quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O dia em que Maysa cantou em Angola

Uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos chamou-se Maysa. Ela cantou, como ninguém, com sua voz única, a tristeza, os amores mal resolvidos, a "fossa", sentimento do qual ganhou o título de musa. Era uma fadista da época do bolero e nascimento da Bossa Nova. Nada pode ser mais triste - e mais bonito - nesse mundo do que ouvir Maysa cantar Ne me quitte pas, canção que, depois que ela executou no Olympia, em Paris, ninguém nunca mais lembrou que um dia tivesse sido cantada por Jacques Brel.

Pois bem, por esses dias, assisti à minissérie que a TV Globo levou ao ar sobre a cantora "na altura" em que arrumava as malas para deixar Luanda, em janeiro desse ano. Um ano antes, tinha lido a biogafia Maysa, Só Numa Multidão de Amores (Ed. Globo), escrita pelo querido amigo, jornalista cearense Lyra Neto.

Pois não é que Maysa apresentou-se em várias cidades de Angola, em fevereiro de 1969? Eu tinha esquecido esse detalhe, até que a minissérie me reavivou a memória e fiquei imaginando: como terá sido isso?

Contactei o autor do livro e ele me autorizou a publicar o trecho que conta a passagem de Maysa por Luanda e pelo Lobito. Meu Deus!, quão revelador é o trecho, sobre vários aspectos: como a elite angolana se divertia, como os brasileiros nunca sabem mesmo nada de Angola e como a imprensa daquela época noticiou o fato.

Leiam com carinho o trecho abaixo. Para além do estilo delicioso do autor, trata-se de um panorama monumental da Angola de 1969, cinco anos antes de tudo mudar, para sempre. E, como cantava Maysa, talvez sem saber, para os "retornados", "O Meu Mundo Caiu..."

No final daquele ano, ainda em Lisboa, Maysa foi convidada para uma experiência inédita em sua carreira: cantar na África acompanhada do Thilo’s Combo, o grupo musical lusitano que estava fazendo uma revolução musical na terra do fado, agregando elementos do jazz e da Bossa Nova às sonoridades locais. O cachê não era lá grande coisa, mas ela não estava em condições de exigir seu peso em ouro. Durante um mês, de meados de janeiro até a segunda quinzena de fevereiro de 1969, enfrentaria uma maratona de shows em boates, teatros e clubes de Angola. “Em breve, teremos a magnífica cançonetista que o Brasil perdeu”, festejou o jornal angolano O Comércio.

Ao descer do avião da tap em Luanda e ser indagada sobre o que esperava do público africano, foi bem sincera: “Não tenho a mínima idéia. Não conheço a África nem sei muito sobre o seu povo”. A respeito disso, Maysa calculou que ela e os africanos estariam mais ou menos empatados. Eles também não deveriam saber nada sobre aquela cantora brasileira que colocava os pés pela primeira vez no continente. A desconfiança cresceu quando, ainda no aeroporto, precisou explicar a um jornalista do Diário de Luanda que os estilos da Bossa Nova e do iê-iê-iê, dos quais ele ouvira falar vagamente, não tinham nada a ver um com o outro.

Mas o repórter é que estava mal informado. Por força da influência econômica e cultural da metrópole sobre a colônia – Angola só conquistaria a independência de Portugal seis anos depois, em 1975 – os luandenses sabiam, sim, quem era Maysa. Tanto que, duas semanas antes da chegada, ela era capa da revista Notícia, principal publicação do país e que vivia sob a mira da rígida censura angolana. “Maysa vem a Luanda”, dizia a chamada. Lá dentro, uma entrevista feita pela jornalista Edite Soeiro, a primeira mulher a exercer a profissão no país, constantemente convocada para prestar esclarecimentos aos censores, por causa dos textos que escrevia e das calças compridas que teimava em usar.

Edite entrevistou a cantora em Lisboa, quando a turnê em Angola foi confirmada. Sem dúvida, as duas se entenderam bem, pois a conversa rendeu oito páginas da revista. Incentivada pela jornalista, Maysa soltou o verbo: “Canto para botar pra fora o que tenho dentro de mim. Explico: ‘Botar pra fora’ é uma expressão feia, mas que se usa muito lá no Brasil. Tudo bem, posso substituí-la por outra, mais fácil de entender por aqui: vomitar. Canto para vomitar todas as coisas que estão em mim, que me saem pelos olhos, pelos dedos, pela boca”.

