregado só para colocar almofadas embaixo dos seus pés quando sentava-se no trono, uma vez que era muito baixinho e não podia aparecer com as pernas balançando. Um dia inventou de visitar o Brasil e quase perdeu o cetro e a coroa. Não lembro agora do título (só disponível em inglês) do livro específico de Ryszard sobre Angola. Vou reler mil vezes toda a obra e, um dia, quem sabe escrever com um décimo do talento dele.

A Manilha e Libambo, de Alberto da Costa e Silva – Para quem consegue carregar esse tijolão de quase um quilo, uma verdadeira aula sobre África, dada por um dos maiores africanistas no Brasil. Complemente com A Enxada e a Lança. Não consegui acabar de ler todo e dei de presente ao amigo João, o Candongueiro das estrelas. Não dá para dizer que entende de África sem ter lido esse livro.

Made In África, de Luis da Câmara Cascudo – O folclorista-mór do Brasil, orgulho da minha terra potiguar, foi pra Angola nos anos 60 e fez uma pesquisa fabulosa sobre a influência da comida angolana na mesa do brasileiro. Uma torrente de emoções, acompanhada de muitas sugestões de pratos (ai que saudades da moamba de galinha, que do lado de cá chama-se galinha cabidela). Leia, mas se puder não se apaixone nunca pela comida marvilhosa de Angola, sob o risco de engordar 20 quilos em seis meses, como ocorreu a este datilógrafo, ao F. e ao C. do Diário de África.

E você, qual o livro sobre Angola que não pode faltar na estante?

Update: Colaboração dos muy generosos leitores:

"Geração da Utopia", "Predadores", “Yaka”, “O Planalto e a Estepe”, “Mayombe”, “A Gloriosa Família”, “Parábola do Cágado Velho”, todos do Pepetela.

“ Crónica de um Mujimbo”, de Manuel Rui

“Roteiro da Literatura Angolana” de Carlos Ervedosa

“As Mulheres do Meu Pai”, de Agualusa

"Eugénio Ferreira - um Cabouqueiro da Angolanidade", de Eugénio Monteiro Ferreira e Carlos Ferreira




13 comentários:

Cláudia disse...

"Geração da Utopia" e "Predadores", ambos de Pepetela, ambos retratos perfeitos!

Abraço*

m.Jo. disse...

Parábola do Cágado Velho, também do
Pepetela.

Menina de Angola disse...

Não tem como falar de Angola sem falar de Pepetela. Eu estava lendo um muito bom, que infelizmente esqueci no Brasil a última vez que estive lá. Mas é aquele livro que fala da invasão holandeza em Angola.

bj

cotamaria disse...

Não pude deixar hoje escrever esta mensagem, apesar de já visitar este blog de vez em quando. Agradeço, desde já, a partilha de todos os vossos olhares e leituras sobre uma Luanda dos dias de hoje que ajuda a repensar e melhorar outros olhares meus.
Não sou capaz de indicar uma única obra angolana e/ou autor neste post; não obstante sentir que devo palavras a esta Casa, porque as merecem.
Deste modo, este comentário mais não é do que um simples registo do que me fizeram pensar e sentir, neste momento.
Sou dos que tiveram o privilégio de conhecer esta literatura em diferentes épocas de uma Angola em construção.
Autores, obras, factos, realidades vividas e ficcionadas, contos, crónicas, sempre me seduziram, em diferentes momentos da vida. Gosto muito de palavras. Das faladas às escritas, das cantadas às escutadas e até das que se guardam nos silêncios. E gosto, particularmente, de que me "ponham uma estória", uma boa história, daquelas que fazem parte de histórias de vida de muitos bem como da História de um país-Nação.
Todavia, hoje fiquei a pensar no comentário feito ao título de uma obra de António Lobo Antunes - Os cus de Judas. Vale a pena ler, sim.
Como interpreto este titulo de uma forma tão distinta da comentada por aqui, sorri quando li este post.
As nossas imaginações e mundos interiores levam-nos, creio eu, a diferentes interpretações. Para mim, o título está adequado à obra. Talvez porque sempre me fez pensar numa guerra traiçoeira (no sentido pleno e mais abrangente da palavra) num país e local tão distante para soldados, que eram obrigados a deixar locais onde viviam quatro estações.
Esta é a minha simples leitura de palavras, por favor, entenda assim.
Penso que todas as outras leituras são possíveis e passíveis de acontecer. Justificáveis até pelo exercício pleno dos direitos de cada leitor - o direito a viajar pelas asas da sua imaginação e universo(s) particular(es), mundos só seus, realidades construídas, apreendidas, vividas, sonhadas e/ou até idealizadas, quem sabe.
Hoje este post desta Casa fez-me reconhecer que não sou capaz de apontar uma única obra, para colocar numa "estante emotiva" sobre Angola.
Tenho tantos amores nesse campo...
Entre obras lidas, estudadas, entre o prazer desfrutado de tantas maneiras a partir de tantos autores, descobri que cada livro teve e tem um significado que me transporta sempre a um tempo algures dentro de mim.
Pepetela é, sem dúvida, uma referencia. Sempre. Yaka, Mayombe, Geração da Utopia, a Planalto e a estepe (último lido) e tantos outros todos se conjugam como retratos únicos no meu universo.
E depois penso em Manuel Rui - na Crónica de um Mujimbo e Quem me dera ser onda - e penso noutros tantos autores que me encantaram e seduziram com as suas produções literárias, ao longo dos tempos.
Divagando neste mar de pensamentos que o seu post fez emergir em mim, não pude deixar de reconhecer como gosto até simplesmente do Roteiro da Literatura Angolana. O de Carlos Ervedosa, que guardo com muito carinho.
E porque gosto de ver como nos dias de hoje se escreve também com o intuito de abrir caminhos para quem deseja conhecer melhor o país, saio deixando apenas um obrigado a todos os que fazem registos nesta Casa de Luanda.

