quinta-feira, 17 de abril de 2008

Carta aberta a um anônimo

Recebi um comentário indignado de um anônimo e achei melhor publicar a resposta com mais visibilidade, para que não restem dúvidas sobre as motivações deste blog. Quem quiser, pode ler o comentário aqui. A seguir, a resposta:

Caro anônimo,

Lamento que te tenhas ofendido. Ao que me parece, não compreendestes bem o intuito deste sítio. Claramente, como o entenderam os outros leitores, inclusive os angolanos, não é o de atacar ou desmerecer o país. É antes o de mostrar uma realidade que está escondida, fora da mídia, e que pelo tamanho e riqueza de Angola, não deveria continuar a existir.

Tu deverias antes indignar-te com a existência dos problemas aqui mostrados e não com quem os mostra.

Ou achas natural que 70% da população do teu país viva abaixo da linha miséria (dados do PNUD) para que outros 30% dirijam os jipes mais caros do mundo pelas ruas? Achas mesmo bom que tanta gente, em pleno século 21, viva sem energia elétrica, sem saneamento básico, sem coleta de lixo e sem água tratada?

Nunca me esquivei de mostrar os problemas do Brasil quando lá vivia, em outro blog semelhante. E se hoje cá vivo, quero fazer parte, ainda que de forma tímida, do esforço para melhorar as condições de vida de todos os angolanos – não apenas dos poderosos. Na minha opinião, o fato de não ter cá nascido não me tira esse direito.

O primeiro passo para resolver problemas, meu caro anônimo, é admiti-los. Fingir que eles não existem é perpetuá-los.

12 comentários:

Susana disse...

Ola,conheci o vosso bolgue atravez de um blogue de culinaria o mingas com gindungo.
Sou uma portuguesa que nasceu em angola e sai da minha terra com 18 meses portanto nao me lembro de nada,apesar disso tenho muito de angolana,mais que o meus irmaos que sairam daí com 6 e 8 anos.
Tenho muita vontade de voltar, mas....o que vou conhecer não é nada do que a minha familia descreve!!!!
Com o passar dos anos vou percebendo por que é que todas as pessoas que viveram ai ,não fazem questão de voltar, preferem as lembranças do antigamente.
Adrorei o blog e voltou voltar.
Um beijinho

Anônimo disse...

F. realmente é isso, nosso amigo anônimo não percebeu a importância da tomada de consciência da miséria, seja brasileira, angolana, cubana, russa, americana e onde mais existir. É uma responsabilidade ética e humana buscar revolver as situações mal resolvidas e que redundam em discrepâncias sociais com miséria degradantes. Que ele entenda o verdadeiro intuito do blog, fazer as pessoas se movimentarem em torno de uma causa que busque a justiça e o direito de uma vida digna.
CHR

kianda disse...

Como já tive oportunidade de dizer em algumas mesas de conversas, concordo, concordo 100% que o facto de alguém não ter nascido num País não lhe deve retirar o direito a opinar, criticar, eventualmente até votar ou mesmo governar ... estamos numa era de globalismo, de o globo cada vez mais sem fronteiras e devemos todos ter o direito de participar nas sociedades que escolhemos para viver

flavia disse...

Anônimo,

O blog demonstra muitas coisas bonitas de Angola também. F e P assim como eu gostamos muito de morar em Luanda. Tenho muitos amigos angolanos e entendo a sua indignação. Na verdade Brasil e Angola têm muitas coisas em comum, e o pouco que conseguimos melhorar no nosso país vem através da auto-crítica. Nos queixamos, discutimos as nossas falhas para que consigamos melhorar. Angola é um país muitíssimo mais rico que o Brasil e o que nos dói é a injustiça social. Na verdade nos expomos aqui em troca de nada, apenas porque sonhamos que Angola assim como o Brasil merecem melhor igualdade social. Nos perdoe se não fizemos nos entender.

Migas disse...

Não posso deixar de comentar. Pelo que percebi, este blogue tem pouco tempo, assim como a vossa estadia cá também é recente. É natural que as primeiras coisas que saltem à vista sejam as más. Acho inevitável. Por isso é normal que as primeiras coisas que apareçam por aqui sejam em maioria, as menos boas (eu já vi por aqui posts bonitos também!!). Para mim, não é normal não ter água ou luz. Mas isso porque venho de uma cidade que não tem esses problemas. Contudo acho que em Portugal ainda existem pequenas aldeias onde isso acontece, apesar de parecer absurdo. Aqui já aprendi a viver com essas limitações. O que quero dizer é que estes posts talvez retratem estas emoções iniciais de quem está num país estrangeiro com as limitações que todos sabemos que existem. Com o tempo, acredito que as coisas bonitas vão surgir: as fotos, as paisagens, as pessoas. Não me parece que este seja um blogue de "dizer mal". Nem pensar. Eu não faço ideia se o leitor veio do meu blogue, no qual eu aconselhei a visita a esta Casa de Luanda. O meu conselho foi sobretudo porque eu recebo alguns contactos ou comentários de pessoas que não conheço e que por vezes me pedem opiniões e conselhos sobre este país que me acolheu. Eu não mostro a realidade no meu blogue, porque não é o seu âmbito. Aqui, assim como em alguns que visito, acho que essa realidade existe. Porque a realidade não é feita só de coisas boas, em nenhum país. Para além disso, acrescento que, nem toda a gente que aqui está, vem pelo dinheiro. Se essa fosse a única e principal razão, eu não via os meus amigos a partir de volta a Portugal. Tantos... E mesmo que assim seja, não me acredito que essa seja uma má razão. Eu costumo dizer a quem trabalha comigo: cabe aos angolanos que isto seja dirigido por vocês, no futuro. Se Angola não tem o número de economistas ou engenheiros que precisa, porque não pode "importar"? E ninguém (ou pelo menos, pouca gente), trabalha longe da sua família e amigos, sem ter contrapartidas. O importante é que daqui para a frente, Angola forme o número de economistas e engenheiros necessários para continuar a caminhar. Mesmo que tenha como "professores" portugueses, brasileiros, sul africanos...
E agora, pergunto: será que os angolanos que foram para Portugal, e continuam a ir, acham aquele país perfeito? Será que não falam ou escrevem sobre os defeitos desse país que os acolheu?