Se soubesse da repercussão que teria a turnê no país, em vez de providenciar uma mala extra para guardar recortes de jornal, Maysa teria levado a Angola um contêiner. Depois de cantar com casa cheia no Cine Avis, de Luanda, viajou 740 quilômetros ao sul, por terra, até chegar em Lobito, onde se apresentou em outro cinema apinhado de gente, o Flamingo. O sucesso foi tão grande que os luandenses mandaram-na chamar de volta, agora para atuar em um cine ao ar livre, na periferia da cidade. O N’Gola, que cobrava preços populares, transbordou de gente que queria ver Maysa. “A seu jeito, o público do N’Gola é exigente. Assobia, pateia e grita quando não gosta do que está vendo”, advertiu o jornal O Comércio. “Esperamos que o subúrbio compareça em força neste encontro que o porá frente a frente com um dos expoentes máximos da canção brasileira”.

Maysa gelou. Temeu que se repetissem ali as cenas do Maracanãzinho e se preparou para o pior. Mas foi aplaudida calorosamente. “A assistência entusiasmada obrigou-a a ficar um pouco mais e a aplaudiu de pé, fato inédito naquela casa de espetáculo suburbana”, registrou a revista Noite e Dia, de Luanda. Maysa ficou sensibilizada ao ver que, ao contrário do que ocorria com o público dos festivais no Brasil e das boates de luxo de Copacabana, os freqüentadores do cine N’Gola, mais habituados a assistir a comédias pastelões e filmes baratos de capa-e-espada, faziam um respeitoso silêncio enquanto ela cantava. “Se é verdade que a cidade gostou de Maysa, a cançonetista parece ter-se deixado enamorar pela cidade”, disse o Diário de Luanda na edição de 12 de janeiro de 1969, dia da sua última apresentação no país. “O adeus desta noite poderá significar apenas um até breve. Oxalá assim aconteça”, desejou o jornal.

Contudo, Maysa nunca mais voltaria à África. Não só isso. Até mesmo seus dias de Europa estavam contados. Ela só retornaria a Madri rapidamente, para cobrir os móveis de casa com lençóis brancos. Por obra do acaso, um encontro que tivera em Lisboa, antes da viagem a Angola, seria responsável por mais uma reviravolta em sua vida.


Lyra Neto, in Maysa, Só Numa Multidão de Amores, Ed. Globo, São Paulo, 2007


4 comentários:

septuagenário disse...

Vários artistas brasileiros foram visitas de Angola:

Ivon Curi, Nelson Ned, Cauby Peixoto, mas muitos mais, nos anos 60´s;

Equipas de futebol como O America do Rio de Janeiro, um tal desportivo de Araraquara, este em 1959.

O Brasil era visto deste lado do atlântico com muita curiosidade e atenção.

Uma das leituras inevitáveis em Luanda, por muita gente, era a revista o Cruzeiro, onde pontificavam noticias sobre a construção de Brasília, a construção da transamazónia a construção da pomnte de Niteroi, revista em que era muito lido o jornalista David Nasser.

Falava-se naqueles tempos que Angola ainda ia dar um outro Brasil.

Claro que os brasileiros desse tempo viviam "para lá do oceano".

kianda disse...

Eu, que só nasci em 70 mas tenho uma saudade estranha de uma Angola que não vivi, e cresci felizmente, com uns pais amantes de boa música*, te agradeço este texto.
Beijú
*a minha definição de boa música, respeito todas que sejam diferentes da minha

Rubra Rosa disse...

Mas oh Zucas, estão de ressaca ou não querem dizer????!!!! Para vos dar um kandando pelo dia 7 faço então???!!!!Rsrsrsss

Hugo Becker disse...

Lindo texto... e linda lembrança. Apesar dos 23 anos, tenho tara por discos de vinil e por artistas (bons) que não são de minha época. Tenho um LP duplo da Maysa; um dos LPs tem o lado B inteiramente dedicado às suas gravações internacionais. E esta música do vídeo está neste disco. É uma das coisas mais belas de se ouvir, especialmente em um LP, o som arranhado da agulha da vitrola.

Mais uma vez, bela lembrança.