quinta-feira, 26 de junho de 2008

Quem conduz, sempre paga

Já se falou por aqui que a polícia angolana não brinca em serviço. Quer dizer, serviço, não é propiamente o melhor termo. Se eu pudesse, dizia “não brinca em assalto” mas, como não posso, não digo. Agrada-me particularmente a ideia de ter passado despercebida durante estes meses todos de condução. Chego a pensar se, os meus cabelos loiros e olhos claros andam a ser confundidos por uma pele cor de café e olhos cor de chocolate. Sim, é verdade. Contra todas as expectativas nunca fui mandada parar para me identificar ao senhor agente. Pelo menos não enquanto condutora. Sinto-me a verdadeira agulha no palheiro. Porém, o meu mais-que-tudo deve ter gravado na testa: estes-kwanzas-que-tenho-na-carteira-estão-disponíveis-para-distribuir-aos-senhores-queridos-polícias. E claro, os polícias, que são tipos simpáticos, fazem o favor de lhe tirar os kwanzas da carteira. Uma das últimas vezes a história foi assim:

M.(Pisca para a esquerda)
Polícia (Encostado numa das esquinas do cruzamento, manda-o parar)
Segue-se o normal (carta de condução, passaporte, documentos do carro)
Polícia – Não pode virar à esquerda
M. – Não posso? Porquê? Não tem nenhum sinal a probir.
Polícia – Está a duvidar da autoridade? Não pode porque sou eu que faço os sinais.
M. – O quê???
Polícia – Não pode virar à esquerda porque eu digo que não pode e, pode perguntar a quem quiser que vão confirmar-lhe.
M. sai do carro e caminha com o simpático até ao cruzamento e verifica que o sinal indica “cruzamento”. Depois de uns largos minutos a tentar chamar o simpático à razão, o M. desiste e diz:
M. - Pronto, vamos lá resolver a questão. Posso pagar-lhe um lanche?
Polícia (de olhos arregalados) – Um lanche de quanto?

A história teve final feliz para os lados do polícia que comeu um “lanche” de cerca de 25 dólares. No final, pergunta ao M., como se já fosse grande amigalhaço:

Polícia – é arquitecto?
M. – Sou (não é nada)
Polícia – Eu vi logo. Os arquitectos costumam ter o carro cheio de papelada espalhada.
Conclusão: o homem-ladrão (cof, cof) perdão, o homem-polícia teria mais vocação para analisar comportamentos e tentar adivinhar profissões. Ah, mas talvez não desse tanto dinheiro...

15 comentários:

fernando baião disse...

Polícias penteadores estão em todas as esquinas, tenham sinais ou não. Virar à esquerda é sempre proibido, apesar do partido no poder dizer que é da esquerda. Polícia não é politico, é gasoseiro.Domingo à tarde, um amigo meu vai almoçar ao S. João e põe o jeep num pseudo passeio, com um painel para obras onde já estavam estacionados "ene" carros. Bem almoçado, dirige-se para a sua viatura e é interpelado por dois polícias, que se esconderam atrás do carro a pedir documentos e a exigir multas de 250 dólares por estar estacionado em cima do passeio(?). Argumento daqui argumento dali, o amigo que já tinha sido dirigente, apresenta o seu cartão de antigo governante. Responde um dos polícias: "ai é, então agora a sua multa é a dobrar, pois como dirigente que faz as leis, devia as conhecer.Ficou com cara de parvo e teve que desenbolçar uma verde de cem, pois senão tinha que ir para a esquadra da polícia resolver o assunto. Penteador esperto, este gasoseiro!!! Não é que negro não seja penteado, mas branco e cooperante ou expatriado, como queiram, não escapa.

