quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sinopse de uma Ópera Africana

A Ópera que agita Luanda estes dias envolve atores internacionais de peso, suas posições ou omissões, e um navio cheio de armamento. Infelizmente, não está em cartaz, com portas aberta ao público. É encenada principalmente a portas fechadas, em gabinetes refrigerados. Mas tem ingredientes suficientes para gerar uma crise – ou no mínimo um mal-estar – internacional.

Atores principais:
Zimbabwe – Realiza, em 29 de março, eleições presidenciais diretas, mas ninguém sabe o resultado até agora. O ditador Robert Mugabe, no poder há 28 anos e que só aceitou o pleito por causa das pressões internacionais, teria sido derrotado mas se recusa a aceitar o fato. Dois dias depois da votação, ele compra armas no mercado internacional.

China – Parceira comercial antiga de Mugabe, vende lançadores de granadas, morteiros, 3 milhões de munições para fuzis AK-47 e armas de pequeno porte ao ditador. Embarca tudo no navio Na Yue Jiang com destino à África.

Enredo:
Primeiro Ato
– O navio chega a Maputo, capital de Moçambique, e é proibido pelo governo daquele país de atracar. Dirige-se a Durban, na África do Sul. Atraca, mas os trabalhadores sul-africanos se recusam a descarregá-lo.

Segundo Ato – O navio parte para Luanda e atraca. A primeira informação oficial diz que ele voltará para Pequim com as armas. Dois dias depois, porém, a autoridade portuária divulga nota dizendo que alguns containeres com material de construção destinados a Angola serão descarregados.

Terceiro – Trabalhadores do porto informam que seis containeres já foram descarregados. Eles, porém, não sabem o que continham. O material teria sido levado para o Gabinete de Reconstrução Nacional, órgão vinculado à Casa Militar da Presidência da República – que em nota oficial desmente a autoridade portuária e sustenta que nada foi descarregado.

Neste ponto, surgem dois novos atores até então fora da trama:

Angola – Desde o fim da guerra civil, em 2002, recebeu 5 bilhões de dólares em empréstimos chineses para a reconstrução do país. É hoje o maior fornecedor de petróleo da China e o comércio bilateral entre os dois países ultrapassa os 8 bilhões de dólares por ano.

Organização das Nações Unidas – Encerrou, no dia 30 de abril, o mandato da Comissão dos Direitos Humanos em Angola, a pedido do governo, descontente com relatórios produzidos pela comissão. Diz, na sua carta de criação, que tem a finalidade de promover a tolerância e a convivência pacífica entre os países, entre outras coisas.

Último ato – Organizações Não Governamentais de direitos humanos tentam forçar o governo a mostrar o conteúdo dos containeres. Pedem apoio da ONU. O governo angolano continua negando que eles tenham sido descarregados. No prédio da ONU, todos os representantes oficiais se recusam a comentar o caso. E a Comissão de Direitos Humanos não pode se manifestar, já que perdeu seu mandato.

Desfecho – Ainda está por ser escrito, a espera de que ONU e Angola decidam se pretendem entrar para história como coadjuvantes da guerra, ou como protagonistas da paz no Zimbabwe.

10 comentários:

fernando baião disse...

è uma ópera wagneriana.Política é política, mas não deixa de ser uma grande tuji(merda).Já se esqueceram da Costa do Marfim e do Quénia, onde morreram milhares e milhares de pessoas por causa das politiquices, o que lhes interessa é o aspecto material, o lado humano que se lixe.Apoiar nesta altura um lider gagá, como o Mugabe, não lembra o diabo. Tá tudo doido, mas não acredito que a ONU resolva alguma coisa. Vão dizer, estão em àfrica, os pretos que se entendam.

Fernando Baião disse...

Para tornar mais agradável tudo isto, aí vai uma passagem bonita, que eu li não sei aonde, sobre Angola, onde nem tudo é política suja:
"A minha terra cheira a flores de mamoeiro e maracujá; ao longo do ano, no Cacimbo e na Estação das Chuvas, os dias e as noites duram quase as mesmas horas. O Sol levanta-se e é logo dia, o Sol deita-se e é logo noite, não hesita, como noutras paragens, durante o Verão,a acordar e a adormecer aos poucos, parecendo não saber ao certo o que fazer..."

F. disse...

Fernando, pelas últimas informações que tive, o barco vai descarregar só material destinado a Angola, na segunda-feira. Mas há quem diga, a boca pequena, que as armas já entraram no país e vão ficar por aqui mesmo. Mujimbos...

fernando baião disse...

É isso aí, meu irmão. De mujimbo tem nada, esteve no País um emissário do Mugabe, por alguma coisa foi.

Paty disse...

Oi, F.

Tenho acompanhado esta história e tenho algumas dúvidas. Li em algum lugar, acho que foi no Globo, que o armamento teria sido comprado antes das eleições e encomendado à China há sei lá quantos meses. A informação confere?
E que a oposição venceu com 47% contra 43% de Mugabe, o que vai levar ao segundo turno. Mais confusão à vista?
Espero que esteja tudo bem com vocês por aí e que isso se resolva de uma forma menos autoritária. Um bom fim-de-semana pra vcs.
Recadinho para a P.: recebi um retorno do cadastro da UN. Estou preenchendo. Vou escrever um e-mail pra ela com updates. Diz que mandei um bj.

F. disse...

Oi Paty,
Dizem que as armas foram compradas há muito tempo. O estranho é que a China decidiu enviá-las dois dias depois do resultado eleitoral... A oposição lá não está aceitando esse resultado que levaria para o segundo turno e que só foi divulgado agora.
Você está no Brasil?
Bjs

Paty disse...

Estou não... Voltei pra Bahrain.
Eu achei coincidência demais o navio com as armas chegar justamente agora, mas não custa nada perguntar a vcs que estão mais por dentro, né? :)

fernando baião disse...

Desmentido daqui, desmentido dali, a verdade é que sairam vários contentores do Porto de Luanda.Não me admira nada que alguns deles estejam com as tais munições de AK47 e outras armas ligeiras.Se calhar nunca iremos saber o que realmente se passa, mas que nos deixa desconfiados, é verdade que deixa.

fernando baião disse...

Em aditamento ao comentário anterior, o Presidente angolano,recebeu a Subsecretária de Estado para os Assuntos Africanos americana, Sra. Jendayi Frazer, garantindo que o armamento do navio chinês não seria descarregado em nenhum porto angolano e que não estava de acordo com "os jogos de bastidores" que o Sr. Mugabe fazia para alterar o resultado das eleições zimbabueanas. Esperemos que sim.

F. disse...

Pois é, também conversei com uma fonte que me garantiu que nada foi descarregado do navio até agora. Ele iria atracar amanhã, mas o governo garante que só vai descarregar material para Angola e que as ONGs de direitos humanos poderão acompanhar a operação...