terça-feira, 13 de abril de 2010

Luto na Casa de Luanda

Soube hoje, por este comentário deixado nesta casa, que morreu Fernando Baião, grande escritor angolano, colaborador deste blog e meu grande kamba.

Meu coração se enche de tristeza pela perda e por não ter podido me despedir do amigo. Mesmo sabendo que você não acreditava em Deus ou em vida após a morte, Fernando, deixo aqui para você estas palavras sobre a construção dessa nossa amizade tão breve, mas tão verdadeira.

Fernando,

Você apareceu pela primeira vez na Casa de Luanda lá por meados de abril de 2008. Não nego que me assustou um pouco com seus comentários vigorosos, de opiniões fortes e sem preocupações de agradar a este ou àquele. Era sempre muito franco, contundente na exposição de suas ideias e na reação a injustiças cometidas contra Angola nos textos que cá publicávamos.

Depois entendi de onde vinha aquela força. Você amava este país acima de tudo e apesar de ter nascido em Portugal. Como sempre dizia, ao homem não é dado escolher onde nasce, mas sim onde vive. Talvez por isso, por ter feito sua escolha, você amasse Angola tão genuinamente, sem medo de ouvir as críticas e de reconhecer os problemas. Era um patriota verdadeiro, que assumiu responsabilidades no momento da Dipanda, integrou os primeiros governos do MPLA histórico, mas fez questão de se afastar ao perceber que as novas gerações, cegas pelas ‘cabeças grandes’ do petróleo, desvirtuavam os rumos que você e tantos outros das primeiras horas de luta haviam sonhado para o país. Eram ‘os problemas que estávamos com eles’, como você gostava de dizer.

Nada demorou para que você se tornasse um morador desta casa, escritor que era, e passasse as nos brindar com seus textos que nos mostravam uma Angola profunda que só mesmo um Branco de Quintal poderia ter conhecido.

Eu ainda não sabia então, mas esse mesmo vigor dos textos você usava também para combater um câncer. Só o soube um ano depois, quando você veio a São Paulo para uma quimioterapia e pudemos então nos conhecer pessoalmente.

Foi incrível ver a força com que você encarava a doença, sem se deixar abater, rejeitando o papel de vítima. Lutava como o guerreiro que sempre foi em todos os momentos da sua vida – no exílio da juventude na Bélgica, na clandestinidade da luta pela Dipanda, nos primeiros anos de privações e guerra depois da independência.

Agora a luta acabou, amigo, chegou a sua vez de descansar. Se eu tivesse tido a chance de uma despedida, teria apenas agradecido pela nossa amizade e pelas muitas coisas que me ensinou, mesmo nesse curto tempo, sobre Angola e sobre a vida.

Kandandu forte, Baião.

Do seu kamba F.

Para quem quiser ler um pouco de Fernando Baião, seguem os links de todos os textos por ele publicados nesta casa:

17 comentários:

X disse...

F.,
Que notícia mais triste nos pega assim, de surpresa. Tive o prazer imenso de conhecer pessoalmente o Baião em agosto de 2009, em São Paulo, num fim de tarde chuvoso onde conversamos muito. Como gostei dele! Quando amor por Angola e sua gente. E me presenteu com livros maravilhosos de sua própria autoria. Descanse em paz, Baião, sabendo que deixou plantado sementes profundas no coração desse grupo de brasileiros que um dia privou da sua amizade virtual e depois real.
Uma lágrima solitária por Baião,
X

nely disse...

Olá,
Gostei do blog.
Como recebi uma proposta p/ trabalhar em Angola, estou procurando saber mais sobre esse país.
Aqui têm várias informações.
vou ler c/ calma,rsrs

Abraços

candongueiro disse...

Uma pena.
Bela homenagem, F.

Anônimo disse...

R.I.P. FBaiao

Pêsames à Kianda...

Anônimo disse...

Por favor. Sim que deixa saudade em todos mas chamar GRANDE ESCRITOR é no mínimo uma ofensa aos verdadeiros grandes escritores da nossa Pátria e não só.
Quantos trabalhos deixou escritos e publicados??
talvez seja ignorância minha mas já agora, gostava que o Blog fizesse menção a eles.

F. disse...

Caro Anônimo,

Se quer criticar, devia no mínimo se dar a conhecer. Fica mais honesto e assim nos dava o direito de saber se já terá o senhor publicado algo, para vir aqui se arvorar aqui em defensor da classe dos escritores angolanos.

Pois bem, para sanar sua ignorância a respeito da obra, deixou o estimado Baião ao menos três livros de ficção publicados em Portugal e em Angola. São eles:

Branco de Quintal
O Crime do Bairro da Cuca (este veio a ser adaptado para teledramaturgia pela TPA)
Kimalanga

Só não deixou mais por ter dedicado a maior parte de sua vida à Economia, servindo ao Estado Angolano até recentemente. Só depois começou a se dedicar à literatura.

Espero que se dê por satisfeito e pare de insultar a memória alheia.

Bibbas disse...

Eu vou sempre lembrar com saudade, o seu humor, o seu dançar contagiante, o seu "cala a boca pá" com sotaque de de "quintal do Kazenga". Vou ter saudades tuas FBaião e sempre que olhar para as minhas fotos dos meus 40 anos vou pensar como tu amigo deste um ar magico aquela festa, dançando e gritando comigo porque "os mosquitos iam "comer" o americano"!!!até um dia...

m.Jo. disse...

