domingo, 1 de março de 2009

Partida

De tudo o que vivi, jamais esquecerei da luz nas tardes de Luanda. Tão plena, verdadeira, pedaços de sol a invadir a pequena sala por todas as frestas de vidro, chocando-se contra paredes brancas e cacos de piso para explodir em milhares de partículas a flutuar, brilho no ar a denunciar cada ruga no revestimento da velha poltrona, cada partícula de pó a pairar sobre os delicados bispos, peões, reis e rainhas do tabuleiro em pedra-sabão. Agradecia sempre por encontrar-la à mesma hora, tocando-me a pele cansada da poeira da estrada, fazendo-me esquecer por alguns instantes o frescor cinza do cacimbo, iluminando-me a escuridão das idéias. Se pudesse, a teria escondia no tronco oco de um imbondeiro em miniatura para carregá-la comigo na longa viagem de volta. E a cada vez que sentisse a tristeza da partida, ou o espírito titubear de banzo daquelas terras tão vivas, espiaria por uma fresta só para confirmar de que não foi apenas um sonho, uma invenção da minha própria imaginação.
P.S. - Este texto foi escrito no cacimbo na casa de Ph. e V. (o tabuleiro de xadrez e o imbondeiro da foto são deles) e guardado para ser publicado no dia em que partisse de Angola, em que deixasse a Casa de Luanda. Ele é o final de uma trilogia que começou com Rendição e Cacimbo sem Ponto Final.

6 comentários:

Suleiman Zanucki disse...

Esses são os sintomas de uma doença incurável. Muito sentimento genuíno nestas palavras. Angola é um prodígio da natureza.

Anônimo disse...

"ou o espírito titubear de banzo daquelas terras tão vivas", tb foi escrito no cacimbo anterior ou foi agora acrescentado?
Texto lindo, cheio de emoção!
Parabéns.

Fátima

F. disse...

Foi escrito no cacimbo anterior, Fátima. Eu já imaginava... Obrigado.
Bjs,

Flávia da Costa disse...

Vou certamente repassar para o Ph. e V. Eles vao amar! Assim como olho para o meu imbondeiro e lembro de voce... Penso que estara decorando todas as casas em que eu morar para o resto da vida.
Saudades grandes!
Beijos!

Anônimo disse...

Ah não vale fazer chorar os outros.
Não tenho jeito pra despedidas, mesmo tendo vos conhecido virtualmente, ficarei com saudades dos vossos artigos.
Boa viagem e que estejam sempre em sintonia e com Muangolé na Muxima.

Patyfendes

d.uniaoeuropeia disse...

Só hoje descobri este blog e de imediato fui invadida por uma onda de nostalgia muito boa. Luanda é esta luz mesmo. Fiquei fã.