
O Moisés é um jovem religioso. Ou melhor, a sua namorada é. E como tal, para que pudessem “brincar” teriam de casar antes. Até aqui nada estranho. O Moisés casou, depois das enúmeras conversas que teve com os colegas sobre as suas intenções com a moça, que eu ouvia calada. Um dia, depois do esperado casamento (e da mais esperada lua-de-mel que teve como cenário uma casita na Ilha do Mussolo) um colega pergunta ao Moisés porque ele tinha casado. Ele respondeu que queria, tal como a noiva. O outro jovem disse-lhe que tinha feito muito mal. E perguntou-lhe: e se ela agora não conceber? O Moisés respondeu-lhe que não tinha mal, que ficava com ela na mesma. O outro apresentou-lhe os casos que conhecia e que tinham acabado mal. Concluiu que primeiro deve conceber-se a noiva e só depois casar. Depois de ter ouvido os argumentos todos do jovem anti-casamento com pessoas inférteis, perguntei-lhe: então e se a mulher não puder ter bebés, não tem direito a ser feliz? Ter um companheiro? Não – respondeu ele. Em casa tem de haver alguém para partir copos. Acrescentou: É a cultura africana. E o olhar que se seguiu fez-me “meter o rabinho entre as pernas” e terminar a minha intervenção.
De notar que todos estes jovens tinham carinho por mim e eu, por eles. Às vezes diziam “nós” como se eu também fosse Angolana. Mas em dois casos, marcaram a diferença entre o branco/africano e demonstraram que a minha cultura é diferente da deles. Eu sei que é. Mas este tema pareceu-me cruel demais.
O Moisés em pouco tempo concebeu a esposa. Quando lhe perguntei sobre a sua vida (e casamento), respondeu-me que ia ter um bebé mas pediu-me segredo com os outros.
Eu gosto de crianças e um país só pode realmente pensar num futuro quando as crianças existem, são bem tratadas e podem crescer saudáveis e com educação disponível. Temo que as crianças – tantas – concebidas antes dos casamentos que na maioria das vezes nem se concretizam, não possam ter um futuro feliz. Porque a taxa de natalidade é algo que não atormenta este país e, ao que parece, faz parte de uma cultura que permanecerá por muito mais tempo.
9 comentários:
Realmente há culturas em que o factor família, fecundidade, se sobrepõe mesmo às muitas dificuldades por que passam para poderem criar tanta boca. Mesmo por cá esses hábitos não se perdem. É hábito terem filhos muito cedo e uma grande família. Dizem que quem cria 1 cria 3 ou 4.
Claro que para os Europeus a questão não se põe nos mesmos ,moldes. A independência económica, o bem estar, a educação das crianças não se compadecem com famílias numerosas pois os ordenados não crescem na mesma proporção. Por isso, cada vez a natalidade é mais pequena.
Maneiras diferentes de ver a mesma coisa. Diferentes culturas!
Boa semana
Há que se pensar no planeta Terra e sua capacidade de sustentação e auto-regeneração. Sendo assim, as culturas terão que se adaptarem sob pena de suas sociedades pagarem um preço alto pela desatenção.
chr
Para o Angolano, filho é riqueza. É isso que ouço sempre que pergunto a alguém por que raios teve cinco ou seis filhos. A mulher que não concebe é estigmatizada pela sociedade.
O F. tem razão, em primeiro lugar, para o angolano filho é mesmo muito importante. Mas existem tradições, que não têm nada a ver com a cultura europeia.Apesar de estar a perder-se nas cidades, ainda há muitas regiões de Angola, onde, para se ter uma jovem, é preciso dar "alembamento", ofertas aos pais ou tios maternos da pretendida, panos, bois, cabras, vinho, e mesmo dinheiro e, se a moça não concebe, o noivo vai entregar a noiva aos seus familiares e tenta receber as oferendas dadas. Nas cidades, como Luanda, esta tradição quase já não existe, como hoje o amor é mais livre, dá-se o caso de primeiro terem filhos e depois casarem, mas não tem nada a ver com usos e costumes da terra.O contrário, são estórias, que cada um conta à sua maneira, o angolano é muito inventivo, e quando está em face de outras culturas gosta de se exibir.
Eu já ouvi falar no alembamento também Fernando. Penso que a tradição ainda se mantém em algumas famílias, mesmo em Luanda. Já chegaram a perguntar-me se em Portugal também havia alembamento e, à minha resposta negativa disseram: assim é que é bom! Tenho de ir para lá para arranjar uma dama e não ter de pagar os panos e as gasosas...ahahah Claro que os noivos é que disseram isso! :o) A ideia que eu tenho é que, após o alembamento, em certas famílias, o casal passa a ter autorização para outras brincadeiras! ahahah
E agora, tire-me esta dúvida: o que tem de especial o alembamento de Malange? Já me falaram que era "bravo" para o noivo mas não sei o que queriam dizer! :o)
Acredito que culturas e seus hábitos só se modificam mediante uma situação muito grave como guerras e fome, e que muitas vezes, para não se perder a identidade cultural, se agarram mais ainda à seus hábitos...
Beijinhos
Em se falando em alambamento, fico feliz de saber que não é só nas provincias que tem. Outro dia um dos nossos colaboradores fez o seu, a festa foi muito bonita, infelizmente nao pude ir, mas quem foi contou que a tradição ainda vive em Luanda.
O problema de filhos, não é so de Angola é um problema social de todos os paises subdesenvolvidos no Brasil também, principalmente nas comunidades mais pobres. Pra mim a igreja tem muita culpa nisso pois desistimula todo o tipo de prevenção... Mas já que as crianças existem, temos de lutar para que elas tenham um futuro digno.
bj
Migas, parece que o alembamento no Bié também é dos mais difíceis, com famílias exigentes demais. Em Luanda o alembamento ainda existe sim. Eu conheci aqui um amigo brasileiro que começou a sair com uma moça mangolê. Em determinado momento, ela disse que não podia contar ao pai do namoro entre eles, a menos que os apresentasse. Ele aceitou ser apresentado, mas aí ela disse que ele teria de dar uma lista imensa de presentes para toda a família para ser autorizado a sair com ela. Ele desistiu de conhecer a família...
Ainda bem que as diferenças culturais existem, para bem da diversidade. Devem ser respeitadas com o máximo de tolerância. Mas casos como estes, lembram-nos a importância do bom senso!
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