X disse...

Cotamaria,
Lindíssimo, profundo e telúrico o seu comentário. Merece virar um post na Casa.
x

Anônimo disse...

Cotamaria só tem razão: Não viu nenhum autor angolano a falar de angola. (no blog)

Ainda há muito poucos angolanos a escrever.

Mas não é por não saberem escrever.

cotamaria disse...

Obrigado a todos.
Pelos comentários deixados a um simples post.
Digo-o, porque sinto.
Sinto, logo vivo.
Assim é com tudo na vida.

Kandandos,
cotamaria

F. disse...

Na qualidade de fundador desta casa, aproveito para perguntar se a cotamaria não gostaria de sentir, logo viver, em palavras, como autora nesta Casa.
Essa é a história da Casa de Luanda, que nasceu com as minhas ideias e prosperou com as dos leitores mais assíduos que foram convidados e aceitaram transfromá-la em morada de suas palavras.
Se aceitar, cotamaria, teremos o maior prazer em recebê-la como autora. Entre em contato pelo e-mail casa_de_luanda@yahoo.com para que eu possa lhe enviar o convite e as instruções.

A propósito, indico "A Gloriosa Família" e "Mayombe", de Pepetela, e "As mulheres do Meu Pai", do controvertido Agualusa.

F. disse...

corrigindo, cotamaria. O endereço de e-mail é casa_de_luanda@yahoo.com.br

Anônimo disse...

ora bem, livros na estante sobre Angola.
O último que li foi "Eugénio Ferreira - um cabouqueiro da Angolanidade". trabalho elaborado pelos filhos Eugénio Monteiro Ferreira e Carlos Ferreira. Merece estar na estante...

Kandandus
Fátima

pierrebarth disse...

Grandes dicas. Já estou correndo atrás dos livros. Alguns difíceis de achar no Brasil. O do Costa e Silva, a Enxada e a Lança, já havia comprado coincidentemente há justos dois dias. O Pepetela já havia sido recomendado...obrigado pelas indicações.
PB

Rubra Rosa disse...

Bom, verdade que os autores aqui referenciados são sem sombras de dúvidas os angolanos mais referenciados. Mas quem gosta mesmo de conhecer o outro lado de Angola, diria até "Angola Profunda", leia por favor "MANANA" de Wanhenga Xitu. A obra é antiga, e não sei se foi reeditada recentemente. Mas recomendo qualquer livro do Kota Wanhenga Xitu.
Quanto ao livro do Ryszard kapuscinski que fala de Angola, o título é "Another day of life", não sei como ficou o mesmo traduzido para português.
Achei muito estranho o vosso silêncio em relação a "barra imposta" a "turistas" angolanos em São paulo!!!!

cotamaria disse...

Adicionando ao post de outro dia.
Na minha estante emotiva colocaria também Nga Muturi, de Alfredo Troni.

Um retrato de uma sociedade do século XIX. Uma obra para quem gosta ou gostaria de conhecer a génese da literatura angolana.

cotamaria