segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O que trouxe do Uíge #1

Parti de manhã bem cedo, com destino ao Uíge. Reformulo: parti de madrugada e, regressei à noitinha. A distância entre Luanda e Uíge é de cerca de 320kms. 320kms para cerca de 5/6 horas de condução. Cruzamos a província do Bengo com destino à província do Uíge. Curvas e mais curvas. Subidas e descidas. Mais curvas. E mais subidas e descidas. A estrada é perigosa, para quem não conhece. Em relação à qualidade... Bem, não sou propriamente a melhor pessoa para falar disso porque, seguia-se crítica na certa. Como alguém comentou neste post, “abrem-se estradas com os métodos do passado”. Não posso confirmar uma vez que a estrada se encontra praticamente concluída. Agora o carrossel de lombas e lombinhas numa estrada tão recente, indicia qualidade inferior... Oras, oras migas. Ficou prometido que só falavas do que de bom, encontraste na viagem! Além do mais, devagar se vai ao longe. Retomando.
A paisagem é magnífica! As árvores despedidas de folhagem. Em alguns casos, a paisagem vista da janela do carro, parecia um cenário montado para um filme do Tim Burton. Assustadoras árvores gigantes, interrompem o céu branco-cinza.
A selva. Os homens de catana na mão. Em dois casos, percebi que, a caça ainda fazia parte da subsistência dos habitantes. Um homem com um felino às costas, já morto. Para comer na certa. Um galinha selvagem, já morta também. Por diversas vezes pensei nos meus lamentos. Na minha falta de água. Na minha falta de luz. Ali não havia nada. Havia vida mas, não havia século XXI. E de cada vez que vejo isto, que vejo felicidade, que vejo dificuldades mas, sobreviventes, penso em como sou injusta e queixinhas.
A estrada rasga a serra. A paisagem muda de preto e branco em poucos quilómetros, para um verde intenso. A floresta densa, as plantações de bananas, de abacate. Os aldeamentos sucedem-se com meia dúzia de casas. Se é que lhes posso chamar casas.

A serra trará frio, no próximo post.

11 comentários:

fernando baião disse...

Foi por essas regiões que o povo angolano com armas na mão desenvolveu a sua luta armada e se tornou independente. Salazar, não quis dialogar preferiu que a sua juventude se afundasse numa guerra, que todos sabiam como ia acabar. Para apoiar os senhores da alta finança, os colonos das grandes roças de café, das empresas de diamantes, fez morrer e estropiar milhares de jovens portugueses, empurrados para uma guerra injusta. Terra bonita que visitaste, Migas, mas onde muito sangue foi derramado pelos jovens dos nossos dois países.O café recomeçou a crescer e já não vai ser pisado e torturado pelos pés dos nossos contratados( escravos da era moderna). Tudo começou a ficar mais verde, côr da nossa esperança num país melhor para todos os angolanos.Não percas o elan e continua a relatar as tuas deslocações ao interior, coisa que fazes tão bem.

septuagenário disse...

foi nessa região que gente honrada e trabalhadora de todas as cores e de qualquer idade e sexo foi chacinada pelo movimento de libertação da UPA, e que marcou todo o povo de Angola não só durante a guerra anticolonial, mas toda a futura história de Angola.

O que seria de Angola, hoje se em 1961, Salazar tivesse negociado qualquer acordo com a UPA?

Será que o próprio nome "ANGOLA" sobraria?

fernando baião disse...

Quem falou em acordo com a UPA, na altura, haviam várias correntes de opinião e foram apresentadas propostas ao governo de Salazar para uma autodeterminação das colónias.Na altura sopravam os ventos da liberdade em toda a África e os países antes colonizados começaram a tornar-se independentes.Se houve chacina, quem a provocou?Quinhentos anos de colonialismo, são muitos anos, ou não acham? Eu até não queria discutir política, queria só dar os parabéns à nossa Migas, que tem um dom especial em relatar coisas e nem sempre a favor "de nosotros", porque é objectiva e relata o que vê sem paliativos.Kandandu

Migas disse...

Obrigada pelos seus comentários, sempre tão motivadores, Fernando. Acho sempre interessante que sejam relatados os dois lados da história e, apesar de eu já ter ficado horrorizada com textos que li sobre a chacina no Uíge, não posso deixar de concordar que, tantos anos de escravatura ou, como lhe queiramos chamar, não deixam também de ser uma chacina. E esse lado, parece sempre difícil de se entender. Como todos sabem, eu não tenho qualquer ligação ao país nem nunca tive familiares cá ou noutro país africano por isso, vejo facilmente, os dois lados da história. E não tenho qualquer opção por um dos lados. Há coisas que percebo melhor, outras que nem por isso.

Há certos temas que, a ser discutidos, talvez não se consiga chegar a uma conclusão única e livre de dúvidas. Digo eu, que sou nova demais para perceber certos "causos" desta terra! :o)

Abraço aos dois!

kandanda disse...

