domingo, 10 de agosto de 2008

Em contagem decrescente

Sempre vi as eleições em Setembro de forma positiva. Optimista de que os episódios de violência do passado não voltarão a acontecer. Qualquer um é unânime em concordar que o país precisa de paz para prosseguir com o crescimento económico, desenvolvimento, qualidade de vida dos cidadãos. Talvez este último seja o objectivo mais “esquecido”. Contudo, o acontecimento aproxima-se. 5 de Setembro foi a data escolhida e qualquer um está com muita expectativa. Angolano ou estrangeiro.

Vivo num condomínio em que sou a única estrangeira. Todos os outros vizinhos são negros, pertencentes a uma classe que eu não consigo identificar. Não são ricos nem pobres. Mas também não são classe média. Eu diria que são mais pobres do que ricos, segundo os meus padrões. Mas, são ricos o suficiente para terem água nos reservatórios, gerador, carros e comida na mesa. Num dos últimos fins-de-semana, houve festa numa das casas do condomínio. Ao que parece, um aniversário. Arrependi-me da minha opção em ficar em casa, nessa noite de Sábado. A festa prolongou-se até de madrugada com o DJ a esmerar-se na escolha das músicas. Para meu desespero já que tinha decidido ficar em casa para dormir cedo. Depois de chegar das compras, por volta das 10h da noite, vi que no meu lugar de estacionamento tinha outro carro. Não pedi para tirarem mas antes, para darem um “jeitinho” (à boa maneira do Norte) para que pudessem ficar os dois. O meu e o do convidado. O convidado, nitidamente bêbado, mandou-me esperar e voltou à festa, supostamente em busca da chave. Minutos depois, tinha-se esquecido do meu pedido e já dançava junto com os outros. Consegui resolver a questão de outra forma mas, confesso que não gostei da atitude. Esta história ilustra a minha verdadeira preocupação. Não tenho dúvidas que as eleições vão dar lugar a muita bebedeira, festa, comportamentos exagerados. E isso preocupa-me. Se até agora nunca tinha sentido desconforto por morar num local onde a minha casa é a única de “brancos”, nessa noite percebi que as “biricocas” podem desencadear episódios desconfortáveis mesmo em locais onde nos sentimos bem.

14 comentários:

reinaldojahjah disse...

SOU RECEM CHEGADO A ANGOLA, E ESTOU MORANDO EM BENGUELA. O PEQUENO DICIONÁRIO ME FOI UTIL, E JÁ GOSTARIA DE AJUDAR ENVIANDO MAIS ALGUMAS PALAVRAS:
Carrinha – Camionete
Motorizada – Motocicleta
Kandonga – Perua de lotação ( as famosas azulzinhas )

ATÉ MAIS

Uma Brasileira nas Arábias disse...

Migas,
Isso não é "privilégio" de Angola, não. Quando vou ao Brasil, sempre fico na casa de minha mãe e ela, coitada, deu um azar danado de ter um vizinho fanfarrão e mal-educado. Todo fim-de-semana eles resolve fazer festa por qualquer motivo e a música vai alta até 3h da manhã. Os vizinhos já chamaram a polícia várias vezes, porque ninguém agüenta mais, mas sabe o que acontece? A polícia entra e toma uns gorós também, aí fica tudo certo. Lamentável, porque é uma rotina difícil de agüentar: gente bêbada, barulhada, carros trancando a garagem da minha mãe... Parece um problema sem solução. :( Bjs.

F. disse...

Migas, também me preocupa muito essa questão da xenofobia. Já sofremos alguns pequenos atos isolados que mostram um certo racismo aflorado. Lembro-me agora de três: há algumas semanas, a P. protestou quando um jovem tentou furar a fila do pão. Ele foi para o final da bicha, mas começou a dizer que as eleições estavam chegando e que "esses pulas" iam ver o que é bom, que certos estavam os sul-africanos, que ele mesmo ia picar uns brancos com uma garrafa. Em outro episódio, no domingo passado, estávamos parados no trânsito do Roque Santeiro a caminho da Barra do Dande quando um bêbado fingiu atirar uma pedra contra o vidro do passageiro. A P. levou um susto e ele desatou a rir, mas chamou a nossa atenção que tenha feito a brincadeira apenas contra o nosso carro, dos pulas, quando havia centenas de outros parados como nós. Dois dias depois, a P.teve um pequeno incidente de trânsito quando conduzia a dorotéia, e a outra motorista desceu do carro transtornada, querendo agredi-la e xingando-a de "branca". Isso sem falar naqueles comentários xenófobos que andaram surgindo aqui na casa uns tempos atrás.
Lado positivo: no incidente do trânsito, os policiais acionados ficaram ao lado da P. e puseram a mulher no devido lugar dela.
Mas acho que precaução não será exagero perto das eleições.

