quarta-feira, 16 de abril de 2008

Pequeno Dicionário Angolano (II)

Nosso pequeno dicionário angolano nasceu tímido, mas começa a ganhar consistência. Graças principalmente à colaboração dos nossos leitores.

O Rodrigo, que cá está a viver desde julho de 2007, deixou um comentário com 24 termos de uso corrente. Clique aqui para conferir.

A palavra que segue nos foi ensinada pela nossa leitora Flávia, antiga colaboradora deste sítio.

Pica - Flávia estranhou na primeira vez em que viu uma criança apavorada dizendo: "A pica não, mãe, a pica não!" Pica, em português de Angola, é injeção, vacina, ou qualquer tipo de exame que exija o uso de agulhas. Quando você suspeita que contraiu malária, por exemplo, toma a pica. E ainda paga cerca de 8 dólares para isso numa boa clínica privada.

16 comentários:

Wangbu disse...

Olá! I Wangbu. Estou das Filipinas. Você tem um belo blog. Estou tão feliz de visita.

Viver em Luanda disse...

Caro F.,

Ler sobre as palavras e expressões é sempre bom para aprender... o duro é quando lhes são ditas em tom coloquial como aconteceu comigo e com o meu motorista...

Ele estava atrasado para me buscar em casa pela manhã e ao atender ao meu telefonema foi logo se explicando:
- Kota, me aguarde pois estou a levar uma pica no rabo e logo estarei ali...

Quando finalmente ele chegou eu lhe disse que se fosse no Brasil sua fama de angolano estaria muito prejudicada se outros ouvissem aquela frase...

Ele ficou meio cabreiro e lhe expliquei qual era o significado daquilo que me havia dito no nosso português do Brasil, e misturando com o idioma local lhe disse:

- No Brasil, pica no rabo... isso é coisa de paneleiro.

Paneleiro aqui é como eles chamam os homossexuais...

Saudações,

Hélio

Migas disse...

Viva! :o)

Vi o seu comentário lá no MCG e vim conhecer a sua "casa de luanda!! Já li quase todo! Gostei muito! :o)

Quanto aos nomes diferentes de pão, como vê pelos comentário do post, não há ninguém que comprove isto. No meu trabalho, contacto directamente com angolanos que usam calão e nunca ouvi estes nomes. O brasileiro que me contactou disse-me que entrou num forum angolano e que lhe deram estas informações. Como ninguém repetiu isto até agora, tenho as minhas dúvidas de que sejam verdadeiros. Eu estou cá à cerca de um ano e meio e já tenho ouvido coisas engraçadas. Para além dos termos que o Rodrigo referiu e eu já conferi (conhecia quase todos) vou acrescentar alguns. Com o tempo passarei a informar sobre os que me for lembrando:

parte-os-cornos: camisa de mangas cavas
comida fofa: bolo ou pão, com leite
desconseguir: não conseguir
tá a bater: tudo bem (resposta à pergunta "tudo bem?"; tá a bater significa que, se o coração bate é porque está tudo bem)
jiboiar: descansar (dormir) após o almoço
cabrité/frangalhada: churrascos na rua (cabrito e frango)
dama/mboa: mulher/esposa, namorada

Quando me lembrar de outros volto cá! Ou então, sempre que ouvir novidades! :o)

Posso fazer um post lá no MCG sobre o vosso blogue (com link)? Porque eu às vezes recebo e-mails e comentários de pessoas que gostavam de viver cá (alguns têm origem angolana mas vivem noutros países e outros eu acho que só ouviram mesmo falar) e não imaginam as dificuldades que este país tem. Angola não é do tipo de pais que se vem para ver o que dá. Ou se tem casa e carro, pagos pela empresa, como referiu num post que li e com o qual concordo 100%, ou então vão passar mal. Não será o mesmo ir de Portugal para qualquer país da Europa e vir de Portugal para Angola. Já me perguntaram, estupefactos porque é que eu não andava de transportes públicos ou, como era possível estes não existirem! Quando vim para cá tinha a perfeita noção do que ia encontrar. Por isso não me choquei com nada do que vi por cá. Ou melhor, vou-me chocando de vez em quando.
Conclusão, como o meu blogue só tem falado das coisas bonitas do país, com alguns desabafos pelo meio é certo, mas não mostra de todo, a realidade triste e suja de Luanda. Além disso, como verficou, o tema não é Angola. Qualquer coisa mais, pode contactar-me. Passarei sempre por aqui! :o)

Beijo

Migas disse...

Hummm... como disse o Hélio, paneleiro é homossexual mas isso é um termo português de Portugal! E digamos que é um termo "feio". Eu pelo menos não uso. :o) Por aqui já ouvi falar em "panini". Perguntem a um angolano para confirmar.