Migas, você tem sido os olhos da minha distancia que me colocam "in loco" com uma acção que trago e moí a minha sobrevivência. Você é a repórter que data e circunstancia o momento mais acariciado pela minha memória. Sabe vivi dezasseis anos paredes meias com essas matas, nasci em plena picada, numa camioneta carregada de café seco e descascado que buscava descarregar em Luanda e que quis a ventura e a aventura da minha terna mãe que em plenas chuvas de Abril o semieixo partisse e eu aí, ao Km não sei quantos, viesse à luz e ao ar desse frondoso matagal, verde clorofila que não existe na Europa.
Este é o passado que me interessa...todo o resto é o curso da história da Humanidade!

Anônimo disse...

Kandanda, minha conterrânea do Songo, no distrito do Uíge: se me permite, faço minhas quase todas as suas palavras! Só não nasci na picada, foi em casa, e recebida por quatro mãos africanas que me deram as boas vindas a este mundo, as do médico e parteira que em 1952 ajudaram minha mãe no parto.Até hoje essas personagens fazem parte do meu imaginário e estou-lhes eternamente agradecida. A colonização portuguesa teve coisas muito más e outras muito boas. Nos países limítrofes de Angola, colonizados por outros, seria impensável na década de 50, eu ter tido o privilégio de ter sido acolhida pelas abençoadas mãos a que me referi. Talvez "sinalizada" por esse facto, o meu primeiro namorado era negro. Coincidências...ou não! Talvez apenas consequência da vivência diária, em casa com os trabalhadores e nos bancos da escola partilhados com meninos de vários tons de pele...eu não via cores, só pessoas...Mas eu sei, que a geração que me antecedeu errou muito! Azar! Agora eu podia estar a desfrutar de todas a maravilhas que Angola tinha (e tem!), e, sobretudo, do contacto com o seu povo afável e puro. É esta a imagem que conservo e preservo, Angola majestosa no esplendor da sua natureza e na humildade do seu povo. Para a Migas, o meu muito obrigada pelas "notícias" da minha terra, desde que soube que ia lá, venho aqui todas as noites e bebo cada palavra sobre o tema.
Boa estadia a todo(a)s que estão de passagem por Angola e muitas saudades à minha gente do Uíge.

Manuela Pires

Reflexos disse...

Tive uma amiga, que nasceu em Uige... veio embora, claro, em 76. Falava dessa terra com muita emoção!
Agora não sei dela... provavelmente voltou para lá.. era o sonho dela. Espero que se sim esteja bem e feliz!

Migas disse...

E tudo o que escrevemos faz sempre mais sentido se os textos forem acompanhados de opiniões, memórias, saudades, alegrias ou episódios guardados no baú "a esquecer". É muito bom termos a vossa opinião por aqui, Kandanda e Manuela Pires! Sobretudo, tratando-se de opiniões tão positivas sobre a terra que vos viu nascer e crescer, até determinada altura da vida! Gostei de ler estes comentários! :o)

Beijo a todos

Uma Brasileira nas Arábias disse...

Migas,
Seus textos são sempre meigos e uma delícia de serem lidos! Adoro!
E as paisagens são lindas! Estou gostando de conhecer outros lugares de Angola através dos olhos da Casa. Bjs. Paty

Bibbas disse...

Conheci uma mulher em Luanda, do Uige que ficará para sempre na minha memoria. Ela é a Gina. Uma mulata linda de cabelos lisos com cor de cafe. Mulher forte, empresaria e mãe de muitos filhos. Quando a UNITA entrou na cidade, ela fugiu com o seu amor, protegendo-o, pois este era do M. Ela como era do Uige e conhecia os cantos da terra e conduzi-o para a libertação. Viveu momentos horriveis que a maioria das mulhers devido a sua vulnerabilidade vivem num clima de guerra. Deu a luz na mata sozinha a um bebe. Por fim chegou a Luanda e tentou esquecer os horrores da guerra. Foi deixada pelo seu então amor, pois este nunca deixou mulher. Ela voltou ao Uige, e como muitas outras esta a trabalhar na reconstrução da sua terra. Eu fui ao Uige trabalhar e fui procurar a Gina...e lá estava ela, sempre energica, trabalhadora...e como mais filhos...Do Uige lembro-me bem do cheiro a terra molhada, que esta bem entranhado na cidade e arredores...e da Gina é claro!!!

carla figueiredo disse...

procuro todas as pessoas da minha faixa etária,tenho 48 anos,sou carla,neta dum dos pioneiros de Angola,o velho josé Basso figueiredo,que felizmente morreu em terras do Songo,pois que iria morrer aos poucos se tivesse que ter deixado para trás o seu querido e amado Songo...pena os nomes não os reconheço,a não ser o meu querido Albano que me saltou logo à vista...saudações a todos...o meu mail carlafigueiredo30@hotmail.com os meus blogues carlaffcosta.blogspot.com;gostocomidafricana.blogspot.com;carlinha62.blogspot.com....cá vos espero...