quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Nove meses

Crianças brincam no bairro da Cuca, no Sambizanga

Esta casa completou ontem nove meses. Fui reler o primeiro post, ainda sem fotos, cheio de cuidados, um jeito de escrever que, de alguma forma, deixei perder-se pelas ruas de Luanda.

Os problemas que descrevia então continuam a existir. Alguns se agravaram, outros melhoraram. Depois daquela casa branca na ilha passamos por outras oito moradas, das quais apenas uma era realmente só nossa. Isso tudo agora é passado, não mais nos afeta.

O maior preço pago pela opção de morar em Luanda foi mesmo pessoal e afetivo. Nunca voltei ao Brasil, desde que de lá parti, em março, e nesses nove meses três tios meus morreram sem que eu estivesse lá para secar as lágrimas dos meus pais.
Meu pai enfrentou a volta de um câncer e eu não estava lá para lhe dar força durante a radioterapia.

Minha afilhada perdeu os primeiros dentes, leu as primeiras palavras e eu não estava lá para escutá-la. Meus sobrinhos mais novos já falam corretamente, mas talvez não saibam dizer o nome do tio que partiu quando ainda eram jovens demais para recordações.

O Natal chegou e eu não estarei lá, a volta da grande mesa com todos os aromas e sabores que sabem a lembranças.

Tento fazer um balanço, descobrir se fiz alguma diferença em Angola. Talvez eu tenha melhorado um pouco, apenas um pouco, a vida de uma ou duas pessoas que cá conheci. Mas no geral, minha passagem por aqui tem modificado muito pouco. Eu não tenho esse poder, de transformar o que não quer ser transformado.
As crianças que tanto se divertiram ao se verem na pequena tela de LCD das minhas câmeras provavelmente já se terão esquecido daquele branco que lhes apontava as lentes. Eu, porém, jamais me esquecerei delas. Porque eu não fui capaz de mudar Angola, mas Angola sim, operou transformações em mim.

17 comentários:

Migas disse...

Hummmm, ao ler o post até me arrepiei F. Muita força para mais estas semanas e muita força e alegria na volta.

E sim, cada um de nós, não faz assim tanta diferença. Fazemos alguma. Pequena. Mas, sem dúvida que as diferenças que ficam em nós, deverão ser bem mais. Para o bem e para o mal.

Menina de Angola disse...

F, como sempre colocando o dedo na ferida... Pois a sensação é essa mesma quando chegamos achamos que vamos mudar alguma coisa mas somos nos mesmos que mudamos... Agora se cada 1 fizer um pouco por 1 que está a sua volta já é alguma coisa. Se cada expatriado que está por aqui saisse da sua redoma de vidro, parasse de criticar e começasse a interagir mais ahhhh com certeza as coisas iriam mudar sim....

bj e força!

Vicky disse...

Pois é...essa terra vicia.Não és a primeira pessoa, e nem serás a última a queixar-se...há muitas lágrimas a rolarem por esse mundo fora... o Bonga, cantou..."tenho uma lágrima no canto do olho", O Waldemar escreveu...."não me perguntes quando volto, eu nunca saí de Angola" e o Ouro Negro, gritou ...."Muxima ué,Muxima"...., enquanto cantava:"...Amanhã,peço ao meu Lima que faça com que eu volte a morar na terra mater que me viu nascer..."
Nós mudamos, Angola não.

Anônimo disse...

Água mole pedra dura tanto bate até que fura. Diz o ditado.
Caro F, saiba que és um granda Brazuca,ainda que as tuas acções podem não ter mudado angola (segundo teu ponto de vista), tenho a certeza de que as tuas palavras (escritas)e o teu pensamento aqui demonstrados, mudaram e hão-de mudar ainda mais a forma de pensar, agir e expressar de muitos de nós que por esta casa vamos passando.
Nem penses em mudar em 9 meses, um país em que nem mesmo nós angolanos o faríamos em 30 anos.
O pouco que tens feito é muito para nós que não fazemos nada por angola.

Um forte Kandandu e bola pra frente yá!!!

Patyfendes.

Anônimo disse...

F., vc não mudou Angola, óbvio, mas mudou certamente algumas pessoas de Angola.
Todos aqueles que têm o previlégio de o conhecer pessoalmente, de certeza absoluta, que jamais o vão esquecer. Esteja vc onde estiver.
Quanto aos amigos virtuais, vão segui-lo para onde vc for, concerteza!
E isso, não é conseguido por qualquer expatriado, F.

Há várias categorias de expatriados e os angolanos sabem muito bem distingui-los. Você e a P. estão incluidos na de muita qualidade. Não esquecemos pessoas como vcs. Quem nos dera que ficassem cá para sempre...

Há outro tipo de expatriados, que apenas passam por cá, e ninguém se vai lembrar deles quando se forem embora.

Mas vcs, também tenho a certeza que vão ficar tristes quando partirem de vez e vão sentir falta de Angola e dos angolanos.
E, enquanto cá estão, ainda estão no Huambo? No regresso, quando chegarem ao Kwanza Norte, em vez de virarem para Luanda, vão até Malanje e às quedas de Kalandula (vale a pena!.
Abraço
FC

Diário da África disse...

F.,

Nove meses é o período de uma gestação.
Angola e África estarão sempre em todos nós, expatriados, que, por uma razão ou outra, lançamos âncora por aqui.
São as febres loucas que nos acompanharão para sempre.
A única coisa que posso dizer é que conhecer e conviver com vc e a P. tem sido um grande privilégio.
Gostei dos dois desde o primeiro momento, quando comemos aquele peixe cru, sua antiga especialidade, em Mike 3 (ou seria Romeu 2?).
Essas são as boas coisas de África e Angola.
África e Angola nos mudaram porque estamos prontos para mudar.

