sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O dilema de Nina

Nina é a moça que trabalha lá em casa. Tem 28 anos, um filho de 10 e outro de 8. Separada do pai das crianças, mora com a mãe no São Paulo. É Testemunha de Jeová, muito tímida e quietinha. Quando nos conheceu, ficou admirada por pedirmos para que não nos tratasse por senhor e senhora. Nina estranhou: "Vocês me tratam como igual a vocês!"

Ontem Nina pediu para sair mais cedo. Precisava ir à escola do filho. A professora anda a faltar muito, aparece só três vezes por semana. A escola é da Igreja Católica, de graça, e a professora ameaçou os alunos: vai reprovar aquele cuja mãe reclamar aos padres. Nina achou um absurdo e foi lá ter com a megera. Hoje, voltou com a seguinte história.

- A professora quer gasosa.
- Como assim, quer gasosa? - perguntei.
- Aqui é assim. No hospital do governo, que é de graça, se tu não dás uma gasosa, ninguém te atende. É assim em tudo. Se as mães derem gasosa, ela vai todos os dias.
- Você falou com os padres?
- O padre está viajando, muito difícil.
- Mas ela pediu a gasosa assim, na cara-de-pau?
- Não, ela disse "os alunos não conseguem aprender, dão muito trabalho, tás a ver? As mães também não colaboram, não fazem assim nenhum agrado à professora, a mãe do William mesmo, por exemplo, nem pensa assim em dar um cartão de saldo* à professora."

Nina está contrariada, mas no seu jeito tímido, não explode. Ela Não sabe como resolver a questão. Você, o que faria no lugar da Nina?

* Cartão de Saldo: é a recarga de créditos no telemóvel. Virou uma versão moderna da gasosa. Muitos conhecidos já relataram ter pago policiais com cartão de saldo por não terem kwanzas para a gasosa.

10 comentários:

kianda disse...

Pois F. não sei o que dizer ... sinto uma revolta tão grande que dói o peito.
Quando estava em Lda um "afilhado" meu a quem dava alguma coisa todos os dias na rua, um miúdo, mais pequeno do que a idade que de certeza tinha, foi atropelado e pediu-me 500Kwz para pagar a tala que no hospital público lhe iam por ... eu dei contra a promessa dele me aparecer no dia seguinte com a tala para eu ver ... e ele apareceu !!!
Eu diria à Nina para não pagar, mas depois, talvez, o filho dela não passe de ano ...

Menina de Angola disse...

Que situação....

As mães dessas crianças têm de se unir e juntas falarem com os responsávis da escola... Como podemos esperar que a situação desse país mude se as crianças têm uma educação dessas?

triste... muito triste...

Migas disse...

Pois eu também já soube desses casos. O M. tinha umas moças a trabalhar na empresa dele que estudavam à noite e contavam que tinham de dar gasosa ao professor, só para ele corrigir o teste. Não dá gasosa, ele nem sequer se dá ao trabalho de corrigir. E mesmo com a gasosa, não era garantido que passasse. Um dia um colega contou-me que nas faculdades já existem linhas de telefone, onde podes contar que professor Y recebe gasosa para corrigir. E tudo isto, anonimamente. Não sei se será em todas as escolas ou não. O que é certo é que eu também não saberia o que fazer. Enfim... é preciso mesmo eliminar esses podres da educação e saúde. :o(

fenando baião disse...

É, tá complicado mesmo. Mas isto é um prubléma antigo, faz parte dos hábitos adquiridos, infelizmente. Mudar,só com a ajuda de quem? Diz a mãe de uma amiga minha, "é o Diabo, está em Angola e não sai" Não sei quem é o Diabo, mas se for quem eu penso, não vai mesmo sair

Anônimo disse...

... dizem que o tal "diabo" são as pragas que os colonos atiraram na sua fúria quando foram obrigados a abandonar a terra que amavam como sua... os seus pertences, as suas casas... revoltados com o facto que os seus despojos iriam para as mãos de poucos uma "elite".

É triste, é revoltante, mas não chga ser um país grandioso... é necessario que a mentalidade da generalidade do povo angolano saia da sarjeta... a começar por cima pela "elite"... "tás a ver, né?" "ya!" "estamos juntos"

Estamos?

Anônimo disse...

A ingenuidade da " menina de Angola" ,as vezes, me deixa um pouco assustada. As mães se unirem? A maioria dessas mães também pedem gasosa, algum de seus filhos também pedem gasosa, os pais, os tios, os primos e se duvidar até seua bichos de estimação!

Por aqui as coisas são mesmo assim, também fico muito revoltada as vezes e já vi muita coisa aqui em 2 anos.Mas não adianta, eu só vou me estressar, perder meus cabelos, ficar com pena e perder o meu sono. "aqui é mesmo assim chefe, noís somos anguláááááááános!"

Bibbas disse...

Mesmo sendo contra o valor de alguns, o melhor é dar a gasosa como diz o anonimo. A Nina não pode ser ingenua, pois quem vai perder é a filha...Esta é a triste realidade!!!! A Nina que dê a gasosa...Era o que eu faria se fosse meu filho...Mesmo que depois de raiva e frustação arrancasse os meus cabelos...

Anônimo disse...

Iria embora desta merda de país. Simples assim.

F. disse...

Caro anônimo, pela sua manifestação devo concluir que você não conhece o país. Portanto, não deveria se dar a liberdade de ofender algo que desconhece. Problemas existem em qualquer lugar, alguns maiores, outros menores. E Angola tem também muita gente boa, como a própria Nina, uma profissional dedicada que só quer criar os filhos com dignidade, respeitando sempre os demais.

Anônimo disse...

Como direi? Angola virou a visão do inferno. Tanta gente morreu para viver num país independente e sério, e deu no que deu. Angola regrediu 100 anos. Se não foi mais?!?!?!