quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Histórias de Supermercado

Parte I
O homem angolano, simpático e falador pergunta à moça:
Homem - quanto custa cada pão.
Moça - tem de pesar.
O homem coloca dois pães no saco. Eram o equivalente a pães de água, com aspecto rústico, compridos. Cada um, daria uns 3 pães pequenos.
A moça pesa e diz o valor.
Moça - são 1030 kwanzas.
Homem - hã? Estás a brincar comigo?... Ok, desta vez deixo passar.
A moça, nas calmas, demora no troco e o homem reclama. Estava com fome.
Arrisco dizer que o homem teve vergonha de negar porque eu estava ao lado. Confesso que também já caí nessa “roubada” e, tal como ele, também tive vergonha de recusar. Ahahah Mas 1030 kwanzas por dois pães??? É de aproveitar todas as migalhinhas!!!
Nota: 1000 kwanzas são cerca de 13 dólares ou 10 euros.

Parte II
Na saída, sou abordada por um garoto. Bem pequeno. Menos de 10 anos. Quer dinheiro para comprar pão. Converso com ele.
Eu: mas não devias estar na escola?
Ele: sim, mas a professora está doente.
Eu: hummm...
Aproximam-se mais três, a pedir o mesmo: dinheiro para o pão. Continuo com a sacola na mão, a caminhar para o carro.
Eu: e tu, também és pequeno. Não devias estar na escola?
Ele: eu vou. É só às segundas.
Eu: hã? Só às segundas?
Ele: sim.
Eu (entre-dentes): deves aprender muito...
De regresso ao carro, eles esperam que eu dê o “dinheiro para o pão”. Fecho a porta. Cuidado com os dedinhos, acrescento. Dou-lhe dinheiro para o pão. Várias notinhas. Eles, de sorriso rasgado e aos pulos dizem: obrigada, mãezinha. Já com o carro em andamento, vejo que contam as notas para dividir por todos. Espero que já tenham aprendido a dividir. Mesmo só com aulas às segundas-feiras.

Eu não costumo dar dinheiro a estes garotos que assim arranjam uma boa desculpa para fugir aos deveres da escola. Mas, estes eram tão pequenos, sujos e magrinhos que não havia como recusar. Angola tem definitivamente de encontrar solução para as crianças, para os deficientes pela poliomielite e para os “malucos” que passeam pela cidade, sem destino, sem casa, sem nada.

6 comentários:

F. disse...

Migas, pelo preço do pão e pelas crianças na porta, me arriscaria a dizer que tu fostes ao Martal!

Outro dia, lá, peguei um pão, um único, e na hora de pagar a moça me mostrou a catana: Kz 670! Não tive a menor vergonha das moças na fila. Devolvi na hora.

Com esse dinheiro dá quase pra almoçar no Panela de Barro, do outro da avenida.

Bjs,

Migas disse...

Ya F. É esse. Quando fui eu, trazia um pão francês que também não valia o que custou mas, foi apenas 250kwanzas... E eu com umas notitas de 10kwanzas na mão, à espera que chegasse... ahahahah

Eu trabalho perto F. :o) Quando o M. vem à cidade também almoço na Panela de Barro. Caso contrário, sozinha, fico-me mesmo pelo escritório... :o)

F. disse...

Que coisa Migas, eu estava a trabalhar na rua em frente ao Martal até o mês passado... Vivia tomando cafés no 3 em 1! De certo já nos encontramos alguma vez sem saber... hahahaha

AP disse...

Assim sendo certamente já nos encontrámos algumas vezes sem saber, há uns meses atrás eu também ia imensas vezes ao 3 em 1!

Migas disse...

AP, tu também podes aparecer no nosso encontro. Vê os comentários do post abaixo. Estamos a combinar um encontro para o próximo domingo à tarde. Mais informações, contacta-nos por e-mail. :o)

Lilás disse...

Meu Deus, tudo isso por 4 pães!!!

O Brasil não é nenhum país tão melhor, mas pelo menos isto estamos conseguindo debelar, pelo menos nos grandes centro.

Venho aqui visitá-los para aprender mais sobre este povo querido e ao mesmo tempo me conscientizar de como estamos por aqui. Em certos momentos somos muitos iguais ainda e noutros já demos uma salto.

Espero, de coração, que os angolanos venham a ter dias mais justos.
beijo carioca