Jean disse...

Prezada Migas,

Você é uma heroína!
Ser mulher já não é fácil num mundo machista, apesar da situação ter melhorado nos últimos anos. Coitadas das nossas avós...
Ser engenheira, numa profissão aonde a maioria é masculina,...
Ser branca num país aonde a maioria é negra...

Não me imagino com a tua coragem!!

Mas imaginemos ao contrário:uma mulher, negra, engenheira, vivendo numa sociedade aonde a maioria fosse branca. Será que a situação seria diferente? Aqui no Brasil não seria.

Um abraço,

Jean Claudi.

Fer Guimaraes Rosa disse...

Daniela, sua historia me lembrou outra, de uma uruguaia que foi visitar a amiga, estacionou na minha vaga e ainda ficou toda irritadinha quando eu fechei o carro dela, pois nao tinha onde parar, e fui atras de descobrir quem era a meliante.

Os americanos tem uma maneira bem efetiva de resolver esse tipo de problema: eles chamam a policia, e a policia vem e multa e reboca o carro do folgado.

super beijo! :-*

Anônimo disse...

Hum... Pois. Concordo com todos os comentários. E aqui polícia só tem olhos para condutores brancos. Isso é o que mais me preocupa.
Quanto aos resto, estou certo que irá correr tudo bem.

Anônimo disse...

Migas,
você acha que o descaso do homem do carro foi mesmo pelo fato de você ser branca? Será que isso não teria acontecido com qualquer pessoa?
Eu tenho certeza que se isso acontecesse no Brasil, sendo você negra, a reação teria sido bem pior. O mesmo com os casos que o F. relatou aí. Quem nunca ouviu algum brasileiro xingar alguém na rua de preto, com tom pejorativo e preconceituoso?
Talvez essa situação seja um exemplo de preconceito às avessas. Não é justicável, mas, infelizmente, há razões históricas, de séculos, que o explicam.
Eu tb. acho que é alarmismo conectar qualquer coisa que acontece com alguém bêbado com o que pode acontecer com as eleições. Ou vc. nunca viu um bêbado em algum lugar do mundo, qualquer que seja, fazer alguma bobagem no dia das eleições?
E acho que vale lembrar também que não podemos pegar uma meia dúzia de pessoas e tomá-las de "exemplo" como angolanos. A maioria da população angolana nao merece esse tipo de preconceito.

F. disse...

Eu concordo com o Anônimo, acho que os fatos que aconteceram comigo poderiam ter ocorrido em qualquer lugar do mundo, o que só prova que as minorias estão sempre sujeitas ao preconceito. A nós, brancos vindos de países de maioria branca, nos falta o costume de estar do lado das minorias. Também concordo que o episódio do carro poderia ter acontecido a qualquer pessoa. Tenho um amigo que vive sofrendo esse problema na porta da casa dele. Aí já é mais um problema de falta crônica de educação aliada à falta de espaço para estacionar.

Migas disse...

Oi Paty, mas festa fora de horas acontece em qualquer ponto do mundo sim. Também em Portugal. Contudo, em certos países existem regulamentos que proibem certo tipo de ruído a partir de certa hora. E isso, acho que ainda não está presente neste país.

Bem F., esses exemplos são bem duros. Complicado a P. ter de passar por essa revolta toda, não?

Nop Jean. Não sou heroína. Nem coisa que se pareça. E claro que concordo com o que dizes. Em momento algum eu disse que os negros não sofreriam. Talvez até sofram mais nos outros países do que nós sofremos cá.

Oi Fer! Pois, o problema cá é que nem sempre a polícia resolve os verdadeiros delitos (e atenção, isto não é nada! apenas um episódio menos simpático).