É uma grande perda, uma notícia dessas deixa qualquer um triste.
Não conheci o FBaião pessoalmente, apenas pela blogsfera e por alguns e-mails trocados. Guardo a memória de um homem gentil, que me presenteou com seus livros só porque não os encontrei nas livrarias de Luanda.

nely disse...

DESCULPA, ACHO QUE VIM EM HORA ERRADA.

MEUS SENTIMENTOS PELA PERDA.

SAUDAÇÕES.

Anônimo disse...

Voltei.
O não ter publicado não transforma ninguém em grande escritor. Se a minha avó fosse viva...
Três livros também não fazem de ninguém um grande escritor.
Sou anónimo sim como os milhões de pessoas que não sabiam que este senhor era escritor? É mal?
A reacção ao que eu escrevi é típica de português. Sempre em bicos de pés.
Frequento muitas livrarias de Angola, Brasil e Portugal (principal mercado dos escritores de língua portuguesa) e nunca vi nenhum desses livros à venda. Tomara que, pelo menos a bem da memória do falecido e da sua grande competência, se venha a projectar agora. Caberá a quem conhece bem a sua qualidade. Escritos em Blogs não fazem de ninguém grande escritor. Talvez também contribuam para isso as exíguas tiragens das publicações que se fazem principalmente em Portugal, país de meia dúzia de leitores.

F. disse...

Oh senhor anónimo, não posso ser responsável por sua ignorância em termos de obras. Eu mesmo não conheço toda a gente que anda a publicar em Angola, Portugal ou no Brasil.

Mas é bom lembrar que o post aqui publicado é de minha autoria, portanto expressa apenas a minha opinião. O senhor não precisa concordar. Basta que me conceda o direito de achar o Baião um grande escritor, pois não.

Se não conhecia o Fernando Baião e os livros escritos por ele, só posso lamentar por si. Mas já aproveitando que não o conhecia, como pode sair a dizer falar mal do gajo? Parece-me um tanto leviano estar a criticar os que desconhece.
Fazia melhor se respeitasse a memória dele e a dor daqueles que privaram da amizade, em lugar de vir cá fazer suas queixinhas.

Só para sua informação, apesar de saber imitar um bocadito a maneira portuguesa de escrever, sou bem brasileiro, nascido, criado e alfabetizado em São Paulo. E nem por isso mais cordial que os portugueses se o caso é de defender a memória de um amigo.

Anônimo disse...

Voltei. Oiça lá ó coisa.
Em momento nenhum aqui eu desrespeitei a memória do FB. Apenas lamentei o facto de não o conhecer como escritor e muito menos GRANDE. Só isso.
Agora se pelo facto de ter escrito alguns textos para o seu super-blog, se tornar num grande escritor, foi isso que me admirou e para tal pedi ajuda acerca das obras publicadas. Da sua alta sabedoria, você que tanto preza e respeita o dito escritor, não me conseguiu sequer dar os títulos de uma única obra. Será que não tenho razão? Ou será que não sei do que falo??
Fui andando para uma livraria ;-)

F. disse...

Na minha primeira resposta dei três títulos de livros publicados por ele. Repito aqui:

Branco de Quintal
O Crime do Bairro da Cuca (este veio a ser adaptado para teledramaturgia pela TPA)
Kimalanga

Está bem assim? E insisto: a opinião sobre a grandiosidade do autor é minha, se me permite.

Um abraço,

Anônimo disse...

Oh F., a esta hora o FBaiao, lá em cima ou algures aonde quer que esteja, deve-se estar a rir e a dizer:

"Oh maka!Esta Casa de Luanda é mesmo um blog polémico, né? Tb foi assim que eu entrei na Casa...com discussão...eheheh"

kandandus pra todos
Ana

Anônimo disse...

Quem é grande escritor?
Quem tem envolvimento c/ o que escreve. E nem precisa ter livro publicado. Aliás, isso me lembra o Fernando Pessoa, que teve apenas um livro publicado em vida.
Hoje em dia, está cheio de livros por todos os lugares, todo mundo escreve livros, não significa que são escritores.

O Fernando Baião era um escritor.
Um grande escritor p/ quem o conheceu.

Abraços a todos.

Lia L.

Anônimo disse...

O conceito de grande escritor mudou mesmo.
O Blogueiro (brasileiro) se calhar deve ser daqueles que até diz que o (seu) presidente Lula não é um grande político. Estou mesmo a ver...
Para terminar, grandes escritores como o de que falámos, existem em cada esquina no Brasil e até mesmo Portugal, Angola, Cabo Verde (isto para só falar na liíngua portuguesa)...

Yokutxa Marixe disse...

Resolvi passar para ver as novidades, depois de ficar uns tempos desactualizada, e encontro essa trizteza de notícia.

F. Baião, que nunca conheci pessoalmente era um ícone para mim. Aliás, ainda o é. As suas pontuadas opiniões e os seus acentuados textos contagiaram-me logo na primeira vez que passei por cá.

Mas como a morte é só mais uma etapa da vida, este incrível homem desaperece só fisicamente e os seus textos, palavras e ensinamentos para sempre ficarão connosco.

Bjxxx