quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dona Fina


Dona Fina Calumbo não sabe quantos anos tem. Nunca comemorou um aniversário, porque não conhece o dia do seu nascimento. "Já vivi muito tempo, minha filha", explica, sem ligar para datas.

Ironicamente, ela dedica sua vida aos nascimentos. Parteira tradicional há muito, muito tempo ("não sei falar em anos, minha filha..."), faz de 10 a 12 partos por mês. Eu, com minha mania ocidental de transformar tudo em números, faço uma conta rápida e concluo que ela já deve ter trazido ao mundo mais de 4 mil bebês (chutando por baixo...).

Moradora de um bairro rural na periferia de Saurimo, na Lunda Sul, Dona Fina acorda cedo para ir à lavra. Às vezes nem bem chegou de volta à casa já tem uma grávida esperando para dar a luz. E aí, Dona Fina? "Aí lavo as mãos, boto um pano na cabeça, faço uma oração e vou. Estou sempre pronta, essa é minha missão.

Até o ano passado, ela e as outras dezenas de parteiras tradicionais da região recebiam luvas, sabão e bacia para garantir a higiene do parto e protegê-las contra o HIV e outras doenças. A ONG que patrocinava esse projeto saiu de Saurimo em 2007 e desde então as parteiras tem de arriscar suas próprias vidas ao fazer seu trabalho. O governo diz que não tem dinheiro para continuar o projeto, mesmo sabendo que as parteiras são responsáveis por mais de 90% dos partos da região.

Dona Fina não desiste. Segue confiando nas mãos lavadas, no pano na cabeça e na oração. E assim vai criando aniversários, sem nunca ter comemorado o seu.

10 comentários:

Bibbas disse...

Wow, para quem como eu que acha que os aniversários devem ser sempre festejados pois significam mais uma no entre amigos e familia, fiquei cheia de pena da D. Fina não conhecer seu dia...Mas afinal não importa pois pelo seu trabalho tão nobre, todos os dias são os dias da D. Fina. mas mesmo assim tudo que queria era poder mandar um bolo e velas e dizer: D. Fina escolhe m dia e faz dele teu. Parabêns D. Fina!!!!

kianda disse...

E parabéns para o post P., fica aqui a homenagem, na net à D. Fina.

Mariana Bertholdi Marini disse...

P.
Adorei o post... aliás as parteiras me encantam!

Mas o comentário vai por outras razões também. Trabalho na DW e não consigo entrar em contato com vc e o F. para uma entrevistinha sobre o ¨Casa¨ no Bobs.
Os números de celulares que tenho não saem do ocupado.

meu email: daiana.dalfito@gmail.com

Mando tb um e-mail para o F.

Parabéns pelo blog!
Um beijo.
D.

bibbas disse...

Development WorkShop?????!!!! Já fiz alguns trabalhos para voçes...Allain K.e Mary D. foram alguns dos meus inspiradores...faz tempo!!!!

Anônimo disse...

Simplesmente um SER HUMANO maravilhoso que depende de espaço, tempo, status, conhecimento intelectual, simplesmente um GRANDE SER HUMANO.
chr

NAMIBIANO FERREIRA disse...

A D. Fina me faz lembrar outras D. Finas que eu conheci... até parece que a estou ouvindo falar...

Celina disse...

Que post lindo!

P. disse...

Eba, Dona Fina ficaria contente com tantas homenagens!
P.

Migas disse...

Este é, na minha opinião, um dos post mais bonitos escritos na Casa. :o) Lindo, P.!

Cacilda disse...

Olá, fico muito feliz com o projeto do seu blog. Trabalhei um tempo num hotel 4 estrelas aqui em SP que recebia mensalmente angolanos. Fiquei curiosa e vim aqui pesquisar. São Gente boníssima:-) Me emocionei com o post. SOu bisneta de uma índia que assim como dona Fina era parteira nos confins da Bahia.
Meissa