X disse...

F.,
Vamos organizar um super Natal na Casa de Luanda, pra ninguém ficar triste.

F. disse...

Amigos, obrigado pelas palavras de apoio. Toda escolha tem um preço, eu já tinha idade suficiente pra saber disso quando decidir viver em Angola.

Diário da África, não preciso nem mencionar o quão preciosa nos é a nossa amizade. Mas aquele peixe não estava cru, vamos esclarecer. Estava só todo desmontado... ;-)

X., Natal e tristeza são sinônimos desde o dia em que eu descobri, graças ao Pai Natal, que meus pais também mentiam pra mim. Hahahaha. (Adoro esse nome, Pai Natal.)

kianda disse...

F, tal como a migas tb me arrepiei!!! Como sempre, amei as tuas palavras...faço parte desta casa desde quase o inicio (como leitora, pq como moradora sou um falhanço). Angola tem esse efieto, como diz o poeta, primeiro estranha-se depois entranha-se...mudar?! Não desista nunca, todos os dias o teu bocadinho é o muito para alguém ... beijo com muito carinho!!!

Anônimo disse...

P. e F. parabéns pela grande prova. O que vocês mudaram ou mudam aqui neste Planeta, não sei, até porque muitos efeitos só aparecem depois de muito tempo. No entanto, no espaço Cósmico vocês representam duas estrelas brilhantes a iluminar a mente e coração de muitos Seres, aqui e acolá, que serão multiplicadores do Grande Amor Universal.
Sinto orgulho de vocês.
chr

ELCAlmeida disse...

São os feitiços da Kianda e da terra vermelha de Angola.
Não a conseguimos mudar mas quando damos por ela estamos formados à sua imagem e à sua força.
É por isso que Angola não se define; sente-se e ama-se
Se passar o Natal em Angola uma boa quadra festiva. Se for no Brasil uma boa viagem e anime-se que Angola volta a esperar por si.
Abraços
Eugénio Almeida

Rubra Rosa disse...

Como alguém já escreveu, 9 meses é o tempo de uma gestação. E eu acredito que muitos bebés(adultos com outra mentalidade neste caso)nascerão partir de entãopor terem lido os seus escritos.
Saiba que a legenda da primeira fotografia não foi "aprovada" por um pequeno de 6 anos que me disse que não acredita que as crianças estavão a brincar!!!! Quis saber como elas condeguiram o Pneu (expliquei e tive como resposta muitas gargalhadas). Que os pequenos das fotografias tenham um brinquedo pelo Natal.
Festas Felizes a todos.

fenando baiao disse...

Tarde mas cheguei a tempo de dar os parabens, nove meses é uma gestação, e o teu(vosso) parto não tem sido fácil.Logo após a Dipanda, os expatriados vinham do Leste, dificil a adaptação( o problema da língua e muito loiros...) e cubanos, mais do nosso tom de pele, mas também de dificil integração (políticas). Depois os tugas, uns, ainda com a mania do neocolonialismo, mas outros(infelizmente poucos) vieram com intenção de ajudar de verdade.Depois os nossos irmãos do Brasil, mentalidade parecida, sotaque mais parecido do nosso, quando querem se integrar, estão aí, não falha. E vocês, F. e P., no conjunto deles todos, sobressaem bwé, gostam mesmo do nosso país, sabem ver as coisas como elas são, não têm medo de dizer as verdades, usam a liberdade com objectividade e quando não falam, fazem as imagens falar por si. Um kandandu da altura do BPC, saravá, estamos juntos. Para a P. e Você, F., dia da família feliz

Bibbas disse...

Texto lindo. Voçe não mudou Angola, mas mudou os sonhos de alguns angolanos e a possibilidade de alguns verem a sua imagem naquele pequeno ecran da camara...parece ser algo pequeno mas tem uma dimensão grande para quem nao tem fotos. Se todos, nas nossas areas de acção dermos o nosso melhor, Angola vai certamente mudar. Um dia na Huila tirei uma foto a um menino que não tem metade do nariz. Cheguei a Luanda e imprimi em papel e plastifiquei. Mandei de volta e pedi os meus colegas do UNICEF p entregarem. O menino, ficou feliz pois na foto ele estava de lado e portanto o sei defeito facial (talvez de uma bomba) nao estava visivel. Foi um pequeno gesto, mas significou muito para aquele menino com cara de querra. As suas imagens F têm os mesmo significado, e á sua dimensão vão colorindo a vida daqueles, a quem até o direito de sonhar, foi arrancado pela insensibilidade. Parabêns

m.Jo. disse...

Para mim, esse cantinho aqui fez (e faz) muita diferença.

Celina disse...

Mais uma vez, termino a leitura de um post desta casa com lágrimas nos olhos.
E confirmo minha extrema admiração por vocês, F. e P. Força aí!
Por mais que algumas expectativas não tenham sido atendidas, as sementes que plantadas devem render frutos que vocês desconhecem.
Um abraço apertado!

Nancy Casagrande disse...

Maninho, querido,

Já são nove meses de ausência, mas vc nunca esteve tão presente como agora... As festas não têm mais o mesmo gosto doce das filhoses de antigamente, mas elas estão aí para provar que estamos vivos e que somos uma família que, apesar da distância, nunca vai se separar...No Rio ou em Angola, vc muda as pessoas porque é simplesmente maravilhoso, porque é sensível, porque é bom...É claro que sentiremos a sua falta na ceia ou nos fogos a explodirem na praia, mas sabemos que nem sempre as leis da física conseguem explicar "o estar em dois lugares ao mesmo tempo"; e estaremos todos aí com vcs, apenas por que nos amamos...
Um grande beijo entre lágrimas de saudade
Nan