F. disse...

Migas, ótima estréia! Seja bem-vinda!
Ontem aconteceu-me uma curiosa envolvendo senhores trânsitos. O motorista do carro em que eu estava fez uma conversão à esquerda e o agente o mandou parar em fila dupla, atrapalhando o trânsito. Disse que era proibido e tal, essa coisa toda. Mandou ele descer do carro e acompanhá-lo. Passaram-se alguns minutos, outro agente veio da avenida em direção ao carro. "Os senhores estão fazendo o quê parados aqui, a atrapalhar o tráfico?" Outro colega que estava no carro comigo explicou que outro agente nos havia mandado parar ali. Ele não acreditou e por pouco não levamos a multa da multa. Dá para acreditar? No final, tudo se resolveu. Nosso motorista é sobrinho de alguém importante na polícia, mandou os agentes ligarem para o tio dele e ambos acharam melhor esquecer a história.

Migas disse...

Obrigada F.! Muito gosto em começar as minhas conversetas nesta casa! :o)

Realmente é impossível encontrar coerência nas decisões destes "trânsitos". Voltamos à velha questão: é ter paciência... :o)

Quanto a mim, nem sei o que se anda a passar. Nunca nenhum me mandou parar. Acho que o meu ar nórdico está a confundi-los pois ainda hoje fui anunciada por um recepcionista como "senhora mestiça"! ahahahah

Mas como diz o Fernando, mesmo o angolano não escapa. Isto, se viajar num bom carro ou num candongueiro!

Beijos

F. disse...

Migas, você já é da terra.

pipoka disse...

Gostei muitíssimo desta tua segunda casa. Este texto é a bem-humorada e perspicaz Migas "no seu melhor". É assim que gosto de te ver.

bjs

ameixa seca disse...

Migas, obrigada pelo convite e pela porta aberta desta casa ;) Adorei a história :) É um prazer ler o que escreves seja em que blogue for ;)

kianda disse...

Grande estreia migas, bela história e muito bem contada!!! E já tou como o f., já és da terra, ela adopta assim as pessoas como boa terra que é, sabe reconhecer a boa gente. Beijú!!!

Moira disse...

Cara Migas,
Hoje "tirei" o dia para ler com atenção e comentar os posts da Casa de Luanda, da qual tenho sido leitora assídua de há uns tempos para cá. Como já disse noutro comentário esta abertura de portas foi uma mais valia para a Casa com histórias verídicas e diferentes perspectivas de ver a Cidade e o País. O seu texto é disso representativo. Bjs

fezoca disse...

Migas, voce eh UNICA para contar historias. Fico sempre com os olhos cheios de lagrimas de riso quando te leio. Obrigada e que bom que temos mais um espaço para te ler. beijao!! :-))

Uma Brasileira nas Arábias disse...

Migas,
Parabéns pela estréia.
Perguntinha de gente curiosa: e se o condutor está sem dinheiro, cartão de banco ou similares na carteira? O que acontece? :o Fiquei com a pulga atrás da orelha...
Bjs. ;) Paty

Migas disse...

"Cartão de banco"? Digamos que ainda é coisa pouco utilizada por cá, Paty! Por aqui é mesmo dinheirinho, kombu como se diz por cá (help, não sei se é assim que se escreve kombu).. ahahah

E regra número um para expatriado é ter sempre dinheiro no bolso! O meu priminho acabou de chegar o fim-de-semana passado e foi um dos avisos que levou! Caso contrário, muito dificilmente alguém o ajuda em caso de necessidade... Acredito que não seja por mal, é antes a lei da sobrevivência!

Beijos a todos

Uma Brasileira nas Arábias disse...

É, então está mesmo lascado... :O Bjs. Paty

AP disse...

Parabéns! Vejo que faz parte deste maravilhoso blogue, que é uma das minhas visitas obrigatórias.

Se andarmos com um carro que não seja topo de gama e sujo (mas mesmo sujo!), também ajuda a que não nos mandem parar... Pelo menos tantas vezes!

Gisele disse...

Um colega de trabalho teve 500 USD tirados direto da caretira... desde então só sai com motorista|

Anônimo disse...

Acho essa atitude dos guardas lamentável, ainda que sejam minoria países onde isso não acontece. Todavia, acho mais lamentável sabermos que políticos, apenas com canetadas, assaltam de uma vez só, mais que milhares desses guardas juntos.
chr