P.S.1 Anónimo, eu fui das que vim para cá sem ter o dinheiro como principal motivação. Vim por amor e por aqui ficarei, enquanto o meu querido assim o desejar. Sou feliz em Angola. Contudo, tenho uns óculos cor-de-rosa que penso que os donos desta Casa de Luanda, ainda não conseguiram comprar! Vá lá Anónimo, menos revolta! Bora "ensinar" os donos desta Casa de Luanda onde comer um mufete e beber umas biricocas e aproveitar o que isto tem de bom, ok?

Paty disse...

F. e P.,
Nao pude deixar de comentar desta vez...
Acho que voces sempre falaram de uma forma muito correta sobre as diferentes situacoes que tem vivenciado em Luanda.
As pessoas deveriam aproveitar a oportunidade para debaterem o assunto, sem que para isso facam uso de argumentos emotivos. Obvio que todos nos amamos a nossa casa, pois e o nosso berco, e a nossa patria. O mesmo se aplica para Brasil, Angola ou qualquer que seja o pais de onde viemos.
Obvio tambem sao os problemas do Brasil, mas o foco deste blog e relatar a experiencia de pessoas em Angola, e fico muito feliz por poder ler os seus relatos, sejam eles positivos ou negativos, pois ate agora vcs tem sido os meus "olhos" em Luanda.
Neste blog ha posts mostrando os dois lados da moeda e se alguem se ofende por ler o que esta escrito aqui, tem duas opcoes: fechar os olhos e ignorar a realidade, ou se engajar e discutir de uma forma saudavel uma forma de tambem ajudar.
Bom, e isso. Ao anonimo, sugiro um pouco de maturidade para reconhecer as deficiencias do seu pais (assim como reconhecemos as do nosso tao amado Brasil), para atraves do reconhecimento, possa ajudar no processo de mudanca e reconstrucao de sua tambem amada Angola.

F. disse...

Caros CHR, Flávia, Paty, Kianda, Migas e Suzana, as manifestações de vocês mostram que eu não estava errado ao dizer que nossos leitores entendiam o objetivo do blog.
Suzana, não acho que devas voltar por causa dos problemas que existem e que mostramos aqui. É justamente por existerem essas questões que nossos esforços são mais necessários. Kianda, apoio totalmente sua manifestação e acho que é hora do mundo pensar em abolir passaportes. Migas, como bem dissestes, ainda sob o impacto do choque, encontramos coisas bonitas neste país. Mas te adianto que mesmo que estivesse já aqui há 10 anos, ainda assim continuaria a apontar os problemas e a lembrar que eles existem. Nasci no Brasil, vivi a vida toda lá e continuava a fazer isso pela necessidade de denunciar iniquidades.

Celina disse...

F., certamente o anônimo autor do comentário não leu o blog completamente, caso contrário perceberia que vcs estão mostrando os dois lados de Luanda.
De certa forma, entendo o lado dele, sou um pouco nacionalista também e não gosto quando estrangeiros falam mal do Brasil. No entando, é óbvio que todos têm o direito de opinar e, principalmente, de externar os seus pensamentos.

F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
F. disse...

Celina, cê devia ficar muito brava comigo então quando eu falava mal de São Paulo na Casa da Lagoa, né...

jotabloguer disse...

OLá: Cheguei até este espaço por "sugestão" da Migas com Jingungo e não dei o tempo por mal utilizado! E comentando este post, concordo inteiramemte com as tuas palavras sobre a vivência angolana! É a falar de mente aberta que as coisas se resolvem para melhor, claro! O silêncio e o medo só levam a cobardias! Por isso não pode haver melindres!Claro que desigulades sociais as há em todo o mundo, mas pelo menos devemos com a nossas cidadania, combatè-las com elevação e sem sofismas!
Jorge madureira

Don Rodrigone disse...

Eu fico um mês sem aparecer e esse blogue já gera paixões e discussões profundas do outro lado do Atlântico! Estou me deliciando com tudo que leio por aqui e, pra variar, tudo continua excelente!