sábado, 20 de setembro de 2008

Sobre "por quês" e "ses"

Logo depois que o susto baixa, a sensação de impotência lhe invade com um pensamento místico de que você poderia ter evitado tudo. Estava nas suas mãos. A primeira fase é a dos "por ques":

Por que o carro não estava lá, parado na porta, para nos levar depois do fim do expediente?

Por que nós não ficamos a espera do carro dentro do saguão iluminado e protegido do prédio?

Por que carregávamos nossas pastas com nossos portáteis pessoais e todo o equipamento fotográfico pessoal do Greg?

Por que, ao ver passando por nós os dois homens que à partida julguei estranhos, não sugeri que recuássemos da rua para o saguão do prédio?

Por quê?

A fase seguinte do pensamento místico é aquela em que você imagina que poderia ter mudado o desfecho "se" tivesse tomado atitudes diferentes:

E se eu tivesse reagido?

E se eu tivesse ficado ao lado do Greg em lugar de correr quando vi as pistolas apontadas na direção dele?

E se, ao correr, eu tivesse gritado por socorro? Alguém teria acudido?

E se, ao ver os dois homens caminhando calmamente com a mochila do Greg nas costas, eu tivesse corrido atrás deles fazendo alarde no meio da rua movimentada?

Nada disso eu fiz, paralisado pelo susto. Ainda pedi ajuda aos donos da venda que fica no térreo do prédio, mas ninguém se arriscou a tomar atitude. Eu olhei para fora e vi meu amigo Greg voltando desolado para dentro do prédio.

Ele acabara de perder todo seu equipamento fotográfico num assalto à mão armada, às 19h30 da sexta-feira, 19 de setembro, em plena Rua Rei Katyavala, região central de Luanda.

8 comentários:

fernando baião disse...

Como angolano estou desolado.Não é que não existem cenas destas noutros países, mas quando toca a nós, aos nossos amigos,fico muito triste. Nessas alturas, é melhor não reagir, com pistola na mão ou arma branca o melhor é ficar quieto, bandido acossado é ainda mais perigoso.A polícia em vez de patrulhar as ruas, anda de certeza a festejar as eleições!!!São festas e mais festas, policiamento malé!!! Greg, fica calmo, estamos contigo.F. solidariedade convosco é bwé.

Anônimo disse...

F., o importante é que você e o Greg estão bem. O equipamento, muito importante, pode ser reposto. É um experiência de vida que remete a uma reflexão. Claro, ocorre em qualquer parte do Mundo. Pena que Angola esteja trilhando esse caminho e daí para frente os passos são rápidos. Um povo que passará, desnecessariamente, pela estrada cansada e já trilhada por tantas nações que buscam se reorganizar após períodos turbulentos.
Nunca estaremos preparados pela situação vividas por você, uma vez que o efeito surpresa sempre será adversário. Entretanto, temos que estar condiconados para jamais reagir, uma vez que não somos treinados para a violência. Você sabe, temos exemplo vivo aqui em casa, momentos difíceis, e graças a presença de espírito do Guto, hoje, ficou apenas o registro de uma experiência desagradável que nos ensinou muita coisa. Era uma prova a ser vivida. Respire fundo e toca em frente, vocês estão protegidos por nossas Energias amigas.
chr

Anônimo disse...

F;vc já estava acostumado a acreditar numa Luanda desarmada, inocente, assistencialista, carente de mudanças culturais e sociais .Vcs sofreram um ataque/surpresa, daqueles que nunca passou pela cabeça que iria acontecer nessa até então"inocente" Luanda.O equipamento é o que menos importa. Foi uma experiência importante para tomada de novos caminhos.Continuo pedindo com fé que os anjinhos da guarda os protejam como tb iluminem o caminho desses pobres de espírito que só querem o fácil .Beijões RD

Anônimo disse...

Caro F., e outros moradores.
Realmente, foi um baque, mas não vamos deixar esse episódio fazer com que percamos a esperança diária de levar de Angola uma lembrança muito boa, para sempre, nos nossos corações.
Em breve o nosso bravo Greg voltará a clicar essa paisagem humana com a mesma alegria da chegada.
abs em tdos
X

F. disse...

Amigos, obrigado pelo apoio. Estamos bem, isso é o que importa, e agora mais atentos do que antes. Como nunca tinha presenciado nada desse tipo, eu tinha a sensação de estar aqui mais seguro do que nas cidades brasileiras, mas agora cai um pouco mais na real. É tocar o barco, de olhos abertos. Abs.

Migas disse...

Bolas! Este é do tipo de situação que achamos que nunca acontece connosco. Devo dizer que, em dois anos de Luanda, nunca fui assaltada nem tão pouco senti que o ia ser. Contudo, recentemente, percebi que tenho tido sorte. Por razões profissionais ando por sítios perigosos e, onde até certos homens não conduzem sozinhos... E ficaram admiradíssimos por eu o fazer... Ora, se um dia me acontecer o mesmo que, tristemente aconteceu a voces, quer-me parecer que vou recuar nesta minha valentia. Força para todos! :o) É preciso ter mais cuidado mesmo!!

Abraço

Lilás disse...

Sinto muito pelos amigos, pois realmente é coisa de deixar a gente descontrolado mesmo.

Entretanto, vejo que a violência cresce e não tem barreiras, nem mesmo no Primeiro Mundo, pois saibam que uma bala perdida, esta semana passada, atingiu um rapaz brasileiro de 24 anos no olho, deixando-o cego.
Ele fazia intercâmbio da língua inglesa no Canadá na cidadezinha linda e tranquila de Calgary.
Foi um choque para os canadenses e até mesmo para nós, brasileiros, acostumados à tanta violência, mas vejam só como a "coisa" é crescente e ultrapassa barreiras.

abraço carioca

Uma Brasileira nas Arábias disse...

Poxa, F. Que coisa ruim. Eu pensava que aí era mais calmo... Quer dizer, ainda tenho esta impressão, mas ficaria sempre "com o pé atrás" depois desta. Saúde pra vcs. Pelo menos, nada de mal lhes fizeram... :(