terça-feira, 22 de julho de 2008

Dizem que a Morte é a lei da vida, mas a vida continua. Apesar dos pesares, não podia deixar de relatar, hoje, factos da nossa terra, quando se encomenda a alma ao criador. No cemitério, lá para o lados do Bairro Miramar, onde a elite e a burguesia nacional vão repousar em paz, os acompanhantes, amigos e inimigos, mirones e patos, mulheres e amantes, mais velhas e catorzinhas, mas com mais frequência, altos representantes do poder, com altos cargos no país, levam os seus telemóveis ligados. Sabemos que são pessoas importantes, que têm a seu cargo a resolução dos problemas mais candentes do povo angolano. Têm que estar sempre a par do que se passa, dar ordens e instruções a toda a hora, até mesmo um encontro clandestino que precisa ser combinado, mas, sinceramente, aquela sinfonia a tocar a todo o instante, com trims, trims e musiquetas da banda, brada aos céus.
Estes funerais, para além da última homenagem ao falecido, servem para tudo, há muito boa gente que aproveita a presença dos governantes para tratar dos seus assuntos pendentes nos ministérios e bancos, pedir um empréstimo para comprar casa no Luanda Sul, pois viver em apartamento já não dá. Contaram-me, eu não vi, que foi apanhado um governante a despachar um requerimento em cima do mármore de um mausoléu que ainda não tinha sido profanado pelos novos iconoclastas da nossa cidade.

9 comentários:

Uma Brasileira nas Arábias disse...

Baião,
Apesar de serem pessoas importantes e cheias de afazeres, eu acho uma tremenda falta de respeito falar ao celular em uma situação como estas. Se for mesmo indispensável, poderiam muito bem acionar o vibracall e atender de forma discreta, fora do local do funeral... Mas tem gente que não se manca, né? Fazer o quê? Eu quando estou perto, olho logo de cara feia, mesmo que o falecido não seja meu parente. Falta de respeito tem limites. Um abraço. Paty

Angola disse...

posso estar errado, mas sinto que funeral e festa são sinônimos por aqui. cheguei a pouco tempo mas já estou me acostumando com este traço cultural do povo angolano.

Iraldo
http://angolaemfotos.blogspot.com

Flávia da Costa disse...

Obrigada, Fernando, por levantar o tema, tenho muitas dúvidas sobre os óbitos nesta cultura.
Em primeiro lugar estar com o telefone ligado nestes momentos é obviamente falta de respeito e de educação. Completamente imperdoável.
Penso, entretanto, que isto possa ser fruto de todos os procedimentos obrigatórios nos óbitos de Angola. Todos os eventos que se seguem ao óbito acabam reunindo um número grande e desnecessário de pessoas. Sei que como última homenagem esta deve ser grandiosa,mas já vi gente quase comemorando porque iria a óbito e encontraria outras pessoas. Me incomoda um pouco este ar de "festa", mas acredito que seja por minha incapacidade de entender o sentido das coisas.

Migas disse...

Olá Fernando! Espero que esteja bem por aí! :o)
Ora aqui está um tema bem peculiar, em Angola. Não há dúvida que o povo angolano tem uma forma diferente de encarar a morte. Não querendo tomar o todo pela parte, como é óbvio, mas acho que esta forma relaxada de se encarar o óbito, será uma maneira de serem menos infelizes neste momentos tantas vezes repetidos durante estes anos de guerra. Um dia falo sobre os óbitos com DJ. :o)

Abraço!

m.Jo. disse...

Os velórios do Patropi também podem ter ar de festa. Relembra-se o morto, seus melhores momentos, aquele lance que... pqp, só ele mesmo prá dar uma dessas. E daqui a pouco estamos todos rindo, contando piadas, lembrando histórias. De um lado, o coração apertadinho, a perda é dolorosa. De outro, pôxa! Há quanto tempo esse pessoal não se reúne? O "meu" pessoal? A sensação de "pertencimento" é muito reconfortante. Eu também, às vezes, me sinto incomodada com as piadas. Mas acho que fazem parte do ritual do luto e do adeus.