F. disse...

Hélio, a história do seu motorista é sensacional! Agora que você entrou para o time de colaboradores deste dicionário, explique aos nossos leitores o sentido de Kota.
Migas, obrigado por visitar-nos. A honra é toda nossa de sermos citados no seu blog. Eu já coloquei uma referência ao MCG na lista ao lado! E obrigado pela contribuição com as novas palavras. Este dicionário cresce a cada dia!

Viver em Luanda disse...

Caro F.

Kota (creio que a grafia é assim) é a forma respeitosa de chamar os mais velhos. Meu motorista trata-me assim.

Aliás, assustei-me no início quando um "puto" (miúdo, garoto) que fazia uns serviços no meu apartamento se dirigia a mim chamando-me de "pai"... isso me incomodava.

Depois me esclareceram.. era uma forma respeitosa... eu era mais velho do que ele e não ficava bem ele se dirigir a mim como se fosse um igual (ou coisa parecida com isso).

Apesar de muitas mudanças ainda se percebe o respeito pelos mais velhos. Principalmente no interior.

Não sou tão velho assim, mas acho que inspiro respeito.

Abraços,

maria disse...

Uma dica pra ti f.;)
Um dia vai almoçar um bom peixinho fresco com funge e batata doce, feijao de oleo de palma no "Quintal da Tia Guida" ( na ilha +/- em frente ao Tamariz, do outro lado da rua )

Migas disse...

Concordo com o Hélio. É uma forma respeitosa, assim como pai. A mim, chamam-me mamã ou madrinha! Acho que com a mesma intenção! :o)

Partilho do meu gosto da Maria. Um restaurante a ir, obrigatoriamente! :o)

P.S. Vou então escrever o post.

F. disse...

Hélio, obrigado pela explicação. Maria, obrigado pela dica. Vou experimentar.
Migas, obrigado pela indicação no seu sítio.

Rodrigo disse...

olá a todos,

essse "pequeno dicionário angolano" está se tornando um gigante heim...

as palavras que eu havia postato anteriormente são as mais comuns, conheço muitas outras, mas vamos com calma ya? quem sabe com o passar dos dias já decorem as mais comuns e passemos de "nível"..rsrs

tais a ver pá?

aí vão mais:

bitola = cerveja;
maca = problema;
xinguilar = ficando maluco;
panina/paneleiro = homossessual;
bikini = cueca;
cuiar/bala = tudo bem - "como é, tás fixe? r: ya, to a cuiar, to bala";
deitar fora = jogar fora;
porreiro = legal - "esse gajo é bem porreiro";
fatigar = canseira - "tás a me fatigar";
calão = gíria;
boda = festa;
boiado = bêbado,
rotunda = rotatória.

até a próxima, deu branco agora...rsrs

abçs

Migas disse...

Para cerveja pode usar-se biricoca também. :o)
Fatigado também igual a avariado. A máquina está fatigada=avariada.

Vivi disse...

Sensacional. Adorei a idéia do dicionário. Bitola para cerveja chega a ser engraçado. Aqui tomamos cerveja para desbitolar um pouco...rs

Menina de Angola disse...

Olá,

Eu estou em Angola há mais ou menos 3 semanas,todo dia escuta uma palavra diferente e olha que sou de família portuguesa, então muito do que se fala aqui eu já conhecia. O engraçado é que a gente acaba incorporando as palavras ao dia a dia e até esquece. Eu estou fazendo um blog também, mas não é tão crítico quanto o de vcs. meninadeangola.blogspot.com

Algumas palavrinhas para o dicionário:

Galão - Copo de café com leite
Fita de colar - durex (durex é uma marca de camisinha, cuidado quando pedirem a alguém, rs).
bj

F. disse...

Hélio, Rodrigo, Migas e Menina de Angola: obrigado pelas colaborações. O dicionário já tem mais de 50 termos graças a vocês, Vou organizá-lo por letra e colocá-lo no sítio em breve.
Vivi, pelo que vejo nas ruas aqui, a galera é bem bitolada, se é que você me entende.

Anônimo disse...

Pois é F., o dicionario Angolano, me faz lembrar dos meus tempos
de criança, quando meu primo Miltom passava na minha casa no fim da tarde, de volta do trabalho, e a sua avó oferecia a ele o mata-bicho que era uma pinguinha. Minha tia Aurora também nos falava, quando éramos pequenas: "Vai tomar pico", que não era outra coisa que tomar injeção. São as origens portuguesas, ou não?
Bjs Bia.

F. disse...

Pois é Bia, como alguém escreveu por aí, num livro ainda não publicado, "é sempre a língua, que, cantada em diferentes sotaques, continua a nos atar a todos a um mesmo destino em tantas terras distantes". Bjs.