Anónimo (1): irá correr bem, concerteza! Mas penso ser natural, este tipo de expectativa. Quer seja por parte dos estrangeiros, quer por parte dos angolanos.

Anónimo (2): concerteza que isto poderia ter acontecido com uma negra angolana. A diferença é que ela saberia dançar muito melhor do que eu e entraria na festa! Quem falou em preconceito, relativamente ao angolano? Eu não fui? Foi você? E angolano "preto" a insultar o outro de "preto"? É preconceito? É racismo? Caríssimo, este post não se trata de um relato preconceituoso contra bêbados e negros mas sim, uma simples opinião sobre o que pode realmente desencadear pequenos episódios de volência e euforia. É uma opinião. Uma simples opinião. Nada tem de preconceituoso.

Anônimo disse...

Essa é a grande luta da humanidade pelo ABSOLUTAMENTE NADA. São muito pouco os países que colocam o respeito humano em primeiro lugar. Claro, muita coisa tem que ser considerada. Mesmo assim, tudo isso passa por uma vontade política de quem estar no poder, sendo imprescincível a honestidade, ética e justiça. Dessa forma, pode se dar ao povo a educação para o desenvolvimento de um espírito crítico, participativo e respeitoso. Isso é o que chamamos de Evolução Humanda.
chr

Jean disse...

Prezados colegas,

Acredito que todos almejamos o mesmo: um mundo com educação, com igualdade em todos os aspectos e, principalmente, com respeito à diversidade, seja ela cultural, religiosa, racial, sexual, política, futebolística, gastronômica etc.

Acredito que o relato da querida Migas, mostre-nos a real natureza humana, pois todos nós, acredito, pensamos, geralmente, só em nós mesmos ou nos nossos. E acredito também que, geralmente, não nos colocamos no lugar do outro. A gente não pensa no vizinho, bem como ele também não pensa na gente. Racinha humana difícil essa nossa, hein?

Um dia, oxalá, que todos pensem em todos...

Um abraço,

Jean Claudi

kianda disse...

miguitas ;-) , como sempre adoro a maneira como relatas as histórias...mas olha que aí o barulho também já está regulamentado e podes ligar para a polícia (não me lembro do número cento e qq coisa...) e muitas vezes eles vão acabar com a festa ... como tudo, ainda, em Angola - País rico com dificuldades - esses polícias também são corruptíveis. Mas eu ligaria (como liguei quando aí vivi)

fernando baião disse...

Eu penso que não tem nada a ver com a cor da pele, o que aconteceu. Em todos os lugares do mundo, quando há farra e copos, o comportamento das pessoas e a compostura alteram-se.Acredito que possa haver em Luanda, um ou outro "piropo" a tombar para o rácico, mas, apesar dos pesares, os angolanos que sofreram na pele o colonialismo, que foram escravos do homem branco, têm tido um comportamento de elogiar para com o expatriado. Agora que existe falta de educação por essa Luanda fora, ausência de algum civismo, é verdade, mas o povo angolano, para além da guerra de libertação teve uma guerra civil ainda mais sangrenta e por outro lado está independente há muito pouco tempo, ainda é uma criança.Por isso, Migas, sei que é sempre chato situações dessas, mas tenta compreender, sem ver fantasmas em todos os acontecimentos da vida social angolana.Kandandu muito forte

Migas disse...

Sim kianda, eu sei que existe o regulamento. Existem as leis. Mas agora diz-me lá, se achas que eu arriscaria em queixar-me à polícia sobre festa na vizinhança. Arrisco dizer que, quem acabaria por pagar multa era eu. Posso estar enganada, é certo. Mas acho que, nesse caso, virava-se o feitiço contra o feiticeiro. E já com muita sorte ando eu, por nunca ter sido parada no trânsito. Começo mesmo a acreditar num angolano que me anunciou como "senhora mestiça" eheheh

Sim Fernando. Falta de civismo há em todo o mundo. Minorias, também. Mas agora vamos lá ver se eu me faço entender. Onde eu vivo? Em Angola. Vou falar da realidade/sentimentos/coisas boas/más de onde? Da Indonésia? Do Canadá? Eh pá, é isso que certos leitores têm de compreender. Eu não conto histórias para deitar abaixo a cultura x ou y. Conto histórias da minha realidade de hoje.

Beijos