quinta-feira, 19 de junho de 2008

O medo das urnas

Kianda comentou, a respeito do post anterior:

“O povo ainda não acredita, passado 6 anos, que a paz é efectiva... foram muitos anos em guerra e por vezes, de certeza, ainda parece que a paz não chegou !!!”

Por ruas e gabinetes de Luanda cresce um temor discreto, irracional, como se setembro este ano estivesse a vir grávido de maus agouros.

Se pergunta a qualquer pessoa, todos respondem de pronto que a paz está para ficar, não há hipótese da guerra voltar. Mas estarão todos tão seguros disso?

  • As Nações Unidas avaliam a possibilidade de elevar o nível de alerta do país para seus funcionários.
  • Uma petrolífera americana está a incentivar os familiares de seus funcionários a voltarem para casa em setembro.
  • Uma outra petrolífera incentiva os funcionários considerados não essenciais a tirarem férias no mesmo mês.
  • Duas grandes empreiteiras brasileiras já fretaram aviões para fins de agosto. Querem tirar o máximo de funcionários e seus familiares do país.
  • Uma consultoria brasileira que trabalha diretamente para o governo deu férias coletivas de duas semanas no início de setembro.

Parece que o Aeroporto 4 de Fevereiro vai ser o lugar mais movimentado de Luanda a partir de 20 de agosto.

9 comentários:

Anônimo disse...

A guerra que sofremos em 1992, depois das eleições, ainda está na mente da população angolana. O que se passou no Qénia, na Côte de Ivoire, o que se está a passar no Zimbabwé começa a aumentar os receios de todo o mundo, provocado também pelos organismos e embaixadas estrangeiras, mas também grande parte da elite angolana está a reservar lugar nos aviões para as famílias, em Agosto e regresso só no fim de Setembro ou Outubro, para ver como "param as modas". Existe grande pressão sobre as escolas portuguesa e francesa para que comecem as aulas só no fim de Setembro, e muitos pais de alunos estão a pedir a transferência dos seus filhos para Portugal.Mujimbo não mata, mas faz mossa, a espiral do medo, já começou.

Menina de Angola disse...

F. confesso que eu também marquei minas férias para setembro, mais por incentivo de outros estrangeiros do que por sentir qualquer tipo de influência por parte dos angolanos. Aliás, muito pelo contrário, o que eu vejo nas ruas, pelo menos aqui em Luanda, é que ninguém tem dúvidas que o MPLA vai se manter no poder, o que apesar dos pesares, trás uma certa tranquilidade de que a paz não vai acabar...

kianda disse...

f. realmente o seu post e os comentários dizem tudo, o diz-que-diz vai assustanto, se ouvimos dizer que quem manda vai manter os filhos na tuga até fim de Setembro/Outubro porquê que o meu filho fica aí? Como diz o anonimo, (aliás num comentário muito bem escrito - não será o fBaiao com problemas outra vez?) , o mujimbo não mata mas faz mossa.
Acabei de postar um video, lá no silêncio, da suposta campanha do MPLA numa comparação horrível entre eu sou paz, os outros são guerra, os outros são voltar ao passado, que me assusta.
Ninguém ainda se esqueceu de 92 e não faz sentido falar em guerra numa altura destas a não ser por intimidação, por política do medo e não é assim, ou não devia ser, que se faz campanha ou que se ganha eleições.

Migas disse...

Era inevitável falar sobre este tema. Realmente, desde à uns meses longos que se ouve falar em Setembro como o mês do "horror". Quase todos os meus amigos marcam férias para essa altura e, ao que vejo, a maioria das empresas estão a ter a mesma atitude. Já ouvi falar também que, projectos que estão para iniciar estão em "banho maria". Confesso que acho demasiado pessimismo para este país que está a respirar uma paz, ainda infantil mas que, todos querem que cresça e permaneça por muitos anos...

Agora, confesso que os acontecimentos recentes, na África do Sul, deixam qualquer pessoa apreensiva (já para não falar nos países já referidos). Mais do que o início de um conflito (que me parece não acontecer), faz-me mais confusão a festarola na rua, regada com muita cuca e que pode desencadear episódios menos bons... Bem, pensamento positivo!

fernando baião disse...

Oi gente. O anónimo de cima sou eu , fernando baião

F. disse...

Acabo de saber por outro amigo que a Vale do Rio Doce vai evacuar todos os seus funcionários dez dias antes do pleito, com retorno previsto 10 dias depois, se tudo correr bem.

Anônimo disse...

Pois é, todas as opiniões postadas são pertinentes e frutos de observação in loco. Isso deixa claro que o "medo" é a melhor arma para baixar a resistência do adversário. Não é coisa recente, data os primórdios da humanidade. O que é novo são os recursos tecnológicos para difunidi-lo. Claro, a capacitação de pessoas com esse fim precípuo, ajuda muito. O antídoto é a reafirmação de que o caminho da paz é irreversível, paradoxalmente, por bem ou por mal. O planeta ficou pequeno e não tem mais espaço para o exercício de egocentrismos individuais ou de grupos, é somente questão de tempo. Claro, Angola não pode esperar, já iniciou a caminhada. Resta difundirmos o otimismo consistente no seio de um povo que merece ser feliz. Embora longe, estarei alerta para tudo, pronto para propagar e me congratular com a iluminação na mente dos políticos. Eu creio nisso.
chr

m.Jo. disse...

A paz é frágil, o medo é grande. Ingrácia que o diga. MPLA é garantia? Unita é ameaça? Os paióis recém descobertos são todos da Unita, não é assim? Os jornais são todos do MPLA, não é verdade? Quem é o inimigo? Os outros? Se os nossos "nossos" são "nossos" de todo mundo, porque ter medo dos "nossos" dos outros? E quem são esses outros? Porque preferem outros "nossos"? Eu nem cheguei, já estou com medo também. Deixo que manipulem meus medos? Fecho os olhos? Abro?
Josie

Uma Brasileira nas Arábias disse...

Depois de tudo que anda acontecendo na África, eu acho que é mesmo melhor prevenir do que remediar. Até porque se, por azar, algum ruim acontece, fica mais difícil de sair do país.
Há muita gente especulando, mas espero que a paz continue e que as pessoas possam permanecer ou regressar com segurança.