Celulares são outra história. Parece que a pessoa não está junto, só está marcando presença. Quando vou prá casa passo perto desse cemitério. Mesmo do lado de fora tinha muita gente, de preto, falando ao telefone. Também reparei. Não é mais pessoal, virou assunto profissional.
Josie

fernando baião disse...

Caros amigos, tentando interpretar os v/ comentários, adianto que, como a maior parte dos angolanos, sempre tive muito respeito pelos mortos.Um komba e mais adiante explicarei o termo,não é uma festa, é uma homenagem sentida da da família e amigos ao falecido. Infelizmente, os óbitos estão servindo cada vez mais para interesses inconfessos, encontrar pessoas com poder para resolver problemas particulares, no caso de se tratar de um óbito de gente importante, pois se for pobre, apesar de haver sempre alguma coisa para mastigar e beber,
essas pessoas não aparecem.
Um mais velho me explicou o que era um óbito, tambi, em kimbundu.Tambi ou óbito é o falecimento de uma pessoa e todos os rituais à sua volta.As cartas e a mesa da suecada (jogo da sueca), o mbiji (peixe) por escamar assado nas brasas e o caldo(musongué), o feijão de óleo de palma e o vinho tinto.Os mais ricos mandam vir uns barris de cerveja e galinhas do mato, nada de frango congelado,bem temperadas com jindungo nas bacias de plástico, ao lado do limão e as penas da galinha para barrar com o molho ao mesmo tempo que as
assam.Vem a missa do sétimo dia e aí pode dar-se por terminado o óbito. Pode prolongar-se até trinta dias. Á finalização do óbito chama-se o varrer das cinzas. É o "kukomba o ditóko", generalizado em português por "Combaritoco". Hoje, o termo Komba generalizou-se para todo o cerimonial

Anônimo disse...

Fernando, aprendi muito com sua postagem e comentários. Sei que cada cultura preserva sua maneira de encarar a morte. Entretanto, locais coletivos requerem o respeito às pessoas, principalmente em se tratando de um funeral. Todavia, compreende-se as fraquezas humanas reveladas nessas oportunidades. São demonstrações, muitas vezes, de auto-afirmação. Ainda assim, a vida continua.
chr

Lilás disse...

Olá, Fernando e pessoal que aqui escrevem!

Tenmho acompanhado o seu blog e aprendido bastante também sobre esta cultura tão diferente da nossa e ao mesmo tempo parecida em alguns aspectos.
Infelizmente este ato grotesco de aparelhinhos celulares tocando também, às vezes, acontece por aqui na terra brasillis. Claro que seria bem mais adequado deixar no vibracall, mas vejo que isso deve ser mesmo uma questão de auto-afirmação por muitos, como se somente eles tivessem tais aparelhinhos no mundo.
Certamente depois de tantas mortes neste continente, este é um momento social de muita importância para todos.
abraços cariocas

Jean disse...

Acredito que seja mais um caso da globalização: a banalização.

O disparate social, a falta de educação formal, a desestruturação da família, o conflito de valores, os interesses individuais acima dos coletivos, a impunidade... acredito que tudo isso sirva, apesar de não concordar, para a banalização dos fatos.

Aqui no Brasil, também é assim, Fernando. Em geral, ninguém respeita mais ningúem. Não respeitam os vivos e, imaginem, se vão respeitar os mortos.

Esta semana aqui na minha cidade, Florianópolis, houve um acidente de caminhão, aonde um passageiro faleceu. Vocês acreditam que um ladrão, entrou na cabine e assaltou o morto: roubou a sua carteira? Pode? O infeliz acabou preso.

Apesar de tudo, como bem disse o Fernando, a vida continua...

Um abraço,

Jean Claudi.