domingo, 30 de maio de 2010

As palavras proibidas

Já todos sabemos que em Angola (e não só) há palavras proibidas. Quando vim para cá, ainda me lembro de ouvir alguém que viveu muitos anos em Moçambique: ah, não digas preto, é negro... ou escuro. Pfff, para mim, pura hipocrisia e, o termo escuro roça até o cómico mas, adiante. Eu sei que este post pode chocar muita gente e talvez, também só o publique agora que, me parece que a Casa tem menos audiência porque, em tempos, jamais me atreveria escrever algo com este tema. Ia sair polémica na certa. E porquê escrever? Logo agora que acabei de fazer umas pipoquinhas e estava a jiboiar pelo sofá, a fazer um update pelos blogs? Porque sim. E porque acabei de ler um comentário a um post, num blog duma garota - portuguesa - que cá está, a dizer que há certos termos que xiuuuu, não podem ser ditos assim. E eu, não concordo porque acho que a intenção e a maldade é que torna esses termos "proibidos". Em tempos, ao caminhar na rua e com um "cidadão angolano de raça negra" no meio do caminho, na conversa com uma zungueira, esta diz-lhe: deixa passar a pessoa. Ele vira-se e diz: esta? Esta não é pessoa. Ora, isto foi uma forma de racimo, de preconceito, do que lhe queiramos chamar. Óbvio que não gostei e nem respondi. Dei corda às sapatilhas e fui à minha vidinha que dali, não podia resultar boa coisa. É normal que, sendo os brancos, a minoria por cá, também sintamos na pele o facto de sermos diferentes. Tudo isto para dizer que, na minha opinião, preto ou negro é a mesma coisa. Se eu uso a palavra preto? Não. Porque sei que há almas deveras sensíveis e que acham que dizer preto é completamente diferente de dizer negro. E eu pronto, aceito mas não percebo. Porque para mim, tudo depende da intenção, da entoação que se dá à palavra (que por muitas cambalhotas que dê, num blog é difícil de explicar), do grupo com quem se conversa... enfim, uma infinidade de variáveis. Também já arrisquei a perguntar a uns colegas negros que trabalhavam comigo porque não gostavam que se usasse o termo preto. Disseram que não gostavam. Preto não. E, a justificação era tão boa que eu, já nem me lembro. E, eu respeito apesar de acreditar que a carga negativa nesta ou noutras palavras, depende de quem as usa. E pronto, aqui fica a minha opinião. Os angolanos (que segundo as minhas estatísticas serão 2 dos nossos 3 leitores) que nos lêem que opinem que a malta está cá para aprender e, quem sabe, não me fazem mudar de ideias sobre esta temática.
* Confesso que até tenho medo de clicar no Publish Post

13 comentários:

camaleoa disse...

Pois...
Parece que a garota portuguesa sou eu... é isso?? hehehe...

Concordo contigo quando dizes que as palavras têm o sentido que nós lhe queremos dar.

Tenho muitos amigos que não são caucasianos. E a palavra que utilizei, como já disse, foi uma forma de identificar a raça..

Somos todos iguais mas com raças diferentes..

E as pessoas só levam a levam se quiserem.. Mas, existe muita gente que ainda faz essas distinções e que utiliza esses termos com má fé.. é um facto.

Mas, cada um é como cada qual..

Obrigada.. e espero dar-me bem por cá. Até ver dou..

:)))

Migas disse...

Olá camaleoa, o facto de ter deixado o comentário no teu blog foi para que soubesses que o post foi inspirado no que li no teu blog. Mas pronto, já que agora cá vieste, vais sofrer as consequências porque agora, todos vão querer ler o post. :o) Não sei se será bom ou mau mas, logo se verá. De qualquer das formas, acho que se escrevi a pensar nesse teu post, o certo é ter-te informado e não deixar só aqui a minha visão sobre o assunto. :o)

Abraço e fica bem.

F. disse...

Pois, Migas, aqui no Brasil há destas pequenas filigranas também... Na Bahia se diz preto com o maior carinho, no Rio já não pega tão bem. E o Movimento Negro brasileiro odeia preto, a palavra, quero dizer. Certa feita trabalhei numa publicação para professores e recebíamos cartas raivosas dos militantes do Movimento Negro que nos chamavam de racistas por escrevermos 'quadro-negro' para denominar a lousa, ou o quadro onde escreve o professor. Achavam que havia conotação racista, embora eu tentasse explicar que o tal quadro tinha esse nome por, no passado, ter sido da cor negra. Queriam de todas as formas convencer-me a trocar o nome para 'quadro-verde', já que hoje é verde. Enfim, dessas pataquadas...

F. disse...

a propósito dos nossos 3 leitores, não te enganes muito. Este mês de maio já é o de maior audiência desde novembro do ano passado, com 4 mil visitas - 4 mil visitas até hoje.
bjo

Anônimo disse...

Atualmente, em inglês, pode-se dizer que alguém é "black" (preto). Black is beautiful. "Negro" pode soar ofensivo a alguns ouvidos. Dizem que já foi ao contrário.
Vai entender.

X disse...

Xé, tás a ficar louca, ô Migas? Que três leitores, quê? Esses portugueses nem contas sÁabem fazer!!! 4 mil leitores, sabes lá o que é isso o sítio do jornal O Público, por exemplo? ahahaha.

