segunda-feira, 30 de junho de 2008

Quase todas as tardes, um pouco antes do Sol fugir para os lados do Mussulo, lá estava o Kota Kapipita, no quintal da sua casa, no Kazenga, rodeado de muitos pioneiros (crianças), a contar os momentos mais marcantes da História de Angola, mas o que mais o animava, era afastar aquelas crianças do crime, da prostituição e da droga. Ao princípio, eram só meia dúzia deles, que se agarravam às palavras do Kota. Eram miúdos que não deixavam de ir à escola, eram os que ainda iam tendo família. Mas de repente, começaram a aparecer muitos mais. Passavam palavra, mesmo os mais bandidos deixavam muitas vezes de ir ao crime, para escutar este nosso mais velho. Tinha outros, que marcavam presença, mas não ouviam quase nada, era a droga que lhes dava cabo. São crianças de rua, que vagueiam com toda a liberdade por Luanda, apanhando todos os vícios que uma cidade lhes pode proporcionar. São essencialmente produto da guerra, apesar de algumas terem ido para a rua a fim de ajudar a família. As idades variavam entre os oito e os dezasseis anos. Vivem debaixo dos prédios, nos largos do Kinaxixe e da Mutamba, dormem nos buracos de areia feitos nas praias da Ilha, nos quintais das casas degradadas, nos parques públicos, nos passeios da cidade. Circulam de lugar para lugar, nunca têm poiso certo. Há aqueles que dormem, trabalham, roubam e morrem, nos mercados do Roque Santeiro, Tunga Nhó, Asa Branca e outros. Ali fazem a sua vida. As suas necessidades são feitas onde calha, lavam-se junto dos canos rebentados ou nos charcos de água estagnada das chuvas.
Levantam-se cedo, aqueles que trabalham em alguma coisa, ajudam a transportar as compras das senhoras nos prédios e descem com o lixo para os contentores. Lavam os carros dos moradores. Com o dinheiro que ganham, comem alguma coisa, mas muitos gastam na droga. Preferem ir nos contentores, procurar restos de comida. Muitos deles viram bandidos, alguns até bem perigosos. O ambiente que os rodeia é o lixo, os buracos, os becos sem luz eléctrica, a fome, a prostituição e as doenças sexualmente transmissiveis.Não há vagas nas escolas, nem emprego que lhes garantam o sustento. Como é que querem que estas crianças sejam o futuro da Nação?

3 comentários:

Azoth Diamante* azul disse...

Fico triste porque Angola podia ser um paraíso.

F. disse...

Ainda pode ser, Azoth. Só precisa de um pouco mais de empenho de todos nós, de um pouco mais de pensamento coletivo em lugar de ganância.

Anônimo disse...

Que a leitura dessa postagem, mais que nos sensibilizar, nos remeta a uma reflexão e ação. Façamos a nossa parte, tal como o Kota Kapipita.
chr