Olha, tremenda bobagem essa discurssão: eu, que sou branco feito um fantasma ou alma do outro mundo, adoro ser chamado de "negro preto", isso mesmo, "nego preto" pela minha mãe, desde pequeno, e mais ainda depois da estada "em" Africa.

"Nego preto, venha cá!", "Nego preto, seu café já está pronto, bem como o doce de leite" - e eu, lá la rede do alpendre, a me balançar empurrando a parede com o pé, esperando a minha linda mucama, de alcunha Dona Branca, vir me servir guloseimas enquanta espanta o calor com abanadores...

Menina de Angola disse...

kkkk Esse negócio de movimentos negros no Brasil é muito engraçado. Lembro uma vez de ter vsto na TV que um desses movimentos estava processando uma loja que tinha duas bonecas o mesmo modelo uma branca e outra negra. A negra estava com 50% de desconto. A tal associação achou o desconto ofensivo e alegou racismo. Como poderiam vender uma boneca mais cara que a outra???


O gerente alegou que o estoque da boneca negra não girava e por isso fez a promoção.

Agora até a lei da oferta e da procura está sujeita a racismo????

papu disse...

Não há que ter medo de falar nem de dizer o que se pensa, apenas porque pode haver quem não pense da mesma maneira que nós.

Que seria do mundo se todos tivessem a mesma opinião?

E a polémica não tem de ser uma coisa negativa, pois não?

Estou contigo. Palavras são apenas palavras, nomes que a gente dá às coisas. É o modo como são ditas que pode ou não agredir.

Mas há gente muito sensível, sim. E é uma questão sensível.

beijos para todos da casa, gosto de a ver animada de novo :)

Anônimo disse...

olha Miguitas, eu cá ao menos é como calha...
No tempo colonial era uma mestiçazinha. Depois da independência passei a mulata. Isto cá em Angola, claro.
Em Portugal continuo a ser mestiça. Em Paris, sou métisse, no Brasil, sou morena.
Epá! Ah! E no meu B.I. com a indicação da raça, sou mista.
(Ainda não tive tempo de tratar do novo - sem a raça)eheheheheh

Concordo contigo e c/ a Papu

É o modo como as palavras são ditas, que magoa...ou encanta!

Beijinhos
Solimar

Migas disse...

Bem, nunca imaginei que no Brasil também fossem tão radicais! A situação do quadro e da boneca são hilariantes de tão parvas. Tudo o que é levado ao extremo, dá nisso.

Ai papu, polémicas como as que já tivemos por cá, dispenso. As polémicas em blogs que falam de África, escritos por estrangeiros, têm quase sempre um objectivo: apelar à xenofobia e ao racismo. Qualquer comentário mais negativo que tivessemos, era logo motivo para sermos insultados, ameaçados... Ainda me lembro de um anónimo que se ia rir do que íamos sofrer, por altura das eleições...:o)

Solimar, essa do mista também é engraçada... É como as tostas! :o)Vá lá que decidiram abolir isso nos novos BI! Sabe uma coisa engraçada? Eu que sou loira, já fui chamada por várias vezes de mestiça ou mulata! Talvez porque haja muitos mestiços/mulatos aqui em Angola que também têm o cabelo claro e, obviamente, também são claros. Mas enfim, penso que toda a gente percebeu a intenção do post e, como eu acho que o facto de se chamar pretinho ou negrinho ou branquinho tem, para mim, o mesmo significado. Mas, como disse, se o visado não gosta que se use certo termo, óbvio que também não uso.

Para concluir, gostaria ainda de dizer que X., és um grande mimalho! :o)

Trêza disse...

Costumo ser uma leitora silenciosa, mas hoje vinha cá (já que costumo ler no leitor de feeds) para dizer que se são apenas três e dois são angolanos, então eu seria o terceiro. E claro está, encontrei a casa cheia e atribuí os "3 leitores" à modéstia da autora :-)

Aproveito para parabenizar a Migas, por ter voltado a escrever, que deste lado sabe bem lê-la. Pela honestidade. Pela naturalidade.

Ah, e sou branca por fora, de todas as cores por dentro, tenho amigos brancos por fora e pretos por dentro (e vice-versa!) e nas conversas há brancos e pretos e mestiços e às riscas e ninguém se importa.

Evitar usar termos que alguns não aceitam, também é uma forma de ceder a uma pressão de ser feita a sua vontade...

Doroteia disse...

Oi, é a minha primeira vez a fazer um comentário.
Eu dirijo-me às pessoas tratando-as por Sr. X ou Sra. Y, pelo seu nome, claro. E os amigos são sempre da cor do amor. Mungueno

Bibbas disse...

É triste c em pleno sec 21 ainda a raca é polemica e continuará a ser!!! A preto nāo é politicamento correcto somente pela sua carga negativa e discriminatoria.. Como voce disse depende do tom e do contexto... O meu marido é mulato americano... Mas ai de mim q diga q ele nāo é negro!!! Mulato p ele é ofensa... E p mim preto é carvāo!:) Os meus filhos em Angola sao reconhecidos por mulatos, na eua por negros, ecem casa por gente! By the way, este blog é uma delicia, vou comecar a